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"O creme encaroçou..." Uma análise da Igreja Evangélica no Brasil pelo Bispo Nelson Luiz Campos Leite

13/03/2012 11h35 - última modificação 13/03/2012 11h35

IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA: "O creme encaroçou...".
Artigo do bispo Nelson Luiz Campos Leite, o mais novo colaborador da FaTeo

Estamos desejosos de fazer um creme. Preparamos todos os ingredientes e cuidadosamente seguimos as instruções do receituário. Vimos na TV os mestres da culinária prepará-lo e agora chegou a hora de provar se dá certo.

Tudo em ordem, mãos à obra. Depois de seguir os pormenores colocamos tudo no fogo brando. Com uma espátula especial mexe-se cuidadosamente o creme. As tacinhas já estão prontas para recebê-lo e a boca começa a salivar. Depois de alguns poucos minutos começa-se a ver o fundo da panela. Alguma coisa não está dando certo, pois algo não parece dar levidade ao creme e pelotas encaroçadas começam a surgir. Ih! Parece que tudo encaroçou e não vai dar para  saber se o gosto será o mesmo ou se poderá comê-lo.

Realmente, algo não previsto aconteceu. É como se dizia no passado: “O angu encaroçou...” e não será o mesmo.

Essa é uma analogia ao movimento evangélico iniciado no final do século XX e princípio do século XXI.  Os “evangélicos” cresceriam no Brasil – de 5% para 15% e logo mais 25% , até chegarmos a ser maioria. Contando os praticantes, já somos maioria. Temos templos e campos em todas as partes do Brasil. Há um enorme número de pastores e pastoras. Igrejas novas são formadas diariamente, mais de dez por semana. Há euforia, exaltação para sermos um Brasil evangélico e termos em breve, um presidente Evangélico. Uma nova ordem de valores surgirá confrontando os valores da cultura atual. Esse era o “grande e delicioso creme” que previa-se estávamos fazendo.

Só que – as disputas começaram. Quem será o grande líder? Cada denominação ou novo grupo religioso entra na disputa. Espaços são abertos para todo tipo de “evangelho”, que nos dizeres de Paulo “um novo evangelho”.

Os fundamentos básicos da fé cristã evangélica e reformada são deixados de lado; uma série de tendências surgem com os “neo carimatismos, evangelicalismo, ortodoxismo, protestantismo” e tendências de todos os tipos surgem buscando cativar o povo, aglutiná-lo sob a bandeira  dos “evangélicos”.

O creme começa a ficar disforme. Surgem tendências de interpretação e fundamentação bíblica e teológica de todos os tipos:modismos dos últimos tempos, profetismos oriundos do Canadá e EUA; a busca pela prosperidade, anseio pelos valores materialistas, compulsão pelo consumo, bênçãos e maldições anunciadas e acumuladas; a emoção passa a ser dominante...o que vale é “crescer, competir”, de qualquer forma.

Tudo isso começa a “encaroçar” o creme, torná-lo incomível, um “angu de caroço”. Os meios de comunicação, a mídia passa a ser dominada e ditada por esse “outro evangelho”, que de tão descaracterizado que fica é difícil identificá-lo. Se Lutero, Calvino Wesley ou melhor Jesus Cristo, Pedro e Paulo  chegarem até nós, não saberão dizer o que significa tudo isso e nem do que se fala.

Compra-se a Graça, o mérito. A doação de recursos e bens assume o  lugar da fé. Sempre há de ter-se uma “novidade” efervecente, uma animação “gospel, musical, teatral, espetacular”. É tempo não de adoração, mas de “mega-show”.

A competição cada vez é maior entre os grupos evangélicos. Surgem as “megas Igrejas” – universais, internacionais, mundiais e outros “ais”. O pior é que mesmo dentro das Igrejas consideradas históricas a descaracterização existe e começam a confundir e distorcer.

Há Igrejas que deixam de ser Igrejas, agora são movimentos desistitucionalizados. Líderes honestos, com história, ética e tradição sentem-se chocados com a situação. O “caroço” é grande demais. Alguns desistem de continuar a ser “evangélicos”. Outros preferem ser reformados ou neo-católicos. Ouve-se proclamarem que estamos próximos à “era pós-denominacional”, “pós-institucional”, já presente na Europa, em parte nos Estados Unidos, onde cresce o islamismo ou o ateísmo torna-se uma forma de expressar a fé.

No Brasil vive-se uma grande confusão, onde líderes os mais diversos tentam convencer a sua lealdade cristã, a sua identidade evangélica e buscam salvar toda essa descaracterização.

No  fundo vemos a grande dificuldade para aquela pessoa que ainda não acolheu a “plena Graça de Cristo”   em entender tudo isso e muito menos aceitar essa situação.

Há um descrédito em muitas áreas. Políticos evangélicos que contradizem a sua fé ou vendem-na. Grupos de políticos evangélicos nas casas legislativas que não alcançam confiabilidade e somente buscam os seus interesses sectários, utilitaristas e casuístico.

Antes dizia-se que estávamos na “onda do avivamento”, “do fogo ardente do Espírito”. Mas os frutos desmentem – avivamento sem direito, sem verdade, sem justiça, sem paz, sem reconciliação, sem amor, sem unidade, sem caráter, sem testemunho ético, materialista, interesseiro pelos bens, buscando a prosperidade, perdendo a visão escatológica do Reino, pregando a si mesmo no lugar de pregar o genuíno Evangelho de Cristo...

O Senhor clama por autenticidade, fundamento Cristológico, centralidade na Palavra, Senhorio de Cristo...uma “nova reforma”, sob os fundamentos da Graça Genuína de Cristo e da Soberania divina.

O “creme encaroçou, azedou, está incomivel. Não dá para reformá-lo, aliás “remendo novo em pano velho" não dá certo na ótica de Cristo e nem “vinho novo em odres velhos”.
É momento de “estar na torre como Habacuque”. Ver, contemplar, ouvir ao Senhor. Ele sempre “cria novas coisas”, mas “novas que são coerentes com aquilo que Ele é – a Sua natureza, o Seu caráter, a Sua maneira de Ser, a Sua Gratuidade, a Sua Justiça , a Sua verdade e o Seu  direito.

Muitos afirmam: “onde há o Espírito do Senhor há liberdade”. Liberdade não é fazer o que quer, o que a emoção nos leva a fazer, a agir de qualquer maneira. Sim, há liberdade dentro de princípios e valores bíblicos e evangélicos.

É momento de refletir... orar, vigiar e rogar ao Senhor o seu atuar em Sua Seara desbaratando os nossos “novos ídolos” da era pós moderna, sob os quais muitos de nós nos curvamos.

O sonho de um Brasil evangélico, presidido por evangélico, dominado pelo Evangelho é um sonho humano, ambicioso de um agrupamento de líderes e pessoas que aspiram muito. Só Deus sabe o que aspiram e para que aspiram.

“Venha o Teu Reino, Senhor e faça-se a Tua vontade aqui na terra como é feita no céu, inclusive na comunidade cristã chamada metodista.

Nelson Luiz Campos Leite - bispo honorário da Igreja Metodista

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