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Mais um aluno da FaTeo na Palestina: voluntário pela paz

29/01/2014 11h50 - última modificação 29/01/2014 11h51

Desde a segunda quinzena de janeiro, nosso aluno Rodrigo Ribeiro está na Palestina. Está participando, como voluntário, do Programa Ecumênico de Acompanhamento à Palestina e Israel (EAPPI), do Conselho Mundial de Igrejas, iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas que tem como objetivo apoiar os esforços locais e internacionais para por fim à ocupação israelense e promover a paz na Palestina, com base nas resoluções da Organização das Nações Unidas. Desde 2010 a FaTeo mantém um estreito diálogo com os organizadores do Programa e, em 2013, oficializou parceria para o envio de estudantes.

O programa reúne voluntários de vários países para trabalhar pela paz nessa região, oferecendo suporte às pessoas que mais sofrem nas terras palestinas ocupada pelo Estado de Israel.  Como relata Rodrigo: “Conversamos com as pessoas, ouvimos suas histórias, e, através da nossa presença e acompanhamento, tentamos ajudar o povo palestino em seus sofrimentos diários para ir, vir, enfim, existir em sua própria terra, controlada de maneira escandalosamente - só não vê quem é cego - injusta pelo governo israelense. Não estamos aqui simplesmente para defender esse ou aquele lado, mas para mostrar que a ocupação é ruim tanto para palestinos quanto para israelenses. Não somos a favor destes ou daqueles, e, sim, de ambos. Somos pelo fim desse apartheid e pela paz.  Por intermédio do Facebook, Rodrigo está relatando um pouco das atividades que desenvolverá com seu grupo nos próximos três meses.

Espécie em extinção

Conheci um policial palestino que se mostrou muito interessado no Brasil enquanto conversávamos. Ele me perguntou se muitas pessoas possuem armas no Brasil. Eu lhe respondi que não, que armas são ilegais, a não ser que você seja policial ou tenha uma licença especial para portar uma. Expliquei que a caça não é popular e que, na verdade, é proibida com a finalidade de preservar espécies em extinção. Ele virou pra mim e disse: "Vocês podem fazer o mesmo por nós?"... Na hora, eu não entendi, e, percebendo meu olhar confuso, o policial explicou: "Proibir a caça aos palestinos! Nós também somos uma espécie em extinção".

 

Bombas no quintal

 

Os settlements são assentamentos israelenses encrustados em terras palestinas. Essas colônias são ilegais de acordo com leis internacionais, mas Israel não se importa. É um modo de tomar cada vez mais o território palestino. Os assentamentos são construídos em áreas estratégicas, perto de vilas palestinas ou fronteiras. Essas construções causam vários transtornos para os moradores locais. Como se costuma dizer por aqui: onde há assentamento, há problema.


A foto ao lado mostra uma das caixas de bombas e cartuchos de gás lacrimogêneo coletados pela família ao redor da casa, que fica entre uma vila de palestinos e um desses assentamentos israelenses. Sua casa costumava ser a mais próxima ao acesso a outras cidades palestinas. Cerca de 500 metros os separavam da saída da vila. Desde que o assentamento foi estabelecido, em 2003, essa passagem foi bloqueada, e agora eles são a casa mais longe do próximo acesso a outras cidades, distando cerca de 15 km. Todas as sextas-feiras, vários moradores dessa vila de 4 mil habitantes se reúnem numa marcha pacífica em protesto ao bloqueio. As manifestações acontecem exatamente em frente à casa da família B..., já que a rua é obstruída logo mais a frente. Muitas vezes, os soldados israelenses jogam bombas de gás lacrimogêneo, às vezes bala de borracha, e realizam algumas prisões. A família sequer participa das manifestações, porque está cansada da situação, embora concorde com as reivindicações da comunidade. Poucas semanas atrás, os soldados jogaram gás lacrimogêneo, como de costume, e invadiram a casa da família B... Eles prenderam o filho, de 32 anos, acusando-o de ter atirado pedras contra os carros do exército israelense. O filho havia recém chegado do trabalho. Ele foi liberado algumas horas depois, mas a mãe, enquanto via o filho ser preso em meio a tanta confusão, teve um colapso e precisou ser levada ao hospital. Ela agora se recupera em casa. As dezenas de bombas de gás lacrimogêneo recolhidas pela família são mostradas aos visitantes internacionais. Alguns pedem para levar uma para casa, como lembrança e testemunho.


Metáforas de concreto


Ao contarmos uma história sobre como tentamos ir de um lugar para outro e não conseguimos, ou como tentamos realizar alguma tarefa e fomos impedidos, recorremos a algumas metáforas que nos ajudam a enfatizar nosso obstáculo. Dizemos que se levantou uma barreira, um muro, uma parede... Não sei como um falante de língua árabe empregaria iria isso, mas nem preciso saber. Isso porque, enquanto nossas dificuldades podem ser representadas por metáforas, feitas de som, para habitantes da Palestina (Cisjordânia), elas são feitas de concreto. Ao contarem as histórias de como foram impedidas ou dificultadas ao fazer isso ou aquilo, ao ir para esse ou aquele lugar, essas pessoas não precisam usar palavras. Tudo o que precisam fazer é apontar com o dedo.

Paredes, muros, barreiras, cercas, portões, postos de controle... uma dessas palavras vai acabar servindo para descrever o que se vê na direção apontada. É como se um dia você acordasse para um pesadelo, onde cada vez que você precisasse ir para o trabalho, para a escola, para o hospital, para a sua propriedade rural, você precisasse forçar sua passagem por uma fila de centenas de pessoas impacientes, para, finalmente, apresentar sua permissão a soldados pesadamente armados que o enxergam como inimigo. Com sorte, você chega a tempo ao seu destino. Sem sorte, você volta pra casa. Isso porque as permissões são emitidas com propósitos bem particulares: você não pode trabalhar na sua terra se sua permissão é válida somente para estudar, por exemplo. Para atravessar com animais, ou carroças, você também precisa de permissões específicas, sem contar que milhares de pessoas figuram em listas negras do exército israelense e são impedidas de cruzar os portões a qualquer momento.

Além de todas essas barreiras salpicadas ao longo do território palestino controlado por Israel, existe um muro que separa as duas nações. Esse muro, construído pelas autoridades israelenses, é ilegal, porque não respeita os limites acordados; o muro avança as fronteiras, Palestina adentro, causando desapropriações, demolições, desalojamentos, apenas para citar alguns dos transtornos. Metáforas bem concretas, que palestinos gostariam que voltassem a ser apenas figuras de linguagem...

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