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Estudantes de Teologia da FaTeo fazem estágio em Capelania Hospitalar

09/11/2010 20h15 - última modificação 10/11/2010 18h16

O SENHOR o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama. Salmos 41.3


Nesse exato momento, enquanto você lê esse texto, há alguém sentindo dor em alguma cama de hospital. Por mais que a medicina tenha se desenvolvido, por mais capacitados sejam os médicos e confortáveis os locais de tratamento, a cama de hospital persiste como símbolo de sofrimento. Mas ao lado dessa cama de hospital pode ser que esteja uma pessoa capaz de amenizar um pouco o sofrimento, apenas com palavras. E talvez, até mesmo sem elas, em solidário silêncio. Esse tem sido o desafio de um grupo de estudantes da Faculdade de Teologia: eles buscam ser canais de expressão do amor de Deus em meio ao sofrimento, o “socorro bem presente nas tribulações” (Salmo 46.1). Daniel Fernando Santos Inácio, Hermenegildo Del Rovere, Luís Carvalho, Renata Andrade Pasqual Pons e Rogério de Fabris realizam seu estágio em promoção humana, atividade obrigatória do currículo da Faculdade de Teologia, na capelania hospitalar do Hospital São Paulo (Unifesp).

Segundo o professor e bispo metodista Geoval Jacinto da Silva, coordenador do Programa de Estágio Acadêmico, este é um projeto que a FaTeo já acalentava há algum tempo. Conseguiu realizá-lo em setembro deste ano, por meio da parceria com a Capelania Evangélica do Hospital São Paulo, sob a responsabilidade do pastor batista Antonino Pinho Ribeiro, o pastor Nino. Capelão há 20 anos e autor do livro “Há graça no sofrimento”, o pastor Nino se encarregou do treinamento dos estagiários, que receberam apostilas especializadas e realizaram um curso preparatório de oito horas. Agora, nas visitas que fazem duas vezes por semana, eles são acompanhados por capelães experientes. Para Luís Carvalho, estudante do terceiro ano de Teologia, esse cuidado na preparação dos estagiários é fundamental, pois o capelão precisa ter em mente importantes normas de higiene e comportamento. “Quando oramos, devemos evitar a imposição das mãos, para prevenir o risco de infecção hospitalar. Também precisamos estar atentos à rotina do hospital. Não entramos no quarto quando o paciente está sendo atendido pela equipe médica”, exemplifica Luís.

A preparação para visitas a hospitais também envolve uma especial atenção ao próprio estado de espírito. Tranquilidade e autocontrole são características essenciais ao trabalho de capelania. Diante do paciente, o capelão deve tentar “ser o mais natural possível”, especialmente no primeiro contato. Uma expressão de susto ou pesar pode prejudicar tanto o ânimo do enfermo quanto uma falsa alegria, que seria facilmente perceptível. Diante do sofrimento de pacientes e familiares, a fé é o principal apoio do capelão/ã . “Não é fácil. Há momentos em que precisamos sair escondido para chorar. Lavamos o rosto e voltamos”, diz Luis.

Os/as estudantes de Teologia têm a consciência de que seu trabalho na capelania consiste em levar aos pacientes a fé e a confiança num Deus amoroso que está presente seja qual for a circunstância. A morte é sempre uma possibilidade. “Tenho me deparado com vidas em situação limite, sempre saio de lá pensando em como a vida é frágil. Hoje você está forte, saudável, livre para fazer suas escolhas, mas amanhã você pode estar preso em uma cama, limitado. Isso me faz pensar no valor da vida, no valor das pessoas, no valor de cada dia”, reflete a estudante Renata. “Vivemos em um mundo que quer respostas para ´evitar a morte´. Quando nos deparamos com o ´inevitável´ temos que repensar nossa teologia, refletir sobre um aconselhamento que seja adequado para este momento”, diz Hermenegildo. “Em minha opinião nada pode ser pior do que respostas prontas”, afirma Daniel. “A igreja compromissada com Cristo tem que escutar o paciente e a família. Tentar entender a complexidade do momento, ver que ali há pessoas com medo, com sonhos frustrados, muitas vezes decepcionadas com Deus e com a vida. Não podemos recriminá-las. Às vezes digo não saber o porquê de algumas situações. Eu escuto, falo do amor de Deus, oro e compartilho uma palavra”.

Isso não significa que os capelães não orem também por cura. “Não podemos prometer a cura. Mas levamos esperança”, diz Daniel. Ele conta que o desejo de cura é levado a Deus em oração, nos cultos realizados numa pequena capela colocada à disposição pelo hospital. Lá também a equipe de capelania ora por sabedoria aos médicos e por sucesso no tratamento. E pede forças e paz para pacientes e familiares. A cura é um aspecto importante, mas não é a ênfase principal.

Contudo, nem todas as pessoas aceitam a visita de capelães ou membros de igrejas. E, às vezes, a resistência do paciente é uma reação a uma falha cometida pelos próprios visitantes. “Algumas pessoas, no afã de evangelizar, acabam sendo inconvenientes, tentando forçar uma conversão”, diz Luis. Renata presenciou situações assim: “algumas pessoas acabam sendo agressivas na maneira de falar com os/as pacientes. Trazem peso ao doente em vez de alívio, jugo em vez de paz”.

Para o grupo de seminaristas que se inscreveu no estágio em capelania hospitalar, a experiência tem sido marcante. Eles tinham interesse pessoal e até alguma experiência em visitas a hospitais. Renata e Hermenegildo já faziam visitas a hospitais em suas cidades de origem. Rogério chegou a fazer um curso de Capelania Hospitalar e o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso tem íntima relação com a área de saúde (veja abaixo). Daniel passara por uma experiência traumática: havia perdido a mãe após dois anos de luta contra o câncer. “Afastei-me de todo os sentimentos do passado, mas com o tempo percebi que se quisesse ser um pastor teria de vencer minha dificuldade e usar minha experiência para ajudar pessoas. A capelania me deu a oportunidade de vencer meus medos ajudando aos outros”. Em menos de três meses na realização desse estágio, toda a equipe relata aprendizados significativos, tanto do ponto de vista pessoal como ministerial. Valorizar a vida, em cada momento único, tem sido o principal aprendizado para todos. “É a melhor ´experiência pastoral´ que tenho tido”, resume Hermenegildo.

Eles também são unânimes em apontar a necessidade da Igreja se envolver mais diretamente com o trabalho de capelania e visitação. Acredito que as igrejas deveriam fazer um trabalho de mobilização, de incentivo mesmo, para desenvolverem esse ministério”, diz Renata. “As igrejas podem motivar as pessoas através do incentivo da formação teológica. Um bom curso de teologia, como o da FaTeo, em sua interdisciplinaridade, pode formar um capelão”, complementa Rogério.


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Saúde integral no Antigo Testamento


O interesse de Rogério de Fabris pela capelania hospitalar tem íntima ligação com o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso, “Antropologia Semita. O Ser Humano no Antigo Testamento. Uma Análise do Campo Semântico dos Vocábulos Antropológicos Fundamentais da Bíblia Hebraica”. Conheça um pouco de seu trabalho:

Tendo o tema do TCC como referencial teórico para a prática do estágio no Hospital São Paulo, busco proporcionar aos pacientes uma visão integral de “ser humano”. Menciono em síntese as diferentes dimensões que compõem a estrutura do ser humano a partir das seguintes palavras-chave: nefesh, O Homem Necessitado; (Garganta, Pescoço, Alma, Vida, Pessoa, Pronome); basar, O Homem Efêmero; (Carne, Corpo, Parentesco, Fraqueza); ruah, O Homem Autorizado; (Vento, Respiração, Força Vital, Espírito, Afeto, Força de Vontade); lev, O Homem Racional; (Coração, Sentimento, Desejo, Razão, Decisão da Vontade, Coração de Deus).

O objetivo do serviço de capelania hospitalar consiste em transmitir aos pacientes uma palavra de esperança e consolo em meio ao sofrimento. A teologia bíblica, o discurso teológico, está posicionada entre duas pessoas: Adão como início de toda humanidade e a figura de Cristo, como aquele que vem superar a condição adâmica. No momento em que nos experimentamos humanos nos encontramos entre estes dois pólos. Eu tenho uma condição adâmica dentro de mim, porém à luz da teologia cristã, eu tenho esta perspectiva crística me chamando para um processo de evolução e superação de limites, isto é, eu avançar no meu contexto humano.

O ser humano é composto de uma complexa estrutura que é formada de diferentes dimensões. Estas diferentes dimensões se entrelaçam e mutuamente se encontram conectadas, de forma que a dor física pode afetar o aspecto emocional, ou, o contrário – aquilo que a medicina atesta como doenças psicossomáticas. É da vontade de Deus alcançar o ser humano em sua totalidade, de forma integral, de tal modo que ele seja feliz e completo. A visão integral e holística da antropologia teológica não descarta a possibilidade da presença do sofrimento na vida do ser humano, porém enfatiza o seu aspecto redentor quando, através da fé e esperança, é vivenciado, sempre abrindo a possibilidade da cura realizada por Deus através das ciências médicas ou de maneira instantânea pela eficácia do poder da Escritura Sagrada, seja através de uma palavra de oração ou ensinamento (Hebreus 4, 12; Isaías 40, 6-7; 57, 15; 55, 8-9; 66, 1-2; ).


Texto: Suzel Tunes

Foto: Luciana de Santana. Na foto, da esquerda ara a direita: Rogério, Hermenegildo, prof. Geoval, Luís, Renata e Daniel.

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