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Filosofia da libertação, transformação e entusiasmo: a palestra de Enrique Dussel no Ciclo de Conferências Hugo Assmann

18/08/2010 19h13 - última modificação 19/08/2010 17h36

Como parte do programa da I Semana de Educação em Direitos Humanos, a FaTeo está sediando o Ciclo de Conferências Hugo Assmann tendo como convidado especial o filósofo Enrique Dussel. O nome do ciclo de conferências foi uma sugestão do próprio convidado, a fim de homenagear o amigo brasileiro falecido há dois anos, um dos principais pensadores da Teologia da Libertação.

Por isso, antes da conferência, o professor Jung Mo Sung, coordenador do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Umesp, falou um pouco de sua amizade e parceria profissional com o professor Hugo Assmann, com quem escreveu o livro “Deus em nós - O reinado que acontece no amor solidário aos pobres”. “Foi meu mestre e amigo. Fui seu discípulo e praticamente seu ´devoto´”, brincou Jung. “Eu dizia que fazia duas romarias por ano a Piracicaba para ouvi-lo falar”. Inteligente, crítico e extremamente sensível ao sofrimento do próximo, Assmann dizia que, se a teologia não leva a sério a morte de 30 milhões de pessoas por ano, de fome, ela caiu no cinismo e deve ser salva. Salvar a teologia de seu próprio cinismo foi um desafio – muitas vezes incompreendido – a que Assmann se dedicou apaixonadamente.

O Ciclo de Conferências no qual Enrique Dussel falaria a um auditório lotado de estudantes de Teologia e Ciências da Religião não poderia ter melhor nome. Também foi com paixão e entusiasmo que Dussel falou sobre suas experiências de vida, determinantes para a criação do pensamento filosófico que ficaria conhecido como “filosofia da libertação”.

À sólida formação teórica, na América e na Europa, Dussel agregou uma experiência de profundo significado para sua fé: após o doutorado na Europa, esteve em Israel por dois anos, onde trabalhou numa cooperativa de construtores palestinos em Nazaré. Seu mentor era, então, o missionário francês Paul Gauthier, para quem a experiência do trabalho manual e da vivência com o oprimido estava intrinsecamente ligada ao compromisso os ensinamentos e o exemplo do “nazareno Yeshua Ben Yosef” – nome que Dussel prefere a “Jesus”, que julga tão tristemente esvaziado... (leia a autobiografia de Dussel no site http:www.enriquedussel.org).

O filósofo, teólogo e historiador Enrique Dussel também deu uma verdadeira aula de história da América Latina a partir dos anos 30. Segundo Dussel, a Teologia da Libertação, nascida no contexto das ditaduras militares dos anos 60, foi uma reação ao pecado da exploração de um povo pelo outro e representou uma verdadeira revolução epistemológica. Dussel destacou que o primeiro livro dessa nova corrente teológica, que se tornaria conhecida mundialmente, era a tese de doutorado de um brasileiro: a obra de Rubem Alves que seria publicada em 1969 com o título “Da Esperança”, tinha como título original “Para uma Teologia da Libertação”.

A Teologia da Libertação levou muitos jovens a repensarem a realidade e a se aproximarem dos estudos sociológicos e econômicos. Jovens cristãos começaram a ler Karl Marx, um verdadeiro “escândalo”. Mas Dussel resolveu conhecer melhor o autor que tanto assustava as Igrejas. “Fiz uma leitura de Marx como Tomás de Aquino fez de Aristóteles”. Tornou-se um especialista. E não encontrou contradições entre cristianismo e marxismo, ainda que sob Marx pesasse a terrível acusação de “ateu”: “Não me assusta esse paradigma. A questão é de que deus alguém é ateu”. No Antigo Testamento, disse Dussel, o povo judeu era ateu diante dos deuses cultuados pelo Faraó. Os profetas do Antigo Testamento eram ateus perante os ídolos. A nós se pede que sejamos ateus neste contexto de idolatria do mercado.

Para Enrique Dussel, a filosofia da libertação representa a possibilidade de refletir sobre a realidade e transformá-la segundo os valores do nazareno. Ele foi enfático ao afirmar que “ a filosofia não estuda a própria filosofia, pensa a realidade”. A preocupação, sempre, deve ser com o povo que sofre. “Para a filosofia, o Espírito Santo é a metáfora do entusiasmo da comunidade que sente que pode transformar o mundo”. Para Enrique Dussel, cujas idéias levaram ao exílio na década de 60, ser cristão é “algo muito sério”. Perigoso até. Mas, sobretudo, apaixonante.


Suzel Tunes

Assessoria de Comunicação/FaTeo

Foto: Luciana de Santana

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