Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Revista Mosaico traz história do CAVE, preservada no Centro de Memória Metodista

Revista Mosaico traz história do CAVE, preservada no Centro de Memória Metodista

08/12/2010 18h04 - última modificação 08/12/2010 18h19

A revista Mosaico número 47 (junho/dezembro de 2010) traz como tema principal a importância da memória, a propósito da recente inauguração do Centro de Memória Metodista e apresenta uma das preciosidades do acervo: os documentos do CAVE - Centro Audio Visual Evangélico: |

CAVE em caixas de plástico. E encontre história


O pioneirismo do Centro Audio Visual Evangélico na comunicação social brasileira Gláucia e Vandison, jovens universitários moradores de São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, nunca imaginaram que um dia trabalhariam como garimpeiros. No entanto, contratados pelo recém-inaugurado Centro de Memória, todos os dias eles retiram novos tesouros de dentro de caixas de plástico azul: estão catalogando peças do acervo do CAVE, o Centro Audio Visual Evangélico, empreendimento pioneiro na área de comunicação eclesial.

Vários objetos do CAVE já podem ser vistos em exposição no museu histórico do Centro de Memória: saudosas máquinas de escrever, jurássico mimeógrafo, máquinas fotográficas mecânicas, projetores de slides, filmadoras.... essas peças lembram que o CAVE, nascido em 1951, atuou por 20 anos na produção de material audiovisual para igrejas evangélicas do país com uma infraestrutura completa. Teve laboratório fotográfico, estúdios de rádio e TV e até mesmo seu próprio parque gráfico. Mas os equipamentos não dizem tudo. As caixas de plástico azul, de onde começam a sair papéis amarelados com registros de reuniões, histórias bíblicas, contos infantis e ilustrações, falam do talento e dos sonhos das pessoas que acreditaram em um projeto feito para espalhar Boas Novas.


Empreendimento missionário


imagens/cave_wolf.jpg

O Centro Áudio Visual Evangélico nasceu graças ao empenho de um missionário presbiteriano norteamericano, o reverendo Robert Leonard McIntire, e um jovem pastor brasileiro recém-formado, o reverendo Celso Wolf (na foto acima, à esquerda). Empresa sem fins lucrativos, surgiu com o único objetivo de usar os meios audiovisuais para evangelização, a exemplo do que já ocorria nos Estados Unidos. Conforme diziam seus estatutos, a finalidade do CAVE era “produzir material audiovisual para a obra de evangelização e educação religiosa das igrejas evangélicas; promover a distribuição desse material e exercer as funções de publicidade para as organizações evangélicas”.

Segundo a doutora Karina Kosicki Bellotti, professora de história da Universidade Federal do Paraná que, desde seus tempos de graduação, vem pesquisando a história do CAVE, o trabalho era visto como uma “profissão de fé em que nenhuma denominação em particular se destacava, mas sim, um conjunto de ideais cristãos”. Eram membros cooperantes da instituição a Igreja Episcopal do Brasil, Fellowship Church de São Paulo, Igreja Metodista Livre do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente, Igreja Presbiteriana do Brasil, Igreja Menonita do Brasil, Igreja Cristã Reformada e Igreja Metodista.

As igrejas colaboravam financeiramente com o projeto, que também recebia o apoio da RAVEMCCO (Radio Audio-Visual Education and Mass Communication Committee), o departamento de comunicação da National Council of Churches in Christ, dos Estados Unidos. Inspirada pelo Evangelho Social, essa associação de igrejas evangélicas norteamericanas investia fortemente em missões – às quais a área de comunicação se relacionava diretamente. “Usar os meios de comunicação não significava somente distribuir folhetos proclamando as maravilhas do Céu, mas trazer soluções para a sociedade”, explica Karina Bellotti em sua tese de doutorado em História, pela Unicamp. Nessa perspectiva, o CAVE se inseria num projeto não apenas cultural, mas social, que buscava agir sobre o cotidiano das pessoas. E, para atingir esse propósito, buscava parcerias com as igrejas locais, a fim de transmitir a mensagem cristã por meio da cultura regional. “A ênfase era na produção de recursos audiovisuais que fossem relevantes para a realidade local, e que pudessem ser acessados pelo maior número de pessoas”.


imagens/cave_sede_Campinas.jpg

Em 1951, a produção do CAVE começou em um modesto endereço: o porão da casa da Missão Presbiteriana do Brasil Central, na Alameda Campinas, em São Paulo. Em agosto de 1958 já inaugurava sua sede numa propriedade de dois alqueires situada no quilômetro 9 da estrada Campinas-Mogi-Mirim, num prédio amplo que abrigava até dormitórios para visitantes, além de estúdios e laboratórios (foto acima).

