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FaTeo firma parceria com Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel

07/12/2012 12h55 - última modificação 11/12/2012 10h51


O que já era um diálogo estreito transforma-se num projeto conjunto. Em 2013, a FaTeo terá um processo seletivo para envio de estudantes ao Programa Ecumênico de Acompanhamento à Palestina e Israel (EAPPI, da sigla em inglês).  Manuel Quintero (foto à direita), membro da Igreja Presbiteriana e coordenador internacional do EAPPI, esteve na FaTeo no dia 4 de dezembro de 2012, acertando detalhes com a direção da Faculdade.

Quintero também reservou um espaço para mais um diálogo com estudantes (em 2010, a FaTeo já havia tido a oportunidade de tê-lo no “Diálogo Comunitário”). Na palestra proferida no dia 4 de dezembro, Quintero expôs aos estudantes a história e os propósitos do Programa Ecumênico de Acompanhamento à Palestina e Israel, iniciativa do CMI que tem como objetivo apoiar os esforços locais e internacionais para por fim à ocupação israelense, com base nas resoluções da Organização das Nações Unidas.

Inicialmente, ele traçou um panorama histórico das relações entre Israel e Palestina.  Ele lembrou que, há cerca de dois mil anos, o Império Romano dominou esta área, destruiu o templo de Jerusalém e forçou muitos judeus a deixar sua terra natal. Esse êxodo ficou conhecido como Diáspora. A partir da década de 1880, judeus provenientes da Europa começaram a voltar à região, estabelecendo comunidades agrícolas nas terras históricas da Judeia e Israel, que eram então parte do Império Otomano.  Começaram, então, as tensões entre os judeus que chegavam à terra e os habitantes já instalados. A partir da década de 1920, as tensões aumentaram, dando lugar a episódios de violência que trouxeram perdas de vidas para ambos os lados.  

“Uma terra sem povo para um povo sem terra”

Esse foi o slogan que inspirou os israelenses sionistas em sua ocupação da Palestina. “O problema é que a terra, ao contrário do que pregava o slogan, era habitada. “Em 1917, havia cerca de 10 árabes para cada judeu na região da Palestina”, destacou Quintero.

Em 1947, quem administrava o território era a Inglaterra que, diante da escalada da violência, decidiu levar a questão da partilha da terra à Organização das Nações Unidas, criada dois anos antes. A ONU aprovou, então, a Resolução 181, um plano de partilha que previa cerca de 50% de terras para cada lado, embora os judeus fossem 1/3 da população e detivessem apenas 6% das terras – as mais cobiçadas, os judeus ocupavam praticamente toda a faixa litorânea. Os árabes recusaram o plano de partilha e, quando foi criado o Estado de Israel, em 1948, irrompeu a guerra entre árabes e israelenses – chamada de “Guerra de Independência” entre os judeus e “al Nakba” (a catástrofe) entre os árabes. Na foto acima, à direita está o plano da ONU, com as terras destinadas a Israel em roxo e à direita, as terras que Israel conquistaram com a guerra.


Em virtude da guerra, cerca de dois terços dos árabes fugiram ou foram expulsos dos territórios ocupados pelos judeus na Palestina, 711 mil árabes tornaram-se refugiados.  O Armistício de Rodes acabou com a guerra, e Israel agregou territórios que havia ocupado nos combates.  A Faixa de Gaza foi ocupada pelo Egito e a Cisjordânia foi ocupada pela Jordânia. Em 1967, porém, Israel deflagrou a chamada “Guerra dos Seis Dias” e se expandiu, voltando a tomar posse desses territórios.  O Conselho de Segurança da ONU, por meio da Resolução 242, determinou a retirada de Israel dos territórios ocupados, mas Israel não cumpriu a resolução, afirmando que só negociaria a desocupação dos territórios se os estados árabes reconhecessem o Estado de Israel.


As tensões na região resultariam em outra guerra: a Guerra do Yom Kippur, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense de 1973. Uma coalizão de estados árabes liderados por Egito e Síria iniciou a guerra com um ataque inesperado do Egipto e Síria, coincidindo com o dia do feriado judaico Yom Kippur.  Após mais essa guerra foi articulado um processo de paz, por meio dos acordos de Camp David, em 1978. O presidente do Egito na época, Anwar Sadat, e o  primeiro ministro de Israel, Menachem Begin, reunidos na casa do presidente dos EUA, Jimmy Carter, assinaram um tratado de paz, pelo qual receberam o Prêmio Nobel da Paz de 1978.  Mas, em 1981, Sadat seria morto por um extremista muçulmano, que o considerou traidor pela assinatura do acordo.

Pedras contra blindados

A Primeira Intifada (termo que se poderia traduzir por “insurreição”) surgiu em 1987 como um movimento espontâneo contra a ocupação militar israelense na Cisjordânia. Segundo Quintero, a revolta  poderia ser comparada ao movimento dos cara-pintada pela saída do presidente Fernando Collor, em 1992.  Duramente reprimida por Israel,teve um resultado catastrófico para os palestinos: mais de mil pessoas morreram e foram presas 120 mil. “Em cada família palestina havia alguém preso ou morto”, diz Quintero.
Os acordos de Oslo, em 1993, surgiram para por fim aos conflitos e mais uma vez foram mediados por um presidente norte-americano: dessa vez, Bill Clinton. Assinaram o acordo na cidade de Oslo, Noruega, o presidente da Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin. “Rabin também seria assassinado por um radical judeu, da mesma forma que Sadat. Foram mortos por extremistas de seu próprio povo, o que mostra a intolerância de ambos os lados. Os acordos de paz são vistos como traição”.


O acordo de Oslo pôs fim aos conflitos mas, como de vezes anteriores, as negociações acabaram privilegiando Israel, que ficou com o controle dos recursos hídricos. Não tardou para surgir a Segunda Intifada, a partir de setembro de 2000. Em 2002, a Arábia Saudita ofereceu um plano de paz. Pela primeira vez, nações árabes aceitavam reconhecer Israel como Estado em troca da retirada dos territórios. Mas o governo israelense recusou a iniciativa. Continuou o impasse.

O muro ilegal

Em 2002, depois da Segunda Intifada, Israel começou a levantar um muro em torno dos territórios palestinos ocupados, a fim de evitar ataque terrorista. Em 2004, o Tribunal Internacional de Haia declarou ilegal a barreira que isola quase meio milhão de pessoas, mas Israel não acatou o parecer dessa corte.  “A maior parte do muro foi  construída na Cisjordânia. Ele entra em território palestino e se apropria de 12% do território”, explica Manuel Quintero.


Segundo as autoridades palestinas, o muro visa a criar um fato consumado, incorporando partes do territórios palestino, onde colonos judeus, em assentamentos construídos a partir de 1968. Atualmente, mais de meio milhão de israelenses vive em colônias ilegais. “Existe até uma Universidade entre os assentamentos”, destaca Quintero.

Milhares de palestinos precisam atravessar o muro, todos os dias, para trabalhar ou visitar parentes, pois famílias inteiras foram isoladas pela barreira. “Hoje, José e Maria encontrariam um muro no caminho a Belém”, diz Manuel Quintero.


A Faixa de Gaza
A Faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra localizada na costa do Mar Mediterrâneo, fazendo fronteira com o Egito no sudoeste e com Israel no leste e no norte. São apenas 41 km de comprimento e 6 a 12 km de largura, onde vivem cerca de 1,7 milhão de pessoas, muitos deles refugiados de conflitos que ocorreram desde 1948. A região tem estado sobre um bloqueio econômico e comercial, imposto por Israel, que tem deteriorado as condições de vida do local.  Segundo oficiais palestinos, mais da metade dos habitantes da Faixa de Gaza vive abaixo da linha da pobreza, cerca de 45% desempregada.


O CMI é contra Israel?

Após a explanação a respeito do panorama histórico e da atual situação na região, no diálogo com estudantes da FaTeo,  Manuel Quintero foi questionado: o Conselho Mundial de Igrejas é contra Israel? A resposta foi imediata: o CMI é a favor da paz! “Condenamos a violência em todas as suas formas”, diz ele.  O coordenador do Programa de Acompanhamento Ecumênico à Palestina e Israel explicou que o CMI quer a negociação de uma paz justa, sob o Estado de Direito.  “É a mais forte opção para garantir o bem-estar e a segurança de ambos os povos  israelense e palestino”, afirma o Conselho Mundial.


Veja abaixo as principais posições do Conselho Mundial de Igrejas em relação ao conflito:
•    Israel e suas legítimas necessidades de segurança são reconhecidos, começando com o surgimento do Estado em 1948, garantias da ONU para a sua existência, no direito de proteger o seu povo sob o direito internacional, e garantias para a integridade territorial de todas as nações na área, incluindo Israel .
•    Jerusalém deve ser uma cidade aberta, inclusiva e compartilhada em termos de soberania e cidadania. Os direitos de suas comunidades são garantidos - muçulmanos, judeus e cristãos, palestinos e israelenses - incluindo o acesso aos lugares santos e a liberdade de culto. O CMI se opõe à anexação de Jerusalém Oriental. O status final de Jerusalém é uma responsabilidade internacional e deve ser acordados no âmbito do direito internacional e, como parte de um acordo de paz abrangente entre israelenses e palestinos.
•    Assentamentos são ilegais e incompatíveis com a paz. Soldados e colonos israelenses devem ser retirados.
•    A barreira de separação é ilegal. É uma grave violação do direito internacional e do direito humanitário, e deve ser removida do território ocupado.
•    O CMI apoia uma solução de dois Estados, onde israelenses e palestinos vivam lado a lado, dentro de fronteiras seguras, reconhecidas, como solicitado em resoluções da ONU
•    Violência em todas as suas formas é condenada, se perpetrada pelo Estado de Israel dentro dos territórios palestinos ocupados ou por grupos armados palestinos no interior do Estado de Israel. O conflito não pode ser resolvido através do uso da força, mas apenas através de meios pacíficos.
•    Certas medidas econômicas são formas legítimas de pressão para a paz. O CMI incentiva igrejas-membro a evitar investimentos ou outros laços econômicos em atividades ilegais no território ocupado, e a boicotar produtos de assentamentos.

Segundo Quintero, o Conselho Mundial de Igrejas responde ao conflito em três áreas principais: reflexão teológica, oração e trabalho diaconal. “Todo ano o CMI sugere uma “Semana Mundial pela Paz na Palestina Israel”. Esta é uma semana de orações, defesa e ação em apoio de um fim da ocupação ilegal da Palestina e uma paz justa para todos na Palestina e em Israel. Congregações e indivíduos em todo o mundo que compartilham a esperança de justiça devem se unir durante a semana, em oração.  Em 2013, a semana será comemorada entre 22 e 28 de Setembro, com o tema “Orar, educar e defender a justiça na Palestina”.


Outra iniciativa do CMI é o Fórum Ecumênico Palestina Israel  (FEPI), que trabalha no sentido de aumentar a solidariedade das igrejas com as comunidades que vivem sob ocupação – incluindo comunidades cristãs, pois muitas pessoas desconhecem a existência de cristãos palestinos. Sua dimensão inter-religiosa convida as pessoas de outras religiões no Oriente Médio e em outros lugares para se juntar à busca e luta por uma paz justa e global.


Segundo Quintero, um marco importante neste processo foi a Conferência Teológica Internacional “Terra Prometida”, realizada em Berna, na Suíça, em junho de 2007, com a participação de 85 teólogos e líderes de igrejas do Oriente Médio, Europa e América do Norte. “A conferência afirmou que, depois de décadas de desapropriação ilegal, ocupação, violência e derramamento de sangue na Palestina e em Israel, os cristãos são chamados a continuar a estudar, criticar e reformular as teologias da terra, com o objetivo de promover uma visão cristã da vida para o conflito palestino-israelense. Houve consenso na conferência que a Bíblia não deve ser utilizada para justificar a opressão ou fornecer comentários simplistas sobre eventos contemporâneos, assim sacralizando o conflito e ignorando suas dimensões sócio-política, econômica e histórica”, diz o representante do CMI.

O papel dos acompanhantes ecumênicos

O Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (EAPPI, da sigla em inglês) é a dimensão diaconal da ação do CMI, explica Quintero. Ele foi criado em 2002, em resposta ao pedido dos líderes das igrejas da Terra Santa, que apelaram para uma presença real e efetiva das igrejas do mundo, no meio de um conflito particularmente violento, a Segunda Intifada.  Os acompanhantes atuam em comunidades vulneráveis, próximas aos assentamentos israelenses ou ao muro, e  monitoram a conduta de soldados e colonos israelenses nesses locais, no sentido de inibir episódios de violência ou desrespeito aos direitos humanos.  Quando retornam aos seus países, desenvolvem campanhas de sensibilização pública e de solidariedade para uma resolução justa e pacífica para o conflito e apresentam relatórios sobre violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário a fim de informar e pressionar os governos e organismos intergovernamentais. Mais de mil acompanhantes ecumênicos de 26 países já participaram do programa desde a sua criação em 2002.


O programa de acompanhantes ecumênicos distribui-se em sete locais: três no norte da Cisjordânia (Tulkarem, Jayous e Yanoun), dois no centro (Jerusalém e Belém) e duas no sul (Habroon e Yata). “Desde que começou a EAPPI no Brasil em 2010, envolveu 10 acompanhantes: 8 de São Paulo e 2 de Porto Alegre, incluindo dois luteranos e um metodista e o resto da USP”, diz Quintero. O participante metodista é Alexandre Pupo Quintino, estudante de sociologia na USP.


Entre os dias 27 de novembro e 2 de dezembro, a edição temática do Fórum Social Mundial, que ocorreu em Porto Alegre, RS, foi dedicada ao conflito na Palestina e teve a participção de cinco acompanhantes de Porto Alegre e São Paulo. Eles organizaram um seminário sobre o EAPPI e partilharam as experiências vividas pelo programa. Abertos ao diálogo, eles partilham do cotidiano do povo que sofre com a opressão e o embargo econômico. Às vezes, a atuação de um acompanhamente se resume a caminhar ao lado de uma criança palestina que vai à escola (muitas vezes, vítima da violência verbal de colonos israelenses que vivem nos assentamentos). Mesmo essa ação, que parece tão simples, é extremamente valorizada pela população local. Um palestino de Hebrom, Hashem, agradeceu da seguinte maneira aos acompanhantes “Vocês estão fazendo um excelente trabalho. Ao caminhar com nossas crianças até a escola e brincar com elas, vocês as protegem (dos ataques de colonos) e elas esquecem o medo. Obrigado!” .







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