Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / História, fé e direitos humanos: um relato pessoal sobre o Ciclo de Conferências Hugo Assmann

História, fé e direitos humanos: um relato pessoal sobre o Ciclo de Conferências Hugo Assmann

24/08/2010 20h40 - última modificação 24/08/2010 20h56

Após a palestra de Enrique Dussel cheguei em casa e encontrei meu filho adolescente acordado. Falei, com gostinho de provocação: “o palestrante disse que o Leonardo da Vinci copiou desenhos de antigos documentos chineses”. “Você acreditou?”, ele me respondeu, quase indignado. Pudera. Meu filho adolescente ainda estuda História exatamente da mesma maneira que eu estudei. Exatamente da mesma maneira que meu pai estudou. E teria estudado a minha avó, tivesse ela tido a oportunidade de freqüentar uma escola.

História foi um dos principais temas das palestras de Dussel no Ciclo de Conferências Hugo Assmann, como parte integrante da I Semana de Direitos Humanos ocorrida na Universidade Metodista entre os dias 16 e 19 de agosto. Raciocínio rápido, memória prodigiosa e uma energia contagiante, Dussel provocou o auditório – sempre lotado – a repensar o pensado (ou condicionado) por décadas. “História é como psicanálise da sociedade”, disse ele. “Recordando os traumas começamos a nos curar”.

Segundo o filósofo, teólogo e historiador, foi no século 18 que se constituiu a História que ainda hoje as escolas nos transmitem. Uma historiografia eurocêntrica, que aceitamos como única abordagem. Estudamos a supostamente didática divisão do tempo em “Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna” tendo por parâmetro tão somente a trajetória histórica da Europa. Os próprios mapas que utilizamos foram construídos segundo um ponto de vista eurocêntrico. Do contrário, por que o mapa traria o norte na parte de cima e o sul na parte de baixo? “É uma representação subliminar”, advertiu o professor. “Acima é onde está o cérebro, é quem domina”.

Dussel salientou que na Índia, ou na América pré-colombiana, essa classificação histórica não faz o menor sentido. Enquanto se fala de uma Europa feudal na Idade Média, na América havia cidades que chegavam a ter 120 mil habitantes. Também os povos árabes viviam um apogeu econômico e científico. No ano 950 da era comum, disse Dussel, Bagdá era a “MIT” de sua época (numa comparação com o mundialmente conhecido Massachusetts Institute of Technology) repleta de grandes cientistas, filósofos, poetas.

E a modernidade, o que é? Quando começa? Com a Imprensa de Gutenberg, como se convencionou datar? Contudo, sabe-se que por volta do século VI os chineses já fabricavam um papel de seda branco, próprio para a pintura e para a escrita. Se Gutenberg fez a primeira impressão da Bíblia com tipos móveis por volta de 1450; os chineses já imprimiam textos – e até papel moeda! – uns quatro séculos antes. Mapas chineses do século 15, anteriores à “descoberta” de Colombo, trazem, quase perfeitos, os contornos da América e da África.

E Leonardo da Vinci fez, realmente, alguns desenhos bastante parecidos a rascunhos chineses muito mais antigos. O historiador Gavin Menzies, no “1421 - O ano em que a China descobriu o mundo” chega a afirmar que os chineses teriam sido os precursores do renascimento europeu (leia abaixo).


Lei e justiça


Mas não é apenas nossa historiografia que está marcada pelo sistema de poder dominante. Nossa teologia e prática eclesial também. Até a nossa noção de “justiça” foi contaminada pelo imperialismo. “O que nos justifica? O que legitima um ato como bom ou mau?” questionou Dussel. Ele explicou que essa discussão é o cerne do livro de Romanos. Paulo escreve a uma pequena comunidade de seguidores de Jesus situados em Roma e diz-lhes: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Romanos 8.19). “ Filho de Deus era como o Imperador Romano era chamado”, disse Dussel. Paulo, no entanto, chama de filhos de Deus os marginalizados seguidores de Jesus que habitavam a capital do império. “Seria como se ele escrevesse uma carta a um grupo de portoriquenhos em Washington”.

Afirmar que o imperador não é divino, ou não lhe prestar culto, era um crime político contra o Império. Diante do Império Romano, os cristãos em Roma são ilegais. No livro de Romanos, portanto, a lei não é tomada como critério de justificação. “Os ilegais podem ser justos e os que cumprem a lei podem ser injustos. Este é o princípio mais subversivo da história da política que eu conheço”, afirmou o filósofo.

