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Dia Nacional da Saúde: Mente sã em corpo...de Cristo.

05/08/2013 13h40 - última modificação 05/08/2013 13h37



A Igreja deve ser uma comunidade terapêutica, na qual os membros cuidam uns dos outros. Incluindo pastores e pastoras.


Pesquisas e estatísticas demonstram: doenças mentais, como esquizofrenia, depressão, transtornos obsessivo-compulsivos e ansiedade, representam 14% das doenças do mundo, mais que o câncer ou as doenças cardíacas.
Um artigo publicado pela revista inglesa Lancet, especializada em medicina, revela que os males de ordem mental ou emocional respondem por até 90% de todos os 800 mil suicídios registrados anualmente no mundo – a grande maioria nos países em desenvolvimento. Seria possível evitar grande parte desses suicídios se houvesse prevenção e tratamento adequados. Mas ainda enfrentamos a barreira do preconceito e a dificuldade de acesso aos sistemas de saúde.

Tal situação de carência ressalta a importância da Igreja como promotora de saúde mental, especialmente por intermédio do trabalho de aconselhamento realizado pelos ministros(as) religiosos(as), que podem exercer um importantíssimo papel na prevenção e até no tratamento dos males de ordem emocional. É o que afirma a psicóloga Roseli Kühnrich de Oliveira, em sua tese de mestrado pela Escola Superior de Teologia, no Rio Grande do Sul. “O aconselhamento pastoral é acessível e gratuito a todas as camadas da população”, justifica. Vale lembrar que, segundo a pastora e psicóloga Blanches de Paula, professora da FaTeo, a palavra saúde é um termo teológico e não médico. “Saúde está diretamente ligada a salvação. Saúde no sânscrito, svastha significa bem-estar, plenitude. O termo soteria, do grego, significa aquele que cura e que ao mesmo tempo é salvador.Já na língua latina encontramos salus, que incorpora os termos saúde e salvação. Numa dimensão teológica, ainda é importante enfatizar a proposta soteriológica do Evangelho apregoado por Jesus Cristo. A proposta do Reino de Deus é o ser humano de forma integral”, enfatiza a professora.

Contudo, diante de um problema relacionado à saúde mental de membro da Igreja são comuns duas formas errôneas de lidar com o assunto: 1) o(a) pastor(a) ignora a complexidade do problema, atribuindo-o simplesmente à falta de fé; 2) o pastor não se vê em condições de cuidar do problema e o transfere imediatamente para um psicólogo ou outro profissional especializado.

Segundo o pastor e psicólogo Josias Pereira, da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, a primeira atitude é a mais comum. Um antigo cântico infantil apregoava: “Quem tem Jesus (...) está sempre sorrindo...”Para o Rev Josias, no entanto, quem tