Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Páscoa: Jesus, as diferenças e a vida!

Páscoa: Jesus, as diferenças e a vida!

09/03/2018 20h56

 

Vivemos o período da Páscoa. Tempo de ressurreição e vida! Tempo de saltar sobre a morte, afinal esse é o significado da Páscoa! Tempo de esperança renovada do Reino “já e ainda não”! E também tempo de refletir sobre a vivência do Reino nosso de cada dia, pois precisamos cotidianamente saltar sobre os desafios para chegarmos a vida plena. E os desafios estão no nosso cotidiano. Eles estão na falta de acolhida, na ausência de afetos, no não reconhecimento da presença do Messias entre nós, nas relações estremecidas pela falta de contato e pelo desrespeito com nossas diferenças... No texto de Marcos 14.3-9, encontramos Jesus mais uma vez ensinando sobre o Reino, sobre a vida e sobre a ressurreição. Ele conversa com vários personagens, e cada um à sua maneira nos ensina sobre como construir o Reino de Deus em nosso meio respeitando as diferenças e promovendo a vida. Vamos a eles/a:

 

1. Simão: dono da casa

 

Lemos no texto que Jesus estava em uma casa. Uma casa na periferia: Betânia. E aqui, possivelmente, na periferia da periferia, pois estava na casa de um leproso, ou talvez um ex-leproso. Mas como se sabe, na tradição judaica ao leproso não era permitido o convívio social em função do mal que lhe acompanha. Portanto, ele vive só, a mercê dos caprichos da sociedade em que está inserido e da comunidade que participa. Interessante ver Jesus em sua casa, reclinado à mesa... mesa da comunhão, da partilha, do convívio, da aceitação mútua... Sim, Jesus aceita o leproso e vice-versa. Ambos vivenciam a experiência de partilhar à mesa a vida que Cristo veio anunciar, onde não há acepção de pessoas, divisão de classes, discriminação, mas uma vida permeada pelo acolhimento, no qual o amor e o respeito são os laços que se unem para tecer uma nova trama nessa história de tantos retalhos divididos pela classe, raça, religião, gênero... e que agora é tecido pela esperança do Reino aqui e agora. O movimento de Jesus para Betânia nos ensina um caminho de aceitação e comunhão com aqueles/as que carecem do Evangelho vivo, mas que também podem oferecer em suas casas, vidas, lugar de acolhida e de partilha da vida, mesmo “aquela, franzina, em barracos escuros” (RAMOS, L. C). O Evangelho que chega a Betânia na casa de Simão constrói caminhos de paz, de justiça e de equidade... Jesus se senta à mesa com um leproso, um excluído! Afinal, não é para os doentes que ele veio?

 

2. Uma mulher: dona do bálsamo

 

Mas essa trama ainda contém linhas que costuram histórias eternas, ressurretas... a mulher que unge a Jesus o faz em retrospecção a unção messiânica. Se ela tinha consciência disso ou não, nós não sabemos. Mas sabemos que ao ungi-lo ela reconhece que a era messiânica chegou. Assim como no Antigo Testamento o messias, rei, era ungido, Jesus o foi para testemunhar sua presença entre nós, mas não pela instituição sacerdotal, e sim pelo reconhecimento da comunidade representada por esta mulher que o reconhece como o Messias. Ele foi ungido! Sim, como preparo para a sepultura como nos relata o texto, pois era costume na época. Mas o que é a sepultura para o Messias senão uma Páscoa? Um salto sobre a morte? E é essa mulher que reconhece que Jesus é o Messias, filho de Deus, que veio para evangelizar leprosos, mulheres e discípulos/as... é a mulher que aponta para a chegada da era messiânica do Reino de Deus. Ele está entre nós. A unção descortina diante dos/as presentes uma realidade ausente até então. A unção diz sobre morte sim, mas mais ainda diz sobre a vida que o Messias veio conceder, vida plena e digna para todos/as.

 

3. Os discípulos: “donos da verdade”

 

Muitas vezes as costuras da espiritualidade são feitas pela tentativa de institucionalização do carisma. E, portanto, são costuras rotas... que se desfazem com facilidade, pois não se sustentam diante do Evangelho carismático e dinâmico, que se faz no caminho da vida. E assim aconteceu com os discípulos. O que eles conheciam sobre espiritualidade perpassava o caminho da norma, regra, lei no sentido lato da palavra, e não da instrução para bem viver, como podemos traduzir a palavra Torah. Tal espiritualidade é problemática porque não passa pelo Evangelho praticado e ensinado por Jesus. Assim, eles demonstraram sua incompreensão com as atitudes de Jesus e da mulher: ele por estar em um ambiente considerado impuro e ela por “gastar” o suficiente para alimentar os pobres. Jesus, então, intervém por meio da citação de Deuteronômio 15.11 (texto que os discípulos conheciam muito bem!), onde relata a existência de pobres, mas prescreve a necessidade de se praticar boa ação para com eles, pois esse grupo social era responsabilidade da comunidade. Em todo o caso, quem era Jesus? Um judeu, pobre, filho de imigrantes, que não tinha onde reclinar a cabeça... e mais, se unia a pessoas como Ele! Sua resposta aos discípulos demonstra que aquela atitude da mulher tinha sido uma boa ação: Os pobres sempre tendes convosco, por que não os ajudaram ainda? Por que não praticais boas ações para com eles? A comunidade é responsável pelos pobres, vocês são responsáveis por eles.

 

4. Jesus: Messias de todos/as

 

Jesus nesse relato faz sua interlocução com todos os personagens envolvidos, e igualmente lhes orienta e ensina sobre como bem viver com Deus e o/a semelhante. Primeiro, Ele o faz com Simão quando se aproxima e o aceita como ele é. Comunga com o alimento para vida eterna: viver em união. Já com a mulher, Jesus exercita sua autoridade reconhecendo-a como aquela que pratica boa ação ao ungi-lo como Messias, mas também pelo cuidado dela para com Ele. Unção que reconhece Jesus como o ungido, mas que o prepara para a dor, traição e morte. Ela o ungiu para a sepultura... ora quem morria na cruz não tinha direito a sepultura, ou era deixado na cruz, ou era enterrado como indigente, mesmo assim ela o preparou para realizar sua missão.

 

E com os discípulos, Jesus ensina de modo especial sobre a aceitação, sobre o que é o verdadeiro sentido de partilha e sobre o que é boa ação. Mais que isso, ensina sobre um dos aspectos da ressurreição: “onde for contada essa história, ela será lembrada”, ou seja, hoje essa mulher ressuscita à medida que a sua boa ação para com Jesus é relembrada. Com o mesmo tecido Ele constrói novas formas de reconhecer a presença de Deus na vida de cada um/a: seja comungando, seja reconhecendo, seja ensinando! Por tudo isso, nós nos certificamos que Jesus costura uma bela história na relação com as pessoas promovendo um ensino cheio de vida e que transforma vidas.

 

Conto essa história...

 

Neste relato aprendemos com Jesus sobre como acolher e conviver com as diferenças. Vivemos um tempo regido pelo individualismo desrespeitoso para com aqueles/as que pensam e vivem de modo diferente. Um tempo onde a acolhida não tem sido a linha que costura as relações, antes estão rasgando corações que se encontram sozinhos em meio à multidão. Jesus nos apresenta como funciona a dinâmica do Reino, que muitos/as de nós insistimos em não compreender: Reino é partilha, é boa ação, é aceitação, é viver a ressurreição todos os dias! É esse o Reino que Jesus veio construir, para que todos sejam um.

 

 

Bibliografia

BALANCIN, E. Martins. Como ler o Evangelho de Marcos: quem é Jesus. São Paulo: Paulus, 2003.

MYERS, C. O Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulinas, 1992.

MESTERS, Carlos e LOPES, Mercedes. Caminhando Com Jesus: Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos. São Paulo: CEBI/PAULUS, 2003.

 

 

Texto: Suely Xavier dos Santos

Foto: Isabelle de Freitas

 

 

 

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre: ,

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: