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Do interior do Império, uma visão libertadora: diálogo com o teólogo Joerg Rieger

21/05/2010 20h30 - última modificação 21/05/2010 21h10

Teólogo metodista alemão, professor numa universidade norte-americana de Dallas –a Perkins School of Theology, da Southern Methodist University –, Joerg Rieger diz que mora no “ventre da besta”: o principal tema de suas reflexões é, justamente, a relação entre o cristianismo e o “Império”.

O autor de Cristo e Império: de Paulo aos tempos pós-coloniais (Editora Paulus) esteve na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista, a FaTeo, junto com um grupo de professores/as da Perkins numa data significativa para o cristianismo do mundo inteiro: a Semana de Oração pela Unidade dos/as Cristãos/ãs. No dia 19 de maio ele dialogou com estudantes e professores/as da FaTeo e do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade a respeito das idéias expostas nesta e em outras obras de sua autoria.

Na apresentação do palestrante, o reitor da FaTeo, professor Rui de Souza Josgrilberg, fez questão de destacar o relevante papel representado pelo trabalho de Rieger no diálogo teológico com a América Latina. Segundo Josgrilberg, Rieger consegue fazer uma profunda reflexão sobre estruturas coloniais a partir de uma perspectiva latinoamericana – mesmo sendo europeu e lecionando numa instituição estadunidense. “Outros tentaram e não conseguiram”, afirmou. O professor Jung Mo Sung, professor da FaTeo e coordenador do Programa de Pós Graduação, qualificou o amigo e companheiro de trabalho (veja abaixo) como “um teólogo da libertação no interior dos Estados Unidos”.

Apenas a instigante biografia já tornaria o diálogo com Joerg Rieger uma oportunidade rara. Refletir sobre as influências do império em nossa forma de pensar e viver a fé nos dias atuais também é tarefa incomum. A começar pela identificação do pensamento imperial em nossas crenças, desejos e emoções. O professor Rieger começou dizendo que, numa de suas palestras na Alemanha, a platéia o recebeu com uma atitude surpresa: “Por que o Império é problema?” – perguntaram.

Quem vive num país da América Latina, que sempre foi cenário da exploração de potências econômicas, talvez consiga identificar mais facilmente a ação (e os danos) do imperialismo. Ainda assim, nem sempre ele é facilmente perceptível. Muitas vezes, o imperialismo se apresenta de maneira pacífica e benevolente. “Este é um problema que temos hoje nos Estados Unidos. Durante o governo Bush o Império ficou claro. Hoje, há quem possa pensar que o Império acabou simplesmente porque mudou o governo”, disse o teólogo.

Rieger distingue o poder em “duro” – o exercido pelo Império Romano, por exemplo – e o poder “brando”, uma insidiosa forma de dominação que se pode identificar em vários momentos da história – por exemplo, na atuação do padre Bartolomeu de Las Casas (1474-1566). Intitulado “o apóstolo dos índios” por seu posicionamento contra a escravidão indígena, Las Casas acabaria se tornando modelo para uma forma de colonialismo pela educação.

Se o pensamento imperial tem moldado as sociedades e culturas, não seria diferente com a teologia cristã. Até mesmo teólogos considerados “de vanguarda” não conseguiram fugir desta armadilha. Tal seria o caso do alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Fundador do chamado “liberalismo teológico”, Schleiermacher jamais foi visto como um imperialista. Contudo, à semelhança dos alemães de sua época, ele também teria o que os historiadores chamam de “fantasia colonial”. Schleiermacher achava que o cristianismo teria um natural poder de “atração” sobre outras tradições religiosas. “Ele acreditava que todas as religiões têm experiência de Deus; sua teologia seria, portanto, inclusiva. Mas pense em como ele inclui as outras religiões. Quando ele diz que outras religiões têm consciência de Deus, ele estabelece uma hierarquia: as monoteístas teriam mais consciência do que as politeístas; os cristãos teriam mais consciência do que os judeus e os judeus, por sua vez, mais consciência do que os muçulmanos”. Segundo Rieger, haveria nesta concepção um senso de superioridade eurocêntrica – a serviço, portanto, do colonialismo europeu.

Identificar os sistemas imperiais em nossa forma de pensar, sentir e viver o Evangelho pode exigir um árduo trabalho de “desconstrução”. Afinal, o Império molda o cristianismo desde os tempos do apóstolo Paulo. “A boa notícia é que o Império nunca foi capaz de dominar tudo completamente. Sempre houve movimentos dissidentes, alternativas emergindo do corpo principal do cristianismo”, afirma Rieger. O desafio que o teólogo apresenta a seus colegas, estejam na academia ou no campo da educação cristã, é buscar estas alternativas.

Para o teólogo, na compreensão de como o Império molda a teologia cristã também se encontra a alternativa para uma leitura feita “de baixo para cima”, na perspectiva daqueles que são oprimidos e marginalizados. O estudo da história pode ser um primeiro passo. Aos participantes do diálogo promovido pela FaTeo Rieger lembrou que o cristianismo se tornou religião oficial no século 4, sob a tutela do imperador Constantino. Em 325 d.C. ocorreu o Concílio que resultou no Credo de Nicéia, confissão de fé aceita até hoje por católicos e protestantes. “Podemos dizer que este é um credo paradigmático do Império”, disse Rieger. Ele tomou como exemplo o seguinte trecho do Credo: Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, da mesma substância do Pai.

Afirmar que Jesus tem a “mesma substância do Pai”, é o mesmo que lhe conferir características tradicionalmente identificadas com a Primeira Pessoa da Trindade: Jesus se torna onipotente, imutável, impassível. É como se o menino pobre, o Jesus carpinteiro, fosse colocado num pedestal e transformado repentinamente num Imperador, disse o teólogo. Contudo, da mesma maneira que se pode ler o Credo de Nicéia sob a luz e ótica do Império, é possível fazer uma leitura alternativa: “o que aconteceria se, ao invés de vermos a Segunda Pessoa da Trindade a partir da Primeira, nós pudéssemos ver a Primeira Pessoa a partir da Segunda? E se nós víssemos o Deus Todo Poderoso à luz deste camponês assalariado, sempre ao lado do povo?”, propôs Joerg Rieger.

Segundo o teólogo, a idéia de um Deus onipotente interessa ao Imperador onipotente; podemos, no entanto, pensar num Deus de solidariedade, que resiste ao poder e à opressão imperial. A imagem de Deus seria, assim, reformulada dramaticamente. Para o teólogo alemão que vive num dos países mais poderosos da atualidade, a tarefa da teologia é retomar a leitura destes credos não apenas contra o Império de Constantino, mas contra os impérios de hoje.


Para além do espírito do Império


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No final de 2009, o professor Joerg Rieger, em parceria com o prof. Jung Mo Sung e o professor Néstor Miguez, do Instituto Universitário Instituto Superior Evangélico de Estudios Teológicos ISEDET), de Buenos Aires, lançou o livro Beyond the Spirit of Empire (“Além do Espírito do Império”, ainda sem tradução em português).

Nesta obra, os autores (um alemão que vive nos EUA, um coreano de nascimento que vive no Brasil e um argentino) analisam o império global não apenas em suas dimensões políticas e econômicas, mas também a partir de suas construções simbólicas de poder. Como o império molda a subjetividade humana, por exemplo, e como isso afeta a compreensão humana de toda criação? Quais são as dimensões religiosas do império, que invocam atributos divinos como onisciência, onipresença, onipotência e eternidade, destruindo a liberdade humana e banalizando a consciência política?

A obra foi recebida com entusiasmo por estudiosos do chamado “pós-colonialismo”, como têm sido chamadas as novas teorias que, em vários campos do conhecimento (teologia, política, filosofia, arte etc) analisam os resultados deixados pelo colonialismo nos países colonizados, com uma clara opção pelas “margens”. Para a professora Kowk Pui-lan, autora do livro “Imaginação pós-colonial e Teologia Feminista”, este livro interdisciplinar e escrito a partir de três diferentes contextos geográficos, provê recursos para aqueles que acreditam que são possíveis um outro mundo e um espírito alternativo que resista ao Império. Walter Mignolo, professor da Duke University, diz que o livro pode ser descrito como a “geografia da religião e da constituição dos impérios ocidentais” e interessará a todos os leitores interessados em religião, sejam teólogos ou não.


Suzel Tunes

Foto: Luciana de Santana

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