Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Ignorância espiritual: a propósito de globais, mundiais e universais

Ignorância espiritual: a propósito de globais, mundiais e universais

26/03/2012 11h10 - última modificação 26/03/2012 11h09

Texto do ex-aluno da FaTeo Martin Barcala a propósito do artigo "Reflexões sobre a disputa Rede Record x Apóstolo Valdemiro Santiago", de Magali do Nascimento Cunha

 

Ignorância espiritual: a propósito de globais, mundiais, e universais.

 

Não resisti. Quero dizer, resisti até agora. Cheguei em casa no domingo à noite, após o culto de nossa igreja em Eldorado e da comunhão estendida para uma pizza deliciosa com o Marcelo e mais alguns irmãos e irmãs de lá. Liguei a TV em tempo de assistir aos “gols do Fantástico” e comemorar a vitória do meu time sobre o adversário da rodada. Acho que vamos ser campeões este ano...

Continuei acompanhando a programação do semanário e pasmei com a reportagem que denunciava fraudes em processos licitatórios para a prestação de serviços à rede de Saúde Pública. Um absurdo.

Troquei algumas ideias e opiniões a respeito do assunto com a Ana Marta, que ainda estava feliz com o empate que o time dela conquistou no finalzinho do jogo. As conclusões a que chegamos então expressavam cansaço em diversos níveis. Como tínhamos possibilidade imediata e abençoada para aliviar o nível físico da exaustão, fomos dormir. Eu perdi o sono.

Resolvi assistir a reprise do semanário da Rede Record, o “Domingo Espetacular”, que estava sendo exibida na Record News. Lá pela metade do programa, começou a exibição da matéria que acusava o apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. Acompanhei a notícia, sinceramente, sem tanta surpresa (pra onde iria tanta grana, afinal, senão pra coisas deste tipo?). Mais do mesmo, pensei.

Mas, sei lá por que, concluí que precisava fazer alguma coisa a respeito. Vou escrever, resolvi. Comecei. Desisti.

Pra quem está diretamente envolvido com um projeto de implantação de igrejas, aquela matéria foi um soco no estômago. Trará consequências pastorais importantes. Fiquei remoendo alguns pensamentos até que, finalmente, consegui pegar no sono.

No dia seguinte, quando minha interlocutora preferida já estava desperta, compartilhei com ela o que tinha visto e sabido, imediatamente, como criança que volta da escola no primeiro dia de aula. Depois do café da manhã e de muita conversa, chegamos à conclusão: tem muita gente cega, com uma visão perfeita! A frase está correta assim. Não é necessário relê-la. Foi emprestada dos livros proféticos. “Vendo, não vêem”. “Ouvindo, não ouvem”. São ignorantes. Sofrem de ignorância espiritual. Uma “síndrome” que, na maioria das vezes, é voluntária. A inspiração para este texto surgir destes “in(out)sights” (em inglês, não existe a expressão “outsight”, mas, pra mim, eles são os “insights” da Ana Marta).

Continuei resistindo a escrever uma linha sequer sobre o assunto. Não havia dúvida de que uma das consequências mais perigosas da matéria em questão fosse a provisão de uma esplêndida plataforma para oportunistas de plantão vociferarem, alardeando fundamentalismos mais letais do que as estripulias do Valdemiro. Vociferação sempre precedida por chavões bem conhecidos, como: “Eu já sabia...”; “Eu bem que avisei...”; “Eu só prego A VERDADE...”. Como se a deflagração do erro alheio fosse prova cabal da legitimidade e credibilidade de qualquer discurso. Não quero fazer parte desta troça.

Mas, daí, eu li as reflexões da professora e jornalista Magali do Nascimento Cunha, publicadas em um artigo no site da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, disponível no endereço http://www.metodista.br/fateo/noticias/reflexoes-sobre-a-disputa-rede-record-x-apostolo-valdemiro-santiago. O artigo é profundo, esclarecedor e instigante. Aborda o assunto com maestria e perspicácia, do ponto de vista jornalístico. É profecia jornalística MESMO!

Análise tão competente foi a gota d’água para criar coragem de compartilhar algumas reflexões pastorais encalacradas. E, pastoralmente falando, as reportagens em voga são sintomas da mesma síndrome espiritual.

Digo “as reportagens”, no plural, porque já passamos do tempo de pensar que só tem espírito aqueles que vivem sob a orientação do Espírito. Ou que só são “espirituais” aqueles que antes se tornaram “eclesiásticos”. Não é evidente que o dínamo que energiza as manobras praticadas num e noutro caso é aquele poderoso “amor do dinheiro”, citado por Paulo em sua primeira carta a Timóteo como “sendo a raiz de todos os males” (6,10)?

Como não perceber que a mesma “espiritualidade da recompensa” impera, legitima e batiza as maracutaias tanto em licitações quanto em orações? Porquanto em tempos de uma espiritualidade deste tipo, ninguém quer saber “quem envernizou a asa da barata, desde que sobre um resto do verniz pra mim”. Ou, por acaso, alguma contribuição enviada aos cofres de qualquer igreja deste país é compulsória? Será que alguém doou qualquer quantia forçosa ou obrigatoriamente?

Houve, sim, indução. Isso não se discute. Mas será que o fator que pesou decisivamente na alma dos contribuintes não fora, antes, a sedução? Como diz Tiago, “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (1,14). Tenho uma suspeita recorrente ou – para usar a bela expressão da professora Magali – “não-inédita”, de que o financiamento de condutas inescrupulosas deste tipo não é o dinheiro dos fiéis, mas a sua “espiritualidade”. Sim, porque, no fundo da alma e do coração soa aquela vozinha miserável, repetindo sempre numa expectativa diabólica: “Ainda vai chegar a minha vez...”. Estou convencido de que os desvios veiculados nas reportagens dos dois semanários são resultantes de outro desvio, mais profundo: o desvio espiritual daqueles que rejeitam viver sob a orientação do Espírito, e se endeusaram.

Ou você acha que, depois das denúncias, os bancos mundiais e universais serão deixados ao pó e às moscas, ao invés de seus líderes se tornarem referência para muita gente e “resposta-padrão” para a “perguntinha” graciosa dos infantes sobre “o que você quer ser quando crescer”?

Quanto a nós? Continuemos nos dedicando ao projeto de implantação de igrejas, conscientes de que a Igreja e o Reino já estão devidamente implantados. Não no Templo Maior, Menor, dos Milagres, da Fé, de Salomão, de Mamon. Nem nas fazendas particulares, estaduais ou federais. Mas nos corações. Desenvolvamos uma “espiritualidade de serviço” que, por servir ao Outro, serve também aos outros e prioriza, dentre todos eles, os mais vulneráveis. “Corramos, com confiança, a carreira que nos está proposta”, certos de que nossa recompensa não é deste mundo e de que – o melhor de tudo – Ele está conosco!

 

Um abraço.

Pr. Martin Barcala, Igreja Metodista Vale do Ribeira, SP.

 

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: