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Entrevista: Rev. Ely Eser Barreto analisa Plano Vida e Missão

08/08/2012 12h15 - última modificação 08/08/2012 12h14

fonte: Marcelo Ramiro - Expositor Cristão




O Plano para a Vida e a Missão da Igreja Metodista foi um marco na caminhada missionária e completou 30 anos. Para reforçar a importância do Plano o Expositor Cristão conversou com o rev. Ely Eser Barreto César. Ele era o vice-presidente do Conselho Geral quando o texto foi aprovado pelo 13º Concílio Geral em 1982. Foi também o coordenador da Comissão de Redação da proposta e coordenador dos debates nas plenárias. Doutor em Novo Testamento pela Universidade de Emory, nos Estados Unidos e professor do Programa de Pós-Graduação da Unimep — Universidade Metodista de Piracicaba, o rev. Ely faz uma análise consistente da Igreja após três décadas do Vida e Missão.

Expositor Cristão: Pode-se destacar algum dado que tenha provocado grande impacto sobre a espiritualidade dos metodistas brasileiros após o Plano para Vida e Missão?

É preciso identificar o desafio que traduz o coração da espiritualidade wesleyana. Trata-se especificamente do tema da santificação. Para o Plano, a Igreja participa na missão e cresce em santidade quando produz atos de piedade e obras de misericórdia.

O reencontro com o John Wesley inglês, independente da mediação dos missionários, mostrou que o Wesley original recusou toda experiência religiosa tida como “quietista” ou como “busca exclusiva de experiência interior”. Busca da santidade é viver “atos de piedade” e “obras de misericórdia”. A piedade não existirá sem as obras de amor (misericórdia).

A misericórdia, para Wesley, não brota de mim mesmo. Ela é despertada pela visão do outro que sofre, graças à sensibilidade gerada por nossa comunhão piedosa com Deus. Wesley cultivou este processo de santificação desde seus tempos de estudante em Oxford, quando passou a visitar semanalmente os presos na Prisão da Torre, para atender às necessidades concretas e materiais daqueles presos. Ele pedia esmolas regularmente nas ruas de Londres para os pobres. Sua última carta, uma semana antes de sua morte, foi um apelo a William Wilberforce, parlamentar inglês, para que não esmorecesse em sua luta contra a escravidão.

Esta santificação se funda na percepção de que a fé sem obras é morta. Seguramente este tema da santificação/“fé e obras” foi aquele ao qual Wesley mais se dedicou. Este era o sentido de sua bandeira missionária: “espalhar a santidade bíblica sobre toda a terra”. O coração da espiritualidade wesleyana está muito além da ênfase unilateral proposta pelo missionário, a do “coração aquecido”. Ficamos surpresos ao constatar que, em seu Diário e escritos, Wesley retornou umas três vezes apenas à experiência de Aldersgate.

Expositor Cristão: Quais eram os temas mais impactantes da Consulta Vida e Missão de l981, consulta responsável pelo Plano de Vida e Missão?

O PVMI aprofunda e estende ainda mais os conceitos de Missão dos Planos anteriores. Na realização do trabalho de Deus, a Igreja Metodista reconhece grandes necessidades que são também desafios da missão. Há necessidade de conhecer a Igreja, especialmente a local, descobrir suas possibilidades e seus dons e valorizar seus ministérios.

O documento afirma que como a Missão de Deus visa o mundo, há necessidade de conhecer o bairro, a cidade, o campo, o país, o continente e os acontecimentos que os envolvem, por que e como ocorrem e suas consequências. Isso inclui conhecer a maneira como as pessoas vivem e se organizam, são governadas e participam politicamente, e como isto pode ajudar ou atrapalhar a manifestação da vida abundante. Pois, se a Missão de Deus é o mundo, precisamos dedicar tempo e estudo para conhecer, criticamente e em detalhes, como este mundo funciona.

O PVMI vai mais fundo: há necessidade de apoiar todas as iniciativas - não importando qual a natureza do grupo, se cristão ou não, que preservem e valorizam a vida humana. Trabalhar na Missão de Deus é somar esforços com outras pessoas e grupos que também trabalham na promoção da vida, exatamente como ensina Jesus. Pelo plano espera-se que a igreja local e cada um de nós, de modo organizado, saiamos das quatro paredes do templo, relacionemo- nos profunda e eficazmente com a sociedade e o sofrimento humano, para contribuir na construção da vida plena para todos.

Expositor Cristão: Se o PVMI está todo fundamentado na Bíblia, como é claro em sua edição, por que tem sido tão difícil colocá-lo em prática?

Parece não ser suficiente a abundante citação bíblica em cada parágrafo do Plano. A questão é de que lugar estamos lendo nossa Bíblia, e de como a lemos. Não temos dado atenção suficiente a isso. Se lemos a Bíblia como consumidores que esperam o tempo todo receber bênçãos pessoais, corremos o sério risco de não enxergar o Deus missionário, interessado na felicidade/salvação de todas as filhas e filhos por ele criados, no atendimento das suas necessidades básicas para desfrutarem a vida plena.

Jesus parece ter lido sua Bíblia a partir de sua profunda misericórdia para com os sofredores de seu tempo. Ele “rodou” as estradas poeirentas atrás de contatos, conhecendo perfeitamente como funcionava o governo opressor do Império romano, associado ao Sinédrio judeu e sua elite de sacerdotes, escribas e fariseus. Sua compreensão da Missão de seu Pai era mesmo a proclamação da chegada do Reino de Deus. Ele se ocupou, de fato, de minorar sofrimentos concretos, curar doentes, prover pão, acolher rejeitados (como os leprosos). Foi deste lugar que ele leu sua Bíblia.

O Plano para a Vida e a Missão é um documento missionário enraizado na Bíblia e na tradição wesleyana, com foco nas demandas concretas do povo de nosso Brasil. Parece que nosso equívoco comum se prende a nosso “vício de leitura”: procuramos basicamente “os nossos interesses”, a “nossa salvação pessoal”, as “bênçãos a que julgamos ter direitos como seguidores de Jesus” e não o lugar do Deus missionário, puro amor pela humanidade, que nos convida a nos envolvermos como comunidade em amor entranhável por nossos contemporâneos. Espiritualizamos demais o evangelho a ponto de não conseguirmos entender o processo de construção deste Reino de Deus aqui e agora.

Expositor Cristão: Como se pode analisar este Plano para a Vida e a Missão 30 anos depois? O Plano contribuiu para levar os metodistas para fora das Quatro Paredes do templo?

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o Plano contribuiu para o resgate da identidade metodista em nosso país. Nos anos seguintes, a Igreja, em sucessivos encontros de todos os seus pastores e pastoras, com nossos bispos, experimentou o belo caminho da unidade, da reconciliação, do respeito às várias tendências que surgiam a partir de ênfases distintas em uma tradição rica como a nossa.

Conservadores e progressistas reencontraram seus diferentes papéis em um esforço de reconciliação. O mesmo aconteceu com os carismáticos, que nos primeiros tempos aprenderam a respeitar diferenças e acolheram como foram acolhidos como irmãs e irmãos. Descobrimos que enquanto olhávamos para nós mesmos, vivíamos em conflito. Quando todos nos voltamos para a Missão fora dos templos, a Missão nos uniu. Embora curto, esse período foi fecundo.

O projeto metodista de saída do templo para a experiência do amor ao próximo, pelo bem do próximo, exerceu algum poder de atração. Metodistas afastados retornaram. Mas este tempo durou pouco. Em lugar “da nova canção brasileira para a alma brasileira”, abundante nos anos 70 e 80, voltamos a ser atraídos pelo “modo americano de ser” e aderimos à “música gospel”. E pouco a pouco, face à poderosa influência dos muitos movimentos pentecostais e carismáticos, “retornamos ao conforto do templo”, nos fascinamos com uma excessiva concentração no “louvor”, voltamos à busca da bênção pessoal.

De fato, em geral, nossa espiritualidade metodista atual se concentra nas quatro paredes do templo. O Plano para a Vida e a Missão parece ter deixado de ser referência para a maioria de nossas comunidades.

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