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O povo na rua, a política ferve: e a relação com a religião? Análise da Profa Magali Cunha

17/06/2013 12h20 - última modificação 17/06/2013 12h19

16 de junho de 2013

O povo na rua, a política ferve: e a relação com a religião?

Um primeiro balanço dos últimos tempos


Por Magali do Nascimento Cunha


O Caso Marco Feliciano, de abril passado, foi, de fato, um caso paradigmático para a relação mídia-religião-política. Ele potencializou um movimento que já se desenhava desde as eleições de 2010 com a Frente Parlamentar Evangélica colocando-se como a defensora da família e da vida, contra os movimentos sociais pelo reconhecimento dos direitos humanos sobre o corpo e a sexualidade. O caso deu caráter político às "marcha para Jesus" e gestou a "Manifestação pela família e pela liberdade de expressão" em Brasília, dando mais visibilidade ao segmento e criando a imagem de que têm poder sociopolítico.

As Marchas para Jesus e a Manifestação de Brasília foram movimentos bastante significativos. O pastor promotor Silas Malafaia mesmo advoga: não é qualquer grupo que consegue colocar 40 mil pessoas na rua numa quarta-feira que não é feriado, para manifestar-se publicamente. É fato que muitos fieis participantes de marchas e manifestações lá foram mais motivados pelo momento gratuito com as celebridades do universo gospel – cantores e as canções que embalam os eventos e pregadores midiáticos - do que pelos discursos e suas temáticas. Isto não é novo: os “showmícios” das tantas campanhas eleitorais do passado já evocavam esta leitura e por isso estão proibidos pela Lei Eleitoral. Mas é também fato que houve uma resposta à convocação. A internet está cheia de espaços em sites, blogs e redes sociais preenchidos por manifestações das mais diferentes simples pessoas que expressam seu apoio a essa causa. Como interpretar este processo? Há um elemento aí para pensarmos.

E o povo nas ruas?
Claro que os fieis das igrejas evangélicas no Brasil são hoje receptores de uma ação discursiva terrorista por meio de publicidade midiática em detrimento de uma busca por justiça e dignidade. Basta ver que não há qualquer palavra pública dessas ou de quaisquer outras lideranças evangélicas ou católicas romanas midiáticas ou expressivas sobre as recentes manifestações nas ruas das grandes cidades por justiça no transporte público. Nem mesmo uma palavra dos grupos religiosos de visão política conservadora que certamente criticariam as manifestações. Nem isso. Não, estes temas não mobilizam igrejas. Mas, e os tantos crentes que estão nas ruas sofrendo a repressão policial? Provavelmente são avaliados como "fora da visão", bagunceiros, arruaceiros, esquerdistas, liberais.

As lideranças em questão, com suas práticas políticas em outra direção, indicam buscar gerar impacto e visibilidade para um grupo político articulado (não necessariamente de legenda) por meio de uma lógica do terror que alerta para uma destruição da família, da vida e um silenciamento da voz das igrejas com a afirmação de um inimigo – os defensores do homossexualismo e do aborto – materializado em lideranças parlamentares e do governo federal petista. Sexualidade e corpo rendem mais dividendos à lógica da visão de mundo religiosa, em especial dos evangélicos. Ao demonizarem essas lideranças públicas, o pastor Silas Malafaia, o deputado Marco Feliciano e seus aliados encontram uma fórmula de tentar adquirir controle político sobre expressivo número de fieis das igrejas, que na sua sinceridade e pureza, não consegue fazer uma leitura crítica desta estratégia e acredita estar adentrando numa cruzada que o coloca acima dos “infiéis” destruidores da vida e valores morais cristãos.

Está claro que a Frente Parlamentar Evangélica elegeu a sexualidade como um tema para conquistar a atenção de eleitores ligados à religião (não só evangélicos mas também católicos romanos sensíveis com a temática).  O discurso tem um nítido tom de violência simbólica com a audiência. Como se sabe, as pessoas das igrejas, em geral, cultivam uma piedade de pureza e de sinceridade emocional, nem sempre analisando criticamente os discursos religiosos, especialmente de autoridades. O vídeo da palestra da advogada/pastora Damares Alves é uma nítida manipulação de textos e de informações para se adequarem, ilicitamente, ao seu discurso, somada ao fornecimento de dados inexistentes ou inverídicos e às histórias sem referências, que podem perfeitamente ser ficção, com o intuito, pelo visto alcançado, de criar incômodo entre a audiência religiosa, na clássica estratégia de reforçar imaginários quanto aos inimigos.


É preciso considerar que é difícil para grupos religiosos de formação socialmente conservadora (manter as realidades tal como se constituem sem avanços no campo social e cultural, nesse caso) aceitar que o Estado, que não tem uma religião oficial, cuide da saúde física e mental da população de todas as faixas etárias promovendo educação para a sexualidade, tema de difícil trato no campo das religiões, em especial das igrejas. É preciso lembrar que saímos de uma ditadura militar e começamos a reconstruir os processos democráticos nos anos 90, há apenas 20 anos, e que todo o período da ditadura foi marcado por um moralismo extremo, sustentado pela censura, e aplaudido por vários grupos religiosos. Na reconstrução democrática a partir dos anos 90 o Brasil começou a ser reeducado a lidar com o Estado e seu papel, o que incomoda, certamente,  grupos religiosos afinados com o conservadorismo moralista.


