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Homenagens a metodistas no mês da Consciência Negra

28/11/2013 13h50 - última modificação 28/11/2013 13h53

Diná da Silva Branchini*


Neste mês de novembro, aclamado como o  mês da consciência negra brasileira, três pessoas metodistas -  de meu conhecimento - receberam homenagens de instituições públicas pela atuação cidadã na causa do combate ao racismo. E eu me pergunto: o que isto significa para nós metodistas?

O significado destas homenagens  vai além da questão pessoal,  do afago ao ego. O  grande premiado é o  tema do combate ao racismo que envolve justiça racial ao povo negro. Tema  tabu para grande parte dos/das cristãos/cristãs e para a sociedade em geral, pois muitas vezes manifestado por meio da negação: não sou (ou somos) racista; ou... somos todos/as irmãos/ãs em Cristo... Deus não se importa com a cor da minha pele.


A Câmara de Vereadores de São Bernardo do Campo concedeu o Certificado de Honra ao Mérito para profa. Claudia Cezar da Silva (ao centro, na foto ao lado),  pastora  e profa. Lidia  Maria  Lima e pastor e prof. Oswaldo de Oliveira Santos Junior (professores da FaTeo).

O fato dessas pessoas  trabalharem na Universidade Metodista de São Paulo - UMESP - demonstra o reconhecimento público da importância do  tema no meio educacional; e, que  suas atuações repercutiram além do território metodista,  influenciando a  comunidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Vale destacar a resistência de 10 anos do Sou Show Afro, no espaço da UMESP, o qual,  por meio da arte e cultura,  tem discutido o racismo e fortalecido a consciência negra da comunidade da UMESP, bem como atingido outras pessoas da região  metropolitana de São Paulo.


É relevante mencionar que neste ano se completa uma década da promulgação da Lei 10.639-03 que inclui no currículo da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Os conteúdos devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileira (SEPPIR).

No entanto, esta Lei ainda não é praticada como programa institucional na maioria das escolas e faculdades. A Igreja Metodista e suas instituições educacionais e assistenciais são chamadas a testemunhar seu compromisso com a reparação histórica e cultural da população negra, implementando esta lei em todo o sistema educacional e assistencial metodista.

Aspecto relevante no combate ao racismo é o respeito a outros grupos e religiões de pensamentos diferentes. Isto faz parte da tradição metodista wesleyana. Diante desta sociedade que alimenta posturas individualistas, competições e violências, o compartilhar espaços comuns com outros grupos é testemunho de solidariedade na luta contra as injustiças e implantação do Reino de Deus. Diante de posturas evangélicas intolerantes ou omissas frente à opressão  sofrida pelo seguimento negro – sua cultura, religiosidade – o espaço público é um espaço compartilhado em relações de respeito e solidariedade.

O Prêmio Dr. Benedicto Galvão, promovido pela Comissão da Igualdade Racial da OAB- Ordem dos Advogados/São Paulo, coordenada pela Dra. Carmen Dora f. Ferreira, oferecido a mim (Diná é a segunda, da esquerda para a direita), também é muito simbólico. Qual o significado de uma instituição da área jurídica  oferecer um prêmio a alguém da área  religiosa? Alguém que representou durante mais de 8 anos a Igreja Metodista, na questão do enfrentamento ao racismo?  Enquanto as igrejas trabalham com o conceito de pecado, a Lei criminaliza o racismo em suas diferentes expressões.

Este prêmio expressa o reconhecimento, por parte de uma instituição do quilate da OAB, da existência e gravidade dos crimes raciais cometidos em nosso país. Crimes fundamentados no preconceito de cor, que se configura como discriminação negativa e que produz dificuldades de acesso socioeconômico das pessoas negras e de sua inserção e ascensão no mercado de trabalho, por meio de atividades valorizadas profissional e financeiramente. As dificuldades das pessoas negras para superarem as barreiras culturais, sociais, política, econômicas e educacionais são desproporcionalmente maiores em relação às pessoas não negras.

Neste ano estamos comemoramos 125 anos da falsa abolição, a qual deixou um legado social de desvalorização sociocultural e exclusão do povo negro. A campanha contra o genocídio da juventude negra denuncia este legado. As estatísticas e estudos têm apontado que é desproporcional o número de homicídio de jovens negros em relação a não-negros, aprisionados a condições de maior vulnerabilidade social concomitante à violência institucional. Muitos jovens negros sofrem abordagem policial agressiva e até fatal. O caso do jovem Douglas, bem como do cidadão carioca Amarildo são emblemáticos na luta contra a violência policial dirigida à população negra.  Qual a nossa palavra e ações para a transformação desta realidade? Sinais de luz nesta escuridão existem, e vale destacar o trabalho pastoral da pra. Kaká Omowalê, Maria do Carmo Moreira Lima, do Rio de Janeiro, que há 15 anos trabalha com adolescentes em Unidade Socioeducativa de Internação. É a palavra viva de Deus reavivando adolescentes em condição de morte.

O protestantismo que chegou ao Brasil trouxe a visão racista, eurocêntrica  e de dominação cultural. As culturas negra e indígena foram logo identificadas como barbárie  e a espiritualidade como rituais demoníacos.  Esta identificação inicial prossegue até nossos dias reproduzindo a ideia preconceituosa de demonização das culturas indígenas, africana e afro-brasileira e de  inferiorização da pessoa negra. Esta forma mascarada muitas vezes se expressa pela cordialidade hipócrita e conservadora do lugar social estabelecido para negros e não negros. Por esta perspectiva, qualquer coisa relacionada à cultura negra, desde a estética  com adereços afros, o uso na linguagem inclusiva, de termos da cultura negra, uso de instrumentos afro-brasileiros são vistos como ameaça à fé cristã.

As Igrejas têm sido resistentes a olhar com seriedade cristã e vontade de mudança as muitas formas de preconceitos e racismos em seu meio. Historicamente tem assumido uma posição de omissão em relação às injustiças raciais relacionadas ao povo negro.

A Igreja Metodista tem dado alguns passos, como a institucionalização das Pastorais, Ministério de Combate ao Racismo e afins; a publicação episcopal da Carta Pastoral de Combate ao Racismo; e, neste ano de 2013, a produção do vídeo  do Colégio Episcopal sobre a posição da Igreja sobre a questão do racismo.  Avanços esses que foram provocados pelo posicionamento de pessoas negras metodistas, assim assumidas, que juntamente com outras metodistas não-negras, não se intimidaram a denunciar o racismo. Pessoas que há 28 anos gritam dentro das igrejas: o racismo é um pecado, o racismo impõe lugares diferentes entre irmãos e irmãs de fé, em função da cor da pele. Neste rol de metodistas negros ressalto o nome de: Reverendo Olímpio Santana, que durante anos representou a Igreja Metodista. Pessoa pública reconhecida, nacional e internacionalmente, por sua caminhada no combate ao Racismo dentro do contexto religioso; Maria da Fé Viana (1ª. RE), pr. José do Carmo (5ª.RE), pr. José Carlos Loiola (5ª. RE), Eva Ramão (2ª.RE), Juliana de Souza (3ª.RE), Maria Luiza Nzunga (3ª.RE), Neusa Cezar (3ª.RE), Pra. Andreia Fernandes (Sede Nacional), pra. Joana Darc Meirelles (Sede Nacional), Telma Cezar da Silva Martins (Sede Nacional), Keila Guimarães (1ª. RE), Andre Guimarães (1ª.RE), pr. Melchias Silva (1ª. RE) e tantas outras pessoas
aqui não mencionadas, mas tão valiosas nesta caminhada.


Porém, diante dessas muitas vozes que resistem,  ainda permanece a reação  cômoda de negar o racismo, por meio de versículos bíblicos e afirmações que servem para adormecer qualquer movimento de transformação. O pecado do racismo é uma realidade!

As homenagens deste novembro negro brasileiro, mais que um reconhecimento pessoal, significam o reconhecimento institucional: A imagem da Igreja Metodista é fortalecida dentro dos movimentos sociais que lutam pelos direitos humanos. Face desconhecida para muitos metodistas. Muitas pessoas têm deixado a marca metodista de uma igreja aberta, ecumênica, que dialoga com os diferentes.  É uma construção histórica valiosa,
apesar de pouco evidenciada dentro do contexto metodista.
Neste tempo de ênfase evangelizante, a mensagem de boas-novas com o testemunho cristão tem sido exercida na diversidade dos caminhos a vida,  que levam à busca da justiça e equidade social  e etnicorracial.


Diná da Silva Branchini – Mestre em Ciências da Religião, assistente social e musicoterapeuta. Membra da Igreja Metodista, na 3ª.RE. E-mail: disilvabranchini@uol.com.br

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