Segundo Karina Kosicki, os laboratórios fotográficos do CAVE foram um dos primeiros no Brasil a realizar revelação de fotos coloridas. Ali foram também gravados discos (compactos e “long plays”), muitos deles pelo próprio coral do CAVE, filmes de 16 mm e vários programas radiofônicos, que eram oferecidos gratuitamente às Igrejas por um período de seis meses, mediante somente o pagamento de transporte das “fitas”. Havia programas evangelísticos, como “Cristo é a resposta”, com mensagens de cinco minutos do pastor metodista Charles Wesley Clay; programas musicais, como o “Cantai ao Senhor”, que apresentava “coros e solistas” evangélicos, e até radionovelas. Um dos maiores sucessos foi a série “Os grandes vultos da Bíblia”, que apresentava histórias de Abraão, Isaac, Davi, Rainha Ester...

Para as crianças, produziam-se materiais didáticos para serem utilizados nas escolas dominicais, especialmente transparências e “diafilmes”, palavra que requer tradução aos mais jovens: eram tiras de filmes de 35 mm, constituídas por uma série de fotogramas e destinadas à projeção de imagens fixas. Mas até desenho animado se chegou a fazer e, hoje, uma parte do talento de ilustradores e roteiristas pode ser descoberta no acervo preservado pelo Centro de Memória. Entre atas de reuniões e documentos financeiros existem vários originais de ilustrações, verdadeiras obras de arte que, agora, podem ser apreciadas novamente - CLIQUE AQUI para ver uma amostra deste trabalho

A segunda vida do CAVE

Infelizmente, após 20 anos de existência, o Centro Audio Visual Evangélico encerrou suas atividades. Várias razões são apontadas para explicar a falência do CAVE no ano de 1971. Destacam-se os problemas administrativos, inclusive com denúncias de má gestão, e financeiros, após a gradual (e já prevista) retirada do financiamento da RAVEMCCO, em um período de crescente inflação. Mas o CAVE ainda teria uma “sobrevida”, com a transferência de laboratórios e estúdios para o Instituto Metodista de Ensino Superior, IMS – segundo Karina Bellotti, atendendo a uma reivindicação da Igreja Metodista dos Estados Unidos, “a entidade que mais contribuiu com o CAVE”.

O IMS fez um convite ao fundador Celso Wolf para se reabilitar o CAVE em 1976. O professor Otoniel Ribeiro, coordenador administrativo da FaTeo, participou intensamente das atividades do CAVE nesse período. Ele conta que o reverendo Benedito de Paula Bittencourt trouxe Celso Wolf para dar aulas na recém-inaugurada Faculdade de Comunicação, assumindo a área de audiovisual. O CAVE passou a funcionar sob o andar térreo do Edifício Delta e continuou a produzir materiais pedagógicos para as Igrejas, contando com laboratório fotográfico e gráfica próprios. “Era tanto uma empresa quanto uma sala de aula. Os alunos de comunicação faziam estágio no laboratório fotográfico e na gráfica, onde produziam o Rudge Ramos Jornal ”, lembra o professor Otoniel.

No começo da década de 1980, os serviços da CAVE foram terceirizados. Foi a segunda morte da instituição – dessa vez, definitiva. Mas a pioneira experiência evangélica no campo da comunicação de massa foi tão marcante na história do protestantismo brasileiro que o CAVE jamais poderia morrer na memória das pessoas que dele participaram. Desde o fim das atividades do CAVE na Universidade Metodista, o professor Otoniel empenhou-se em recuperar equipamentos e documentos do acervo para preservar essa memória. Reuniu grande quantidade de material que, na década de 1990, juntou ao acervo do Museu Histórico da Faculdade de Teologia, inicialmente instalado no Edifício Gama. Com a criação do Centro de Memória Metodista, no Alfa, todo o material do CAVE foi direcionado para lá. Parte já está em exposição e parte vai sendo descoberta na minuciosa garimpagem das caixas de plástico azul, que revelam lembranças a quem vivenciou esse período e surpresa aos que não imaginavam uma produção tão intensa e profissional em plena década de 60. Para a pesquisadora Karina Bellotti, o CAVE apareceu como uma renovação na oferta da mensagem cristã, num período em que os protestantes buscavam retomar a expansão que experimentaram no Brasil no fim do século XIX. Foi um período em que ideias ecumênicas ganharam força suficiente para que iniciativas missionárias surgissem com novo vigor. Ainda hoje, portanto, refletir sobre a experiência do CAVE é refletir sobre o papel missionário da Igreja cristã na sociedade brasileira.


Suzel Tunes

matéria integrante da Revista Mosaico Apoio Pastoral/ junho-dezembro de 2010


Fontes de consulta:

Centro de Memória Metodista – Edifício Alfa, Universidade Metodista de São Paulo

Uma igreja invisível? Protestantes históricos e meios de comunicação de massa no Brasil (anos 50 a 80). Monografia de Karina Kosicki Bellotti para o Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, 2000.

Delas é o reino dos céus: mídia evangélica infantil na cultura pós-moderna do Brasil (anos 1950 a 2000) – tese de doutorado de Karina Kosicki Bellotti para o Departamento de História da Unicamp, 2007.

Crédito das fotos: imagens extraídas da monografia "Uma igreja invisível? Protestantes históricos e meios de comunicação de massa no Brasil (anos 50 a 80)", de Karina K. Bellotti.

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: