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Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa: 21 de Janeiro

21/01/2010 09h41 - última modificação 21/01/2010 09h42

O respeito ao eterno que vive no coração de cada um

Mal você começa a usar sua nova agenda de 2010 e encontra uma data comemorativa: 21 de janeiro é “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa”. Como não é nenhum feriado, você poderá achar que se trata de mais uma iniciativa política inócua, sem efeito concreto sobre sua vida. E isso será verdade se a data for apenas uma marca no calendário e você continuar ouvindo, impassível, declarações como as do cônsul do Haiti, que vazaram para a imprensa num daqueles momentos em que a verdade se liberta do script. Sem saber que era gravado, George Samuel Antoine atribuiu o trágico terremoto sofrido pelo país no dia 12 de janeiro a uma “maldição” que o haitiano teria herdado de seus ascendentes africanos. “Acho que de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo.... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...”

É bem provável que o infeliz comentário do cônsul seja fruto temporão de uma antiga crença baseada no capítulo 9 do livro bíblico de Gênesis: Canaã, amaldiçoado pelo avô Noé, estaria fadado a um destino de sofrimento: ser “servo dos servos de seus irmãos”. Pelo menos esse foi um dos argumentos usados pela Igreja cristã para legitimar a escravidão negra... Houve quem dissesse também que o assassino Caim teria recebido a negritude da pele como sinal de seu amaldiçoado fratricídio, em outra tortuosa interpretação do livro de Gênesis. Já se vê que a ignorância é combustível da manipulação e, impregnada no imaginário religioso das pessoas, ecoa por séculos, muitas vezes com funestas conseqüências.

No ano de 2000, o preconceito religioso teria sido uma das causas da morte de uma sacerdotisa do candomblé, na Bahia. De saúde frágil, Mãe Gilda teria se chocado ao ver sua foto usada pelo jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, para ilustrar uma reportagem com o título “Macumbeiros charlatães ameaçam a vida e o bolso dos clientes”. Apurou-se depois que a foto utilizada na matéria havia sido tirada numa manifestação pelo impeachment do presidente Collor, em Salvador. A ialorixá, cujo terreiro já havia sido invadido duas vezes por evangélicos, começou a apresentar mais problemas de saúde. E no dia 21 de janeiro de 2000, um dia após assinar procuração para a abertura do processo contra o jornal, ela morreu vítima de um infarto.

Em 2004, o dia da morte de Mãe Gilda transformou-se no Dia de Combate à Intolerância Religosa, na cidade de Salvador, por meio de um projeto da vereadora Olívia Santana (PCdoB). Com base neste projeto, o deputado federal Daniel Almeida, do mesmo partido, propôs medida semelhante de alcance nacional, o que resultou na Lei 11.635, de 27 de dezembro de 2007 instituindo o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que hoje você vê em seu calendário.

É bom que se diga que “tolerância religiosa” não é concordância ou aceitação das crenças, tradições ou rituais religiosos que se apresentam no mundo plural que vivemos. Cada pessoa tem o direito de aceitar ou rejeitar valores religiosos, segundo sua consciência, discernimento e – por que não dizer? – segundo o que lhe diz seu coração. Afinal, a religiosidade é muito mais do que um conjunto de valores morais ou ritos que se cumprem por tradição. Como dizia o alemão Paul Tillich, um dos mais influentes teólogos do século XX, religião é a “preocupação última”, aquilo que nos toca incondicionalmente. O “gosto pelo infinito”, na poética definição de outro teólogo famoso, Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Sem dúvida, uma das características mais marcantes de nossa condição humana. “Deus pôs a eternidade no coração do homem”, nos diz o livro bíblico de Eclesiastes (cap.3, v.11) Respeitar a religiosidade de uma pessoa é, portanto, respeitar o que ela tem de mais profundo e verdadeiro, o que a constitui como humana, o que ela tem de eterno.

Suzel Tunes

Assessoria de Comunicação

Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo

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