Mensagem enviada à editora deste blog reflete bem o que o vídeo de "defesa da família" significa:  "Recebi aquela mensagem da tal doutora (pastora)? e fiquei superchateada pois ela fala da Holanda sobre fatos totalmente irreais. Minha filha mora na Holanda, Amsterdam, já há dez anos e ela tem muitas amigas aqui e a família do marido. Nunca ninguém foi orientado a manipular seus bebês como esta senhora falou. Assim que recebi o vídeo eu escrevi a ela pedindo cópia da tal cartilha. Passados uns dias ela me respondeu dizendo estar muito ocupada e que me mandaria assim que possível a copia da cartilha. Eu falei que podia ser até um site sobre o assunto. Até hoje nada. Fico muito aborrecida com estas mentiras. Li seu texto e creio que é isso mesmo que vem acontecendo. Claro que estamos num momento em que tudo se tornou normal e às vezes nos mesmos cristãos vamos aceitando tudo que a mídia e a sociedade impõe, mas também precisamos pesar tudo à luz da palavra com muito amor, pois eu ainda a tenho como Luz para meu caminhar. Escrevo a você pois vi que você a questiona e como estou aqui na Holanda com minha filha e netinho, isto de certa forma nos afetou".

A retórica do terror
A "retórica do terror" mexe com o emotivo da audiência em busca de apoio ao que se quer transmitir, pois enfatiza o medo em determinados elementos da conjuntura por conta consequências dramáticas que podem ser trazidas para a vida desta audiência.

Nesse sentido, vale lembrar que faz parte das estratégias no quadro das disputas político-ideológicas baseadas no enfrentamento de inimigos estabelecidos simbolicamente, criar uma “guerra” pela visibilidade, que comumente envolve números e exposição nas mídias. Nesse sentido, os grupos evangélicos que estão buscando ampliar espaço na arena política fazendo uso da plataforma da defesa da família, da vida e da liberdade de expressão, cujos inimigos são os movimentos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais) e feministas, encarnados nas ações do governo federal, esta guerra ficou explicitada já na competição entre lideranças da Marcha para Jesus, realizada no Rio de Janeiro e da Parada do Orgulho Gay, realizada em São Paulo.  Todo o tom dos discursos gira em torno da ameaça que o reconhecimento da homossexualidade como um direito humano representa para as famílias. Fala-se em destruição da família. A reação dos grupos de homossexuais e feministas a tais abordagens com críticas e agressões verbais foi explorada pelas mídias noticiosas e acabou dando mais força a tal retórica. Afinal, outra  estratégia da retórica do terror, é reforçar a ideia da perseguição com argumentos como “querem nos calar” ou “não nos dão o mesmo valor como dão a eles [os inimigos]” ou “vejam quantos aliados contra nós”. E esta prática foi amplamente identificada em discursos de apoiadores da Manifestação de Brasília organizada pelo Pr. Silas Malafaia por meio de blogs e das  redes sociais alegando a pequena ou quase inexistente cobertura das mídias noticiosas ao evento dos evangélicos diferente da ampla cobertura da Parada Gay. Claro que não houve condições de se sustentar este discurso por muito tempo já que os próprios interlocutores da lideranças evangélicas passaram a indicar e a “louvar” a divulgação da manifestação pelas mídias.

De novo, vale refletir que as lideranças evangélicas que buscam ampliar espaço no cenário da política estão encontrando fórmulas de tentar adquirir controle político sobre expressivo número de fieis das igrejas. Estes, na sua sinceridade e pureza de fé, muitas vezes não conseguem fazer uma leitura crítica desta estratégia e, por isso dão credibilidade ao discurso simbólico estrategicamente construído pelos líderes. Neste jogo da política, cada movimento tem que ser monitorado e interpretado como estratégia. Nada é gratuito.

As igrejas são instituições que integram a sociedade civil e como qualquer outra têm direito a se manifestar, avaliar e cobrar procedimentos do Estado e de suas instituições. Isto é legítimo e válido. É uma forma de as igrejas expressarem sua presença pública e testemunharem o Evangelho do amor ao próximo pensando neste próximo e no bem comum, tal como deve ser trabalho pelo Estado, com base na justiça e na paz. Denunciar tudo que atente contra a vida humana e o bem comum deve ser papel profético das igrejas, por meio de conteúdo de pregação e palestras em igrejas, e por meio de encaminhamentos aos órgãos públicos competentes. O que significa trabalhar com linguagem própria do espaço público por justiça e equidade e não por bandeiras particulares e reduzidas a um só tema - o da moral sexual. Algo que carece de questionamento, portanto, é o uso de conteúdos manipulados e não verdadeiros para conquistar adesão e que trabalhem com alardes emotivos, que não permitam que as pessoas reflitam e avaliem a validade ou não de tais denúncias. É apelativo e, no mínimo, indigno da parte de lideranças religiosas.

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