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Duas entrevistas com o professor Milton Schwantes

01/03/2012 12h53

Entrevista Milton Schwantes:


Flor onde a luz é pouca: um bate papo sobre leitura popular da Bíblia com o teólogo Milton Schwantes


(...) “Você já viu a violetinha em flor lá no cantinho da cozinha?" Eis o boato que corre. E cada qual vai lá apreciar seu encanto. “E, olha, lá meio escondido, mais dois botõezinhos!". “Ah, que lindo!" E lá vamos à cozinha, a ver as florzinhas. Até parece peregrinação. E quem vem de visita é, em seguida, conduzido à florzinha, no cantinho da cozinha. Deu-me a idéia de que aí temos um Evangelho. Vem do cantinho. Lá no meio de um escuro lugar se nos anuncia uma boa-nova: há flor até onde a luz é pouca (...).
(Texto de Milton Schwantes, para o devocionário 365 Dias com Deus, Editora Cedro)


Um dos maiores biblistas do país, com título de doutorado na Alemanha e obras reconhecidas internacionalmente, o teólogo Milton Schwantes escolheu o caminho da simplicidade. Fala da Bíblia como quem fala de um amigo íntimo, gente de casa, diante de quem já não existe cerimônia ou formalidade. Nada mais natural. Para Schwantes, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a leitura da Bíblia é transformadora quando nasce da vida do povo, do cotidiano de lutas e da esperança que se renova diariamente. Ele é uma das referências no Brasil e no exterior em “leitura popular da Bíblia”, tema sobre o qual falou à revista Signos de Vida (CLAI, n. 56, Julio 2010).


Descreva brevemente sua trajetória acadêmica. Qual foi o tema de sua tese de doutorado em Antigo Testamento?
“O direito dos pobres no Antigo Testamento” foi o tema do doutorado que eu levei para a Alemanha, para a Universidade de Heidelberg. Apresentei o tema ao meu orientador, o professor Hans Walter Wolff, que, a princípio, não gostou muito da ideia. Era algo muito novo, a Teologia da Libertação ainda estava nascendo na América Latina. Hoje, meu trabalho é muito mais usado lá do que foi na época. Foi publicado em alemão (Das Recht der Armen) e em português deve sair ainda este ano. Estou trabalhando no texto.


Minha formação teológica começou em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. No curso pré-teológico, além das disciplinas do Ensino Médio, a gente aprendia latim e grego. Em 1970, concluí o curso de teologia pela EST (Escola Superior de Teologia). Na Alemanha não havia mestrado, fui direto para o doutorado. Voltei da Alemanha em 1974 e a carreira acadêmica já era prevista; a Igreja não tinha muitos doutores naquela época. Mas antes de entrarem na sala de aula, primeiro os doutores tinham que ir para a paróquia! Fui para Cunha Porã, em Santa Catarina, onde fiquei até 1978, quando, então, comecei a dar aulas na Faculdade de Teologia em São Leopoldo. Lecionei em São Leopoldo até julho de 1987. Em 1988, comecei a dar aulas na Universidade Metodista de São Paulo, na graduação em Teologia e na pós em Ciências da Religião, além de exercer o pastorado em Guarulhos. Sempre fui pastor. Apenas recentemente deixei o trabalho da Igreja porque a saúde não permite mais (em 2002, o professor Schwantes sofreu uma cirurgia que deixou algumas sequelas). Em 2002, recebi um doutorado (Honoris Causa) pela Universidade de Marburg, Alemanha. Em 2008, o Instituto de Estudos Superiores, ITESP, que é da Igreja Católica, também me concedeu o título de Doutor Honoris Causa; a iniciativa partiu dos estudantes.

Como despertou em você a leitura popular da Bíblia? Quais são as motivações que o impulsionaram nesta linha de pesquisa?
Estava no segundo ou terceiro ano de teologia quando li Richard Shaull (Pastor presbiteriano, o missionário norte-americano Richard Shaull (1920-2002) é considerado um dos precursores da Teologia da Libertação. Missionário na América Latina entre as décadas de 40 e 50, Richard Shaull deu aulas o Brasil entre 1952 e 1962.) . Realizei um seminário sobre Shaull em 1968. Ele formulou uma “teologia da revolução”, a Bíblia presente nas transformações sociais. Não era um apelo revolucionário, mas a compreensão da responsabilidade cristã nesse contexto de mudanças. Toda a minha geração foi influenciada por ele. Foi do Richard Shaull que nasceu o tema do doutorado. A Teologia da Libertação estava surgindo na América espanhola, mas as informações demoravam a chegar. Li uma tradução em alemão do Gustavo Gutierrez (O padre peruano Gustavo Gutiérrez (1928) é autor do livro “A Teologia da Libertação”, escrito após sua participação na Conferência Episcopal de Medellín, de 1968.), quando estava em Heidelberg.


A leitura popular da Bíblia é um pouco mais tardia. Nos anos 70 Frei Carlos Mesters aderiu à Teologia da Libertação quando ainda fazia uma leitura da Bíblia antiga, não popular, de um jeito dogmático. Foi do contato com o pobre – não mais como objeto, mas como sujeito do estudo da Bíblia – que nasceu essa nova forma de ler e interpretar a Palavra de Deus. Em 1979, Frei Carlos fundou o Centro de Estudos Bíblicos, o CEBI, com o projeto de estudar “Bíblia e Vida”. Em 1975, voltando da Europa, eu citei Frei Carlos em um trabalho, mas ainda não o conhecia pessoalmente. Conheci o CEBI e Frei Carlos Mesters pessoalmente em 1979 e comecei a trabalhar com leitura bíblica popular. Trabalhei sempre para criar um grupo bíblico para servir à Igreja.
Qual é o objetivo da leitura popular da Bíblia? Como ela acontece na comunidade?


Para chegar a uma leitura popular da Bíblia as pessoas entram com a vida. Quando saímos do método de ensino tradicional as pessoas vão tomando a palavra e se ensinam. É muito bonito. É algo muito impactante sempre. Porque você sabe o começo da reunião bíblica, mas nunca sabe o fim. Quando comecei em Guarulhos com círculo bíblico, eu achava que tinha que escolher o tema. Propus o Evangelho de Mateus, que é tão lindo, mas falei sozinho... Então, eu disse: “Vamos escolher um que gostamos”. E o povo respondeu rápido: “Apocalipse!” Achei muito difícil e escolhi outro Evangelho... Prometi Apocalipse para um outro estudo, no futuro. O povo é de uma paciência maravilhosa! Então, quando começamos com Apocalipse eu já não tinha mais a palavra, eram eles que falavam. Diziam: “É muito difícil, pastor, mas eu acho que é assim...”.


Em Guarulhos, quem pediu o estudo bíblico foi a própria igreja. Eu respondi: “Quem fizer o estudo vai ter que dar estudo também”. Tem muita gente que estuda a Bíblia só para encher a pança. São consumidores da Bíblia. Queria gente andando na rua, vivendo a Bíblia. Nas casas, os assessores bíblicos iam de dupla: um cantava e o outro lia a Bíblia. Às vezes eles diziam: “Ainda não, pastor, a gente tem que cantar melhor”. Então fizemos um cancioneiro e todos ensaiaram. Todo mundo tinha que estar apto. No começo eles ficavam muito preocupados. “Mas e se eles fizerem perguntas, pastor?” E eu respondia: “Não precisa responder, deixa a turma falar”.


Você acompanhava todos os grupos de estudo bíblico nas casas, dava algum tipo de monitoria?

Não, eu participava de um grupo também, como todos os demais. Tinha a mesma experiência deles. Os cursos duravam dois meses. No final, fazíamos um encerramento todos juntos, com um culto.
Então os cursos não ocorriam semanalmente, como nas Escolas Dominicais?
Estudo Bíblico toda semana não dá, a turma cansa. Ou, então, frequenta por costume quando, na verdade, o objetivo é fazer missão. Os estudos são limitados no tempo e no tema. Por exemplo, estudávamos Lucas 1 e 2 antes do Natal.


Mas o grupo não se dispersava após o término do estudo?
Que nada, na outra sessão estavam lá de novo, para estudar, cantar, para falar com o vizinho, comer... Chegamos a ter 19 grupos ao mesmo tempo.
Que desafios e que benefícios recebem as comunidades que se deixam motivar pela leitura popular da Bíblia?


Quem estuda a Bíblia tem que lidar com bazar, criança faminta, favelas, visitas... se não fizer, este trabalho não adianta. A leitura popular da Bíblia tem que estar inserida num projeto de igreja. Minha igreja fazia bazares e o grupo de estudo bíblico também tinha que estar envolvido no trabalho, recolhendo roupas para vender depois a dez centavos...


O estudo popular da Bíblia muda a comunidade rapidamente. Não pelo estabelecimento de uma moral, mas de uma alegria. A igreja de Guarulhos, que era reacionária e conservadora, agora é toda de esquerda. Fiz lá um trabalho no campo político. Por exemplo, realizamos na igreja um encontro sobre socialismo em Cuba e levei uma pessoa do Consulado para falar. Também levei um historiador, que falou da história de Guarulhos. A comunidade tem que saber quem ela é e como está.


Fazíamos encontros semestrais sobre temas específicos. Uma vez discutimos se Jesus havia sido sacrificado ou assassinado. Foi uma “pauleira”! Mas eu disse: “Aqui todo mundo fala o que pensa”. Os alemães foram embora (risos). Já a igreja cresceu: de 50, foi para uns 700 membros.
Esta leitura popular da Bíblia tem cores confessionais? Ela pode ser um fator de unidade dos cristãos?


O grupo se reúne nas casas, cantando e estudando a Bíblia. O estudo nas casas é aberto, todo mundo participa, não existe cor confessional. Numa ocasião, estudando Êxodo 3, fomos até duas horas conversando. As famílias vieram e se sentaram conosco dizendo: “Vocês estão loucos, não voltam mais para casa?”. Sentaram e ficaram. Estávamos estudando quem é Deus. Foi demais de lindo. Êxodo 3 é um dos textos mais lindos sobre Deus. Fala sobre Deus e as plantas, fala sobre libertação. Ninguém esquece quem é Deus depois de uma experiência assim.


A leitura bíblica comunitária é o grande evento na América Latina e tem a ver com o mundo católico. Isso é assim não porque o papa é bom ou por causa dos padres, pois eles não sabem muito da Bíblia, lamentavelmente. É por causa dos leigos e das mulheres. A leitura popular é um fenômeno leigo católico. Por isso o movimento bíblico continua forte, e está se renovando porque acontece em setores não controlados das igrejas. O povo não depende dos padres para ler a Bíblia. Em contrapartida, o mundo protestante tem problema com a leitura bíblica. A maioria dos pastores também não conhece Bíblia. Mas a presença do pastor é muito grande no mundo protestante; nosso grupo acaba repetindo o que os pastores dizem. Então, temos muito a aprender com os católicos. A leitura da Bíblia é ecumênica.
Como você avalia o interesse das comunidades pelo estudo da Bíblia?
Na América Latina fala-se muito que a Teologia da Libertação terminou. Mas não a leitura popular da Bíblia, que continua em pleno vigor. A organização cristã Visão Mundial convidou-me para visitar Recife. No Brasil, a Visão Mundial era extremamente conservadora há 30 anos. Mas hoje ela é uma nova instituição no Brasil. Em Recife, reuniram-se pessoas de vários grupos da Visão Mundial no país. Um metodista presidia; vários eram mais ou menos pentecostais. O resultado foi uma grande surpresa: era como se eu estivesse nos anos 70, os tempos do começo da Teologia da Libertação. Com as falhas dos anos 70, mas com as alegrias também. Naquele lugar, havia jovens, leigos e leigas, pastores e pastoras num encontro de releitura da Bíblia. Fiquei muito impressionado porque essas pessoas não conhecem a leitura bíblica latino-americana. Então, o que estava acontecendo era um novo acesso à Bíblia sem mediação da Teologia da Libertação, mas que era Teologia da Libertação. Uma leitura pentecostal e leiga, com toda a força da leitura popular da Bíblia.
Também estive em Vitória, em um seminário particular, não vinculado a nenhuma igreja e com cerca de mil alunos, a maioria pentecostais. Falei lá da mesma maneira que falo na Universidade Metodista e nos entendemos muito bem. Também visitei o CEBI em Vitória. O grupo tem mais de 50 pessoas, integrantes de igrejas históricas e pentecostais. É um grupo que as igrejas não controlam e eles trabalham muito na assessoria bíblica.


Quais são as ênfases em suas aulas quando você está diante de uma turma de estudantes de teologia?
É preciso acentuar as coisas dos dias de hoje. O comentário político também é importante. Pergunto aos meus alunos: “Vocês ajudam os pobres na igreja de vocês? Quem trabalha com os pobres?” Isso é sério! A Bíblia é uma ajuda para chegar ao pobre. Eu tendo a diminuir a Bíblia e aumentar a vida. Cada pessoa precisa sentir que faz parte da Bíblia. Leio com eles Marcos 4, por exemplo. Lá existem várias parábolas. A parábola do lavrador e da semente, por exemplo, são duas parábolas masculinas. E os homens se sentem seguros porque estão na Bíblia. Mas também mostro a parábola do grão de mostarda, que é uma hortaliça. A mostarda não está na roça, está na horta, que fica sempre junto à casa. O que está junto à casa é atividade da mulher. A mostarda é uma plantinha para os pássaros, um abrigo. Há uma conceituação feminina por trás desta parábola. Percebê-la quebra o fundamentalismo porque se percebe que cada pessoa tem parte na Bíblia: homem, mulher, jovem, idoso. A verdade não fica num só lugar.


