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Inclusão histórica: Centro de Memória Metodista tem uma Bíblia em Braille de 1900.

17/09/2010 20h24 - última modificação 17/09/2010 20h44

Aluno da FaTeo se emocionou ao ler o Evangelho de João produzido pelo Instituto Benjamin Constant em 1900, poucos anos depois que o sistema Braille havia sido inventado


Visitei o recém-inaugurado Centro de Memória Metodista e me emocionei. No último dia seis de novembro estive no Centro de Memória Metodista, no prédio Alfa da FaTeo, onde se reúne um grande acervo documental da história do protestantismo brasileiro, com um objetivo muito específico: conhecer e confirmar a veracidade de um volume da Bíblia Braille de 1900.

Ao ler tão precioso material e confirmar sua datação não pude deixar de me emocionar, pois esta obra é realmente raríssima: afinal Louis Braille publicou seu método em 1826. Então, essa Bíblia é certamente uma das primeiras a ser produzida em Braille. Vale acrescentar um detalhe: provavelmente trata-se de um “manuscrito” em Braille... Isso mesmo, pois naquela época não havia impressora para este método de escrita; então provavelmente o trabalho foi feito a mão, ou, na melhor das hipóteses, feito com uma máquina bastante rudimentar, o que certamente demandou um esforço muito grande por parte do Instituto Benjamim Constant, que a produziu em 1900. Pude verificar que o texto está escrito em “Braille antigo”, com a grafia da época, como o uso de dois “L” na palavra “elle”.

“Agora a cegueira não é mais uma desgraça”! Foi a frase dita por D. Pedro II ao ver José Alvares Azevedo, o primeiro cego brasileiro a ler e escrever usando o método Braille. Diferente dos dias atuais, quando os/as deficientes visuais possuem ótimos programas de computadores e assim podem ler diversas versões da Bíblia disponíveis na Internet, em 1900 quando este volume da palavra de Deus foi editado não havia escola para 80% dos cegos. Penso que se pudéssemos conversar com alguém daquela época ao poder ler as escrituras ele também diria: “agora Deus também fala a língua dos cegos”. Ao tocar naquela preciosidade lembrei-me com lágrimas quando, em 1998, li pela primeira vez a Bíblia em Braille, mais especificamente a primeira carta de Paulo aos Coríntios.


Breve história do Braille


Nascido em 04 de janeiro de 1809, numa pequena cidade nas cercanias de Paris, Coupvray, Louis Braille sofreu um grave acidente na oficina de correeiro de seu pai quando tinha apenas três anos de idade. Ferindo um dos olhos com uma ferramenta pontiaguda, passou por um rápido processo infeccioso e acabou acometido de cegueira total em ambos os olhos. Aos 10 anos, ele foi matriculado no Instituto dos Jovens Cegos em Paris e, em 1825, com apenas 16 anos, apresentou a primeira versão do seu código de leitura e escrita para cegos. Concebeu um código de 63 sinais, tomando por base a combinação de 6 pontos, atribuindo-lhes valores simbólicos que seriam usados nas diversas áreas do conhecimento humano: literatura, música, aritmética e geometria. Criou, assim, nesse ano de 1825, o “Sistema Braille”, que possibilita à pessoa cega o acesso à leitura e escrita; dá à pessoa cega o direito a exercer sua cidadania. Breve histórico dos primeiros passos para a educação de cegos no Brasil

Remonta a agosto de 1835 a primeira demonstração oficial de interesse pela educação das pessoas portadoras de deficiência visual em nosso país, quando o Conselheiro Cornélio Ferreira França, deputado pela Província da Bahia, apresentou à Assembléia Geral Legislativa projeto para a criação de uma "Cadeira de Professores de Primeiras Letras para o Ensino de Cegos e Surdos-Mudos, nas Escolas da Corte e das Capitais das Províncias" – não aprovado por ser fim de mandato e seu idealizador não ter sido reeleito.

A segunda tentativa foi iniciada por José Alvares de Azevedo, jovem cego descendente de família abastada, o qual, ainda menino e a conselho do Dr. Maxiliano Antônio de Lemos, amigo de um tio seu, fora mandado estudar em Paris, no Instituto Imperial dos Jovens Cegos, idealizado por Valentin Hauy e que também servira de escola a Louis Braille, onde aliás, desenvolveu o Sistema Braille. Regressando da França em 1852, após ter lá permanecido por oito anos, lançou-se à luta pela educação de seus compatriotas, ora escrevendo artigos em jornais, ora ministrando aulas particulares dos conhecimentos lá adquiridos. Foi na condição de professor que se tornou amigo do Dr. José Francisco Xavier Sigaud, francês naturalizado brasileiro e médico da Imperial Câmara, a cuja filha cega, Adéle Marie Louise Sigaud, veio a ensinar o sistema Braille.

Entusiasmado com o brilhantismo do jovem e compartilhando seu desejo de fundar no Brasil uma escola para pessoas cegas nos moldes da parisiense, o Dr. Sigaud apresentou-o ao Barão de Rio Bonito, pedindo-lhe que o levasse à presença do Imperador D. Pedro II. Este, ao vê-lo escrevendo e lendo em Braille, teria exclamado: "A cegueira não é mais uma desgraça", palavras a que, aliás, o Dr. Sigaud aludiria em seu discurso por ocasião da instalação do Instituto. Orientados, então, pelo próprio Imperador, o Dr. Sigaud e José Alvares de Azevedo subscreveram um requerimento e o entregaram, em janeiro de 1853, ao Ministro Secretário de Estado dos Negócios do Império, Luiz Pedreira do Couto Ferraz, que o apresentou à Assembléia Geral Legislativa em maio daquele ano. A proposta pedia a criação de uma escola para pessoas cegas, com solicitação de um orçamento anual de 15 contos de réis e previsão para matrícula de 25 alunos.

Embora a proposta não tenha chegado a ser apreciada, o Ministro tinha tal certeza de sua aprovação, que, mesmo antes dela, começou a providenciar, auxiliado pelos conhecimentos de Azevedo, a vinda, diretamente de Paris, dos materiais escolares indispensáveis aos futuros alunos. Afinal, em 12 de setembro de 1854, foi criado, pelo Decreto Imperial No. 1.428, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos do Brasil, inaugurado 05 dias depois, sem a presença de Álvares de Azevedo, que falecera, prematuramente, em 17 de março daquele ano. Só teve tempo de escrever uma obra: a tradução de "História dos Meninos Cegos de Paris", da autoria de J. Guadet.

O referido Instituto dos Meninos Cegos do Brasil passou, a partir de 1890, a ser chamado Instituto Benjamim Constant, e foi o responsável pela confecção desta obra rara e de valor inestimável que é o volume do Evangelho de João que se encontra no Centro de Memória Metodista. Venha conhecê-la e se emocionar também.

Escrito Por Enoque Rodrigo de oliveira Leite, aluno cego do quarto ano de Teologia da FaTeo


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