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III Fórum Mundial de Teologia e Libertação: “Água, terra e teologia”

Professor da FaTeo participa do evento e faz o seu relato

13/02/2009 18h13 - última modificação 16/02/2009 18h26

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Um congresso é como uma feira: neste mercado de idéias, cada um/a apresenta algo em sua banca. A gente passa lá não para comprar tudo, mas disposto a fazer descobertas. Atrás de cada banca há pessoas com as suas experiências, suas alegrias, seus clamores, seu envolvimento com o tema. Um congresso não é um concílio: ninguém representa uma instituição, somos observadores/as e, às vezes, interlocutores/as.


O tema central era a questão da água e da terra, no sentido ecológico, político, teológico – eco-teológico. As teses apresentadas reafirmaram avanços recentes: precisa-se superar o antropocentrismo e criar uma forma sustentável de viver na terra, pelo mero fato que os recursos ecológicos estão limitados e muitos não são renováveis. O estilo de vida atual ameaça a qualidade de vida de todas as gerações futuras de todos os seres vivos e já ameaça a vida de muitas pessoas no momento presente, especialmente, nos países emergentes e pobres. As igrejas, então, são vocacionadas para, no mínimo, colaborar com a busca de sustentabilidade. Com isso concordamos plenamente.


Gostaria de destacar duas contribuições e um testemunho. Steve de Gruchy, da África do Sul, sugeriu o “paradigma do Jordão“ como modelo para a compreensão do atual momento das igrejas. Situado entre o “êxodo“ e a “posse da terra“ Gruchy quer superar os paradgimas clássicos tanto de muitas teologias da libertação (e seus programas de superação de situações inadequadas), como de muitas teologias conservadoras da conquista e da posse excludente. Concordamos que, para chegar numa forma sustentável de convivência nessa terra, precisamos assumir uma postura mais dinâmica que procura se relacionar sem dominar e reformar sem abandonar.


Rudolf von Sinner, da Escola Superior de Teologia, EST, apresentou sua proposta de uma teologia pública brasileira com ênfase na promoção da cidadania (Da TDL para uma teologia da cidadania como uma teologia pública) com ampla referência ao teólogo metodista Clovis Pinto de Castro. Esperamos muito, muito mesmo, que as nossas igrejas escutem os dois.


Quanto ao testemunho, refiro-me à fala da Senadora Marina Silva. "Olhar para o mundo a partir da Amazônia e do mundo para a Amazônia" era seu tema. A sua fala contemplava os anseios de ribeirinhos, seringueiros, indígenas e os/as habitantes das grande cidades da região, inspirada tanto por textos bíblicos, como pelos pensamentos de Edgar Morim. A promoção de um desenvolvimento sustentável foi descrita como uma caminhada que começa com “pequenos desvios“ que ao longo do tempo acabam fazendo uma grande diferença.


Numa perspectiva teológica gostaríamos de ter visto mais tentativas de desenvolver o tema da ecologia e eco-teologia de forma cristológica. Alguns compartilharam o medo de que uma aproximação cristocêntrica acabaria levando a um antropocentrismo. A esse respeito, gostaria de fazer alguns comentários: uma eco-teologia protestante dificilmente pode ignorar a cristologia, entretanto ele deve superar um cristocentrismo. Talvez o caminho seja integrar melhor a cristologia na teologia trinitária. O antropocentrismo teológico precisa ser superado, mas não pode ser substituído por um simples "terracentrismo". O antropocentrismo trouxe consigo a permanente tendência da “divinização do ser humano” e a re-divinização da terra também não será a resposta.


O uso da expressão “geia” para descrever a terra como “super-organismo” faz sentido para nós, mas jamais a idéia da sua divinização (na mitologia grega Gaia era uma deusa, enquanto Deméter representa a terra cultivada por seres humanos). Não temos plena certeza se o uso do conceito “geia” na teologia não será acompanhado, quase que automaticamente, por uma mística da terra divina. Isso precisamos acompanhar. Acreditamos, porém, que a materialização e redução da terra a um objeto qualquer precisa ser desafiada, só que talvez seja mais promissor discutir a terra como “sacramento”, meio da graça, meio de salus e sanus (salvação e saúde), meio de vida.


A encarnação não descreve uma divinização, mas uma relação e uma revolucionária proximidade que leva à libertação tanto do ser humano, como da criação e da terra. Além disso, parece-nos que a cristologia ajuda a superar uma antropologia idealista, no mínimo tão responsável para um antropocentrismo destruidor como o conceito cristão do domínio. A vida não se mantém sem conversão, renovação e transformação do ser humano, das suas instituições, das relações consigo, seu próximo e a terra “geia” na sua complexidade.


O congresso não era eclesiástico. Mas nada impede que as igrejas discutam e assumam mais a questão da água e da escassez dos recursos da terra. Perguntei-me: Será que depois dos paradigmas da missão de catequizar (até 1500), civilizar (1500-1945) e desenvolver (1945-1980) não precisaríamos adotar o “desenvolvimento sustentável“ como novo paradigma ou parte de um novo paradigma da missão para o século XXI?


Helmut Renders


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Entre os/as participantes do Fórum de Teologia e Libertação, o teólogo Leonardo Boff e a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (ao centro)

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