Você percebe um interesse crescente pela leitura popular por parte dos estudantes de teologia? E na pós-graduação?
Sem dúvida! Há muito interesse, sobretudo entre os pentecostais. O povo gosta de celebração carismática, eufórica e também quer estudar. Nunca vi ninguém contra a leitura popular da Bíblia, eles querem aprender. Na graduação basta trabalhar mais sistematicamente. Na pós-graduação da Universidade Metodista tenho uma classe de 25 alunos, dos quais existe apenas uma pastora metodista. O restante da classe é quase todo pentecostal.


Em geral, o aluno não conhece a Teologia da Libertação porque o livro é muito caro. Estudante de Teologia é pobre. Vai ler o que o pastor empresta. Livro do Boff ele não consegue comprar. Se os alunos tivessem acesso a livros, eles leriam. Por isso edito os meus livros e vendo a cinco e sete reais. Não escrevo para ganhar dinheiro. Na verdade estou investindo o dinheiro da minha vida editando livros. Para vender por cinco reais, tenho que fazer três mil exemplares, que me custam dez mil reais. Tenho que vender um semestre, para fazer mais dez mil. As editoras esquecem que estudante de teologia é pobre. Vendi livros na Europa por dois euros e tive lucro acima de 1 euro por livro.


Você está escrevendo um livro nestes dias? Qual é o seu último livro publicado e do que trata?
Estou editando Oséias agora e Êxodo 1 a 6. Vou publicar quanto tiver dinheiro. Meu último livro publicado é Sabedoria e Provérbios, que vendo a sete reais. Ele traz comentários sobre capítulos inteiros de Provérbios, um livro que enfoca a vida do dia a dia. Também lancei recentemente Sofrimento e esperança no exílio e História de Israel – Local e origens, os dois a sete reais. E existe ainda o Breve História de Israel a cinco reais. Quem estiver interessado pode escrever ao meu e-mail (milton.schwantes@metodista.br). As despesas do correio são por minha conta.

Quais dos seus livros já foram publicados em espanhol e onde podem ser adquiridos?
Tenho quatro livros em espanhol. Editei Gênesis 1 a 11 no Peru; História de Israel e Exílio no Equador; Amós em Costa Rica; Ageu em Buenos Aires. Mas preciso reeditá-los. Os livros que não forem reeditados vão para a internet. Ainda não tenho site, mas já existe uma pessoa criando um para mim. A idéia é publicar todos os ensaios; minhas filhas estão ajudando.

 

Você continua participando do movimento latino-americano de Leitura Popular da Bíblia?

Com algumas limitações, mas continuo em contato com a Rede Ecumênica Bíblica Latino-americana e Caribenha, REBILAC. O site é www.rebilac.net. É uma instituição informal, que se reúne periodicamente e está na mão de leigos. Devo ir a Lima, Peru, em novembro de 2010, quando haverá o encontro continental. Participo também da Revista de Interpretação Bíblica Latino-americana, RIBLA, que ajudei a criar nos anos 90. Ela também tem um site: www.ribla.org.


E a Bibliografia Bíblica Latino-Americana? Como ela está organizada e quais são os objetivos deste projeto?
A Bibliografia Bíblica Latino-Americana começou em 1988, como parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. O projeto está ligado à área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico. Publicamos oito volumes com as publicações bíblicas referentes a 1988 até 1995 e agora todos os dados estão na Internet (http://www.metodista.br/biblica).


Ela está um pouco atrasada; há muito material. Não pensei que houvesse tanto material na América Latina. É necessário ler e fazer uma síntese. Pois a bibliografia não apenas indica o material bíblico produzido na América Latina e Caribe como orienta quanto ao conteúdo, trazendo resumos de cada ensaio e livro. Temos uma pessoa contratada só para digitar e publicar na internet. A Bibliografia traz todos os livros latino-americanos. Não existe outra iniciativa dessa em lugar nenhum do Brasil. Ela será importante só daqui a 10, 15 anos.

Entrevista realizada pela jornalista Suzel Magalhães Tunes, de São Paulo, Brasil, em junho de 2010, para revista NovOlhar, da Igreja Luterana.

 

A teologia e o direito dos pobres - Entrevista com Milton Schwantes

Entrevista concedida a Unisinos

 

Milton Schwantes é teólogo e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Biblista, Schwantes é um dos principais nomes do método de leitura popular da Bíblia na América Latina e autor de diversos livros, alguns traduzidos em espanhol, alemão e inglês.
Em agosto de 2002, o teólogo passou por uma delicada cirurgia para retirada de um tumor na hipófise (glândula localizada na parte central da base do crânio), e desde então vem se recuperando e retomando suas atividades como professor de pós-graduação na Área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, junto à Universidade Metodista de São Paulo. Casado com a psicóloga Rosileny Alves dos Santos Schwantes, o casal cuida de três filhas.
Em novembro de 2002, ainda sofrendo os efeitos da cirurgia, viajou a Marburg, Alemanha, para receber o título de Doutor Honoris Causa conferido pela Universidade local. Sua contribuição foi qualificada como "uma ponte entre a teologia européia e a teologia latino-americana".
Milton Schwantes completou 60 anos em abril e passou seu aniversário na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, RS, onde recebeu a repórter da IHU On-Line para conversar sobre sua trajetória pessoal e intelectual. Doutor em Teologia, com especialização em Antigo Testamento, pela Faculdade de Teologia da Universidade de Heidelberg, Alemanha, é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, em São Bernardo do Campo (SP). A entrevista está marcada pelo clima de alegria e otimismo do pastor e o esforço pessoal para trazer, com dificuldade, lembranças, experiências, idéias.


IHU On-Line – O senhor pode falar um pouco da sua trajetória de vida?
Milton Schwantes - Nasci em Tapera, no Rio Grande do Sul. Meus pais eram agricultores em Lagoa dos Três Cantos. Tinham uma pequena gleba de terra e plantavam de tudo. Lagoa dos Três Cantos era uma pequena vila em meio às colônias de pequenos agricultores, todos evangélicos. A rigor não existia Igreja Católica lá. Havia um ou outro católico no meio. Trabalhei um pouco na roça, como agricultor, quando pequeno, mas, como era o último da família, fui o que menos recebeu influência da roça diretamente. Saí da roça antes dos 10 anos. Minha mãe procurou emprego na cidade, pois meus irmãos já haviam ido estudar como era a orientação do meu pai.

IHU On-Line - E sua trajetória intelectual?
Milton Schwantes - Estudei no Pré-Teológico, em São Leopoldo, que era uma formação anterior à teologia. Aprendia-se grego e latim além das outras disciplinas do atual Ensino Médio. Depois fui estudar Teologia, formando-me em meados de 1970. A Igreja, que tem muito contato com a Europa, me encaminhou para um estudo de pós-graduação na Alemanha, em Heidelberg. Estudei de 1971 a 1974 e terminei o doutorado em Antigo Testamento, com um professor que foi muito especial, Hans Walter Wolff. Voltei em 1974 e assumi uma paróquia em Santa Catarina, numa cidadezinha chamada Cunha Porã. Era uma cidade também evangélica do tipo dessas colonizações que alocavam católicos e evangélicos em povoados diferentes. No caso, Cunha Porã fora inicialmente prevista para evangélicos. Aí havia uma igreja evangélica bem numerosa, algo como mil e duzentas famílias, mais do que cinco mil pessoas. Eu acompanhava várias comunidades, 26 no total. Foi um trabalho muito bonito. Fiquei lá até 1978. Depois trabalhei nove anos aqui no Morro do Espelho, em São Leopoldo, de 1978 a 1987, na Faculdade de Teologia, na formação de pastores e pastoras, isso até 1988, quando me transferi para São Paulo. Lá atuei como pastor na comunidade luterana de Guarulhos e fui e sou professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. É o que faço até hoje.

IHU On-Line - A sua tese doutoral foi sobre “O direito dos pobres”.
Milton Schwantes - Sim, o título em português será este, mas ainda não consegui publicar a tese no Brasil. Está em alemão, Das Recht der Armen, tendo sido publicada por uma editora de Frankfurt. A tese aborda o sentido social do conceito pobre. O que é sociologicamente o pobre e em que sentido ele tem direito? O que quer dizer, neste caso, direito? Direito, no caso da cultura semita, significa aquilo que corresponde a alguém que tem necessidade de obter coisas da sociedade. Este seria o significado político do termo hebraico que costumamos traduzir por direito. O pobre tem, pois, o direito também de receber comida e uma terra da sociedade. O direito é o de obter da sociedade o apoio na necessidade e na crise, em meio aos parentes e à comunidade. Igualmente quis saber quem são exatamente os pobres. O termo pobre é usado no Antigo Testamento e na Bíblia de modo diferente do que nós o usamos. Nós damos aos pobres o sentido de carentes. A Bíblia o entende como quem tem o direito de reivindicar os direitos sociais garantidos. Na tradição bíblica, um pobre não pede (não é pedinte), mas exige sua parcela da sociedade.

IHU On-Line -  Como foi a sua descoberta da teologia da libertação?
Milton Schwantes - Quando estudei na Faculdade de Teologia, no que hoje é a Escola Superior de Teologia, ainda tínhamos muita aula em alemão. Na década de 1960, os professores vinham da Alemanha e não se entendiam muito bem com nossa língua, nem aprendiam muito português. A nós, alunos e alunas, cabia aprender alemão e inglês. A dependência da nossa teologia, até então, foi mais ou menos completa; as bibliotecas estavam cheias de livros em línguas estrangeiras. A teologia era importada, sua língua também. A nacionalização da teologia foi um dos temas muito importantes dos anos 1960. Sim, esse processo foi muito importante para a nossa geração. Não foram poucos os conflitos, em especial com professores que davam aulas em alemão. Tais insistências com o português não só eram um dos temas de nós, estudantes de teologia, a própria Igreja passava rapidamente ao português, porque as comunidades evangélicas se tornavam mais e mais urbanas, nos anos 1960 e 1970. Eram tempos de grande crise interna. A pobreza aumentava, principalmente na periferia dos centros urbanos. A Igreja corria o risco de perder o contato com o seu povo da periferia. Tivemos que reestruturar-nos. Uma igreja de imigrantes nas colônias e roças tornava-se urbana e periférica. Logo, o português tornava-se urgente dentro das comunidades e paróquias. E, simultaneamente, requeria-se, de nós, estudantes, uma teologia mais social, mais contextual. A teologia européia clássica e em língua estrangeira era percebida como deslocada, e como descolada de nossas comunidades eclesiais. Buscávamos naqueles dias por novas águas. A teologia da libertação foi vivida, por nós, como fonte de água fresca. Correspondia a um anseio que vivíamos, naqueles dias, no País, ocupado por militares desde 1964, e por teologias importadas em línguas estrangeiras. A teologia da revolução, formulada já nos anos 1950 e aprofundada nos anos 1960 por Richard Shaull[1], um teólogo norte-americano que atuou entre outros no seminário teológico presbiteriano de Campinas (SP), era muito lida entre nós, protestantes. Nos anos 1960, antes e durante o Concílio Vaticano II, o mundo protestante teve uma teologia que não se tornou muito conhecida pelos católicos. Nós a chamamos de “teologia da revolução” [2]. O conceito vinha deste teólogo e ético, Richard Shaull, professor em Campinas. Ele influenciou, com sua corrente inovadora, o movimento de jovens estudantes de teologia. Afinal, os acontecimentos revolucionários em Cuba, em 1959, punham na ordem do dia o tema da transformação social rápida na América Latina, seja para solucionar a grave crise de integração dos camponeses nas cidades, seja de distribuição de terra e renda. A “teologia da revolução” tematizava a participação cristã nestas transformações. No Brasil, o golpe de 1964[3] desmantelou mais e mais essa teologia, que representava os setores mais dinâmicos dos protestantes nos anos 1950 e 1960.

IHU On-Line - Como a “teologia da libertação” ajudou ou ajuda na interpretação da Bíblia?
Milton Schwantes – A “teologia da libertação” situa-se para mim na continuidade da “teologia da revolução”. Encontrava-me em estudos doutorais em Heidelberg, quando Gustavo Gutiérrez[4] publicou sua obra. E, dizendo-o de modo abreviado, a magnífica obra da teologia da libertação inicialmente tende a apresentar uma dificuldade que já se podia observar na teologia da revolução: ambas enfocam principalmente os quadros da própria igreja, seus colaboradores mais diretos, bispos, padres, pastores, irmãs e irmãos de congregações. Inicialmente também a teologia da libertação é de quadros e não do povo. Sim, o livro de nosso querido Gustavo Gutiérrez é uma reflexão para os bispos e teólogos, e, a rigor, não tanto para o povo. Cita muitos autores europeus e franceses, situando-se ainda em parte, no âmbito da teologia “importada”. A reflexão popular ainda não iniciou, de verdade e com força. A reflexão é antes sobre o povo, mas não popular. Assim, o livro da Teologia da libertação é tão espetacular quanto frágil. Penso que grande passo inovador e exemplar, culturalmente revolucionário é a segunda grande obra de Gustavo Gutiérrez: Teologia a partir dos pobres (1978). Essa reflexão completa a primeira e coloca a nova teologia em seu devido foco: os pobres como sujeitos teológicos. Este enfoque implica numa maravilhosa conversão: a igreja precisa ouvir os pobres, mulheres, crianças e homens, para poder teologizar. Sem escuta não há libertação. Na teologia da libertação, em seu sentido profundo, a Igreja é aprendiz do caminho dos empobrecidos. Estes, os últimos, são de verdade os primeiros. Entendo, pois, que nesta sua versão a partir de 1978, a teologia toda dá uma virada, encontra seu eixo, sua tarefa própria, a de ser seguidora de Jesus nos caminhos das manjedouras e das cruzes, das vidas sofridas e destruídas de nossos países. Quem tem vida são as “vidas secas”. Dá-se uma virada radical e definitiva na vida teológica latino-americana. Passa a experimentar-se que os pobres são eixo de tudo. Antes a Igreja modernizada e mundanizada, a do aggionamento, era o eixo de tudo. Em 1978, Gustavo Gutiérrez alcançou formular a grande inovação que é o que de verdade impacta: não se trata de modernizar a Igreja, mas de retornar às manjedouras. Penso que estas luzes, que a teologia nos foi dizendo naqueles anos, continuam sendo nossas luzes. E o ciclo da teologia da libertação não está concluído, pois das luzes da manjedoura da pobreza de Belém e do crucificado emerge a profundeza da vida. O desafio permanece. E este está delineado em Teologia a partir dos pobres. Os cânticos nascidos deste desvendamento teológico, desta coragem de ver a verdade cristológica carregam nossa vida de fé. Dia a dia, Jesus nos arranca da morte para que, com alegria, vivamos com nosso próximo, pobre e destituído da vida em nossa América Latina. Nas terras latino-americanas, não se pode viver sem ser militante de uma fé centrada nos pobres.

IHU On-Line - Haveria uma crise da Igreja hoje?

Milton Schwantes – A crise se refere, a meu ver, à tarefa pastoral. Sem coração pelo social, a pastoral esfarela-se, esmigalha, despedaça-se. Movimento eclesial nenhum faz jus às terras brasileiras, se não tiver uma intuição social clara. Eis a crise das paróquias. Nelas, assim me parece, tende a esquecer-se de animar pessoas para a presença maciça nas periferias. Os pobres, aquele cinturão de empobrecidos que faz aumentar os cinturões ao redor das cidades, continua sendo prioridade. Nas periferias, não pode faltar mão-de-obra pastoral.

IHU On-Line - Quais as perspectivas do diálogo inter-religioso?
Milton Schwantes – Não me agrada muito o termo “diálogo inter-religioso”, quando se pretende diferenciá-lo de ecumenismo. Ecumênico seriam as aproximações entre igrejas e tradições cristãs, enquanto “diálogo inter-religioso” seria a atividade ecumênica com não-cristãos. Pode-se acentuar tais diferenças por questões práticas, mas em seguida há que voltar a insistir em que em Deus todos e tudo se encontra. Aí não há departamentos. Logo, sou dos que têm criticado essa linguagem, em que o ecumênico reúne igrejas cristãs e em que o inter-religioso convoca pessoas religiosas de boa índole. Penso que o diálogo entre as igrejas sempre é uma forma do diálogo inter-religioso, não cria uma outra categoria. Prefiro designar também todo diálogo inter-religioso de ecumênico. Ambos têm a mesma qualidade. Afinal, no diálogo, seja ele ecumênico ou inter-religioso, queremos experimentar Deus, em sua compaixão com a humanidade e sua criação. Temos diversas experiências deste encontro com Deus, mas todas elas se complementam. O protestante e o católico se complementam ao buscarem o convívio ecumênico. Ambos se alteram! E ambos também encontram a si mesmos no outro. Ora, o encontro ecumênico com os muçulmanos nos permite dar novos passos de mutua admiração e alteração no que se chamaria de atividade inter-religiosa. Mas, por igual se poderá designar este encontro cristão-muçulmano de ecumênico, por ser da qualidade humana e teológica equiparável ao de atividades intracristãs. Não há aí uma grande diferença. No convívio, as distâncias criam novos espaços. A mãe-de-santo é tão profundamente dedicada ao encontro com Deus como nós o somos com o mesmo Deus, considerando que o Deus da Vida não existe em duas espécies, como Deus e não-Deus. Ele só subsiste como Deus “exodal”, do qual estamos igualmente próximos e desesperadamente distantes. Outro dia escrevi um pequeno ensaio sobre este problema. Pensei-o com base em uma cena do metrô. Lá não tem setor ecumênico, ou setor inter-religioso. No metrô só há um lugar, simultaneamente excludente e coeso. Nele, o metrô nos torna um.

IHU On-Line - O senhor está num estado delicado de saúde. Como está enfrentando este momento, tendo uma história de vida cheia de fé?
Milton Schwantes - Para mim, está tudo bem. Dou risada. E muita. Fiquei com muitas seqüelas, com as quais agora vivo, mas não posso dizer que vida sob as condições de limites e restrições seja vida ruim. É vida boa, porque não canso de receber uma mãozinha, seja para atravessar uma rua ou entrar em um ônibus. Tenho experimentado muita graça. E descobri muitas pessoas que vivem com limites como os que experimento. Importa que os vivamos na alegria da fé em Jesus, na alegria da vida, doada por Deus.

IHU On-Line - O senhor completou 60 anos. Quais suas perspectivas profissionais e de vida?
Milton Schwantes – Andei limitando minha atuação. Ao menos, era este o meu desejo. Mas as tarefas continuam sendo muitas. Com grande alegria dou aulas. Convivo com alunos e alunas, e trato de mostrar que teologia é gratuidade, graça. Trabalho Universidade Metodista de São Paulo e gosto muito de dar aula. Tenho muitos orientandas e orientandos no mestrado e no doutorado. Vejo com grande felicidade que aumentam os sinais ecumênicos.

IHU On-Line - Na vida pessoal, há alguma coisa que o senhor queira fazer?
Milton Schwantes – Gostaria de ir a Israel, Palestina e Jordânia com meus alunos e minhas alunas. Mas, isso ainda não deu certo. Espero que o plano dê certo em 2007. Depois tenho muita alegria em viver com minha esposa. A Rosi é mesmo um encanto de pessoa. É bom demais conviver com ela. Graça gratuita! As meninas vão fazendo suas experiências na vida. De algumas aprendo; para outras prefiro preparar-me com bom humor. Afinal, cada qual precisa ter o direito de equivocar-se. Bater a cabeça é algo como um direito natural. De todo modo, somos uma bela comunidade, de muita risada.



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[1] Richard Shaull (1919-2002): teólogo presbiteriano norte-americano, levantou a questão sobre se a revolução teria um significado teológico. Escreveu Surpreendido pela graça - Memórias de um teólogo. Trad. Waldo César. Rio de Janeiro: Record, 2003. (Nota da IHU On-Line)
[2] Teologia da Revolução: título de um importante livro de José Comblin, de 1970. Comblin é teólogo católico belga, ensinou Teologia no Recife durante sete anos, sendo depois expulso do Brasil, em 1972. Hoje vive em João Pessoa, na Paraíba. Confira a entrevista que publicamos com ele, sob o título Uma radiografia da América Latina, na edição nº 176, de 17 de abril de 2006. (Nota da IHU On-Line)
[3] Golpe Militar: Movimento deflagrafo em 1º de abril de 1964. Os militares brasileiros, apoiados pela pressão internacional anticomunista liderada e financiada pelos EUA, desencadearam a Operação Brother Sam, que garantiu a execução do Golpe, que destituiu do poder o presidente João Goulart, o Jango. Em seu lugar os militares assumem o poder. Sobre a ditadura de 1964 e o regime militar o IHU publicou o 4º número dos Cadernos IHU em Formação, intitulado Ditadura 1964. A memória do regime militar. Confira, também, as edições nº 96 da IHU On-Line, intitulada O regime militar: a economia, a igreja, a imprensa e o imaginário, de 12 de abril de 2004, e nº 95, de 5 de abril de 2005, 1964 – 2004: hora de passar o Brasil a limpo. (Nota da IHU On-Line)
[4] Gustavo Gutiérrez (1928): padre e teólogo peruano, um dos pais da Teologia da Libertação. Gutiérrez publicou, depois de sua participação na Conferência Episcopal de Medellín de 1968, a Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, traduzida para mais de uma dezena de idiomas, e que o converteu num teólogo polêmico. Uma década mais tarde participou da Conferência Episcopal de Puebla (México, 1978), que selou seu compromisso com os desfavorecidos e serviu de motor de mudança na Igreja, especialmente latino-americana. Alguns dos últimos livros de Gustavo Gutiérrez são: Em busca dos pobres de Jesus Cristo. O pensamento de Bartolomeu de Las Casas. (São Paulo: Paulus, 1992); e Onde dormirão os pobres? São Paulo: Paulus, 2003. (Nota da IHU On-Line)

(Fonte: www.unisinos.br/ihu)

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