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Participantes do Projeto SOL-África reúnem-se com bispa de Moçambique

28/05/2012 13h55 - última modificação 28/05/2012 13h57

No dia 24 de maio, a equipe docente que participará da 6ª etapa do Projeto SOL-África, indo a Moçambique e Angola para ministrar cursos de capacitação teológica durante os meses de junho e julho, teve uma reunião com a Bispa Joaquina Filipe Nhanala, de Moçambique.  Neste encontro, os/as participantes do Projeto falaram sobre suas expectativas e sobre o conteúdo a ser apresentado em Moçambique. Também puderam ouvir da bispa as expectativas da Igreja em Moçambique além de considerações gerais que auxiliarão a coordenação do projeto a concluir os últimos encaminhamentos necessários antes da viagem. Este foi o primeiro encontro entre a Bispa Joaquina e a coordenadora do projeto, Blanches de Paula. Abaixo, você lê um relato publicado pelo professor Marcelo Carneiro, em seu diário de viagem:

 

Sentados com aquela mulher tão expressiva, após 3 horas de reunião, a sensação era que poderíamos ficar mais um tanto ali, ouvindo-a. Voz tranquila, expressão serena, e profunda sabedoria nas palavras, assim é a Bispa Joaquina Nhanala, de Moçambique. Poderia aqui discorrer sobre a importância de tê-la nesse espaço num país onde o papel do masculino é preponderante, refletindo a Semana Wesleyana que está acontecendo nesse momento. Mas vou tratar disso em outro post, prometo.

Esse encontro teve como objetivo levantar questões, a respeito da expectativa dos moçambicanos sobre nossa visita, bem como conhecer aspectos que nos esperam, especialmente em termos culturais. Foi uma conversa informal, mas muito instrutiva, leve e agradável, que nos fez pensar muitas coisas. Abaixo vou inserir alguns aspectos conversados, que anotei em tópicos.

Importante saber que são ideias fragmentárias, não um retrato da cultura e do povo de Moçambique. Aliás, acho que o mais difícil num processo desses é despir-se de pré-conceitos, visões estereotipadas e certa postura arrogante, de achar que nossa cultura e país é mais avançado que a deles. Mas faz parte desse encontro repensar nossas convicções e compreensões.

Vejam então alguns temas que Bispa Nhanala nos ensinou sobre o povo moçambicano e a cultura africana:

Expectativa sobre a nossa visita: que quem aprenda possa ensinar depois (que é o objetivo desde projeto, desde que foi criado). Nós somos mufundises. Na África, Pastor é chamado mufundise (terminação indica um dialeto específico) que significa também professor. Isso é maravilhoso, porque confirma a vocação docente do ministério pastoral.


Sobre a língua portuguesa: as línguas em África são múltiplas, e as palavras variáveis, por isso o idioma português acaba sendo um aglutinador de diferentes culturas. Segundo a Bispa Nhanala, esse é um dado positivo da colonização: "Mas que bom que fomos colonizados em português, poderemos nos comunicar". Me fez pensar que um processo histórico negativo pôde deixar traços positivos entre povos tão diferentes. Reflexo de processos antigos, como o que deu origem aos textos do Novo Testamento em grego.

Método educativo mais adequado para o programa: público misturado (pessoas com preparo diferente – EUA, Africa University e Moçambique). Divisão em grupos e liderança da parte deles pode existir, é bom, mas se espera que mostremos o máximo.

Solteiros e não solteiros – um grande problema cultural. Há um bloqueio para  casados aceitarem o conselho dos solteiros. Casados são considerados mais importantes e socialmente mais maduros.

Divisão geográfica da Igreja: há três regiões em Moçambique: norte, sul e África do Sul. A etnia predominante na Igreja Metodista: xitsua. Historicamente, os portugueses tentaram suprimir as culturas locais, porque nunca pensou em sair da África. Quando se tornou independente, o governo trabalhou contra o tribalismo. Várias etnias, dialetos e idiomas locais.

Islamismo: relações amistosas com a Liga Muçulmana de Moçambique (tendência do Islamismo de arrebanhar um maior número de adeptos– investimento milionario para construção sistemática de mesquitas, em várias cidades e bairros, inclusive o interior) – trabalho conjunto para tratar de questões comunitárias e públicas, como malária, etc. Um exemplo para a questão ecumênica e do diálogo interreligioso.

Problema do adultério: homens que são casados e mantêm namoradas fora do casamento: poligamia não oficial. Polígamos que se convertem podem manter suas esposas. Mas a Igreja oficialmente só admite a monogamia. Polígamos não podem ser pastores. Em Moçambique seminaristas são jovens, e por isso a maioria dos pastores são jovens (menos de 50 anos).

Ancestralidade: os anciãos são a cabeça, que representa a autoridade. Nas cerimônias de acolhida a cabeça do animal que foi servido vem cozida e é apresentada à maior autoridade presente, mas não precisa comer, basta provar. Curiosamente a bispa Nhanala foi uma das raras mulheres a provar uma cabeça numa cerimônia para homens. A cultura da ancestralidade é muito forte – na África, quando se crê em alguma coisa é muito difícil mudar. Por isso têm dificuldade em pensar sobre homossexualidade, são conservadores.

Religiosidade popular: em momentos de crise, o povo corre pra religião tradicional. Por ex: pedir algo aos antepassados. Ali, não se separa o secular e o sagrado, o sagrado influencia o secular. Quando a doença ou coisas parecidas acontecem, as pessoas buscam nos antepassados a força, bem como nas divindades. Para a Igreja isso é visto de forma negativa. Mas, a tradição semita permite ver aspectos positivos nisso: senão como fica o conceito do Deus de Abraão, Isaac e Jacó (que o autor de Hebreus afirma que estão vivos!)?

Ordenação feminina: o ministério feminino tem 30 anos. As mulheres tiveram importante papel na luta de independência de Moçambique; podiam participar do dia a dia sem problema e ao mesmo tempo treinar nos campos para a luta. Por isso o governo de independência deu valor à mulher, e tem funções de poder na sociedade, o que influenciou a Igreja. Há muitos problemas de violência contra a mulher (doméstica principalmente), por isso há uma necessidade (um dos temas que iremos tratar é paz para os que estão perto = trabalhar saúde como não violência).

Estes aspectos são parte do quadro que vamos conhecer mais de perto, ou pelo menos conviver. O desafio de não ser arrogante e ao mesmo tempo poder passar um pouco do conhecimento é um dos principais, junto com o cuidado para não pegar malária. Quanto ao clima, que vai estar ameno, o assunto foi responsável por um dos momentos cômicos. Diz a Bispa: "é bom levar uma camisola". Não entendemos muito bem, olhamos pra Blanches, até que alguém quebrou o silêncio: "mas o que é camisola?", perguntamos. "É o agasalho", disse a Bispa. Em Moçambique, blusa é camisola. E vamos que vamos...

Foto oficial da reunião. Da esquerda para a direita: Demétrio Soares (assistente do Programa de Relações Institucionais), prof. Luciano Lima, a Bispa Joaquina Nhanala, prof. Blanches de Paula, prof. Helmut Renders e prof. Marcelo Carneiro. Foto: Luciana de Santana

Extraído do blog do professor Marcelo Carneiro: "Sol África 2012 - Diário de Viagem" http://solafrica2012.blogspot.com.br/

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