Nem sempre Paulo pensou assim. Nos tempos em que se chamava Saulo e era um judeu seguidor das leis, consentiu com a morte de Estêvão – este, sim, um “ ilegal”. Para Saulo, a lei estava acima da vida. Mas o encontro com Jesus provocou uma radical transformação. Paulo aprendeu com o nazareno que “a vida do pobre era mais importante do que a lei”. Jesus curava no sábado, contrariando a lei judaica e declarando que o sábado havia sido estabelecido “por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2.27).

Mas, se a lei não é critério de justiça, o que é então? Qual o novo critério?

“Bem sei que sois da descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não está em vós. (...) Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão” João 8.37-39

Dussel lembrou aos participantes da conferência que a lei pedia o sacrifício do primogênito de Abraão, mas um anjo do Deus da Vida enviou o cordeiro para o holocausto. O amor suplantou a lei.

“Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão” (...) Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos”. João 8.40-44

“Não descobri a filosofia da libertação no marxismo, mas em Nazaré”, disse Dussel. Para o filósofo, o critério de justificação nasce da fé, que é experiência comunitária. Se o poder que oprime é hegemônico, a união do povo que sofre gera o dissenso, ou, ainda, um “consenso crítico” dos oprimidos contra o consenso do sistema. O povo torna-se, então, “fundamento da novidade” e se estabelece uma nova aliança.

No entanto, construir uma nova história contra o sistema e a lei exige férrea determinação. “Ser cristão é difícil”. É se tornar “ateu” dos deuses que dominam hoje o mundo. É sair de Cronos e entrar em Kairós, tempo do perigo, “tempo forte” em que a morte pode acontecer a cada momento. “Crer não é apenas dizer que ´Jesus me salva´”, disse Dussel. “Cremos que ele foi o Messias e morreu e hoje somos os messias de nossa época e podemos morrer”. Essa responsabilidade messiânica torna a decisão pelo cristianismo um compromisso de coragem.

Ocorre que o cristianismo foi “invertido”. Segundo Dussel, no século IV Constantino fez de Cristo o fundamento do Império, sob o qual justificou a escravidão e a morte. O que nos deixa um alerta: “O Reino de Deus não é a Igreja. A Igreja pode cometer pecado e atrasar a realização do Reino de Deus”. Vale lembrar também a observação feita por Enrique Dussel várias vezes ao longo de sua palestra. Ele salientou que fazia uma interpretação filosófica do texto paulino, e não uma teológica. Assim, não se trata de uma interpretação válida apenas sob o olhar da fé cristã. Como critério filosófico, vale para budistas, muçulmanos. hindus... vale para todos aqueles que acreditam na igualdade de direitos entre os seres humanos e não se recusam a pensar que novos caminhos podem ser tentados. Quanto ao meu filho adolescente, sua recusa inicial em aceitar informação contrária às suas (velhas) lições de história tornou-se antes razão de esperança do que de aborrecimento. Ele simplesmente resistiu a uma informação que, provocativamente, lancei-lhe pronta, como um pacote fechado. Quis mais argumentos. Quis ver, com seus próprios olhos, os livros que citei. Agradeci a Deus pelas mentes indóceis e curiosas. É onde brotam as sementes de mudanças.

Suzel Tunes


VEJA TAMBÉM:

O ano em que a China descobriu o mundo


No livro “1421 - O ano em que a China descobriu o mundo” o historiador Gazin Menzies defende que as várias esquadras que partiram em 1421 comandadas por Zheng He e por outros quatro almirantes chineses (Yang Qing, Zhou Man, Hong Bao e Zhou Wen) cruzaram todos os oceanos e concluíram a circunavegação do globo. Os navegadores europeus do século XV teriam partido para suas viagens através do Atlântico levando na bagagem cópias de mapas traçados a partir das descobertas chinesas. A China também teria sido a precursora do Renascimento, afirma Menzies. Uma frota chinesa teria chegado na Toscana em 1434 e presenteado o Papa com um tesouro de bens culturais e tecnológicos, como mapas, cálculos matemáticos e astronômicos, desenhos, armas e artefatos aço que teriam inspirado até Leonardo da Vinci em seus esboços de máquinas, bem como as descobertas de Galileu.

Veja abaixo duas ilustrações que corroboram a tese do historiador:


imagens/china2.jpg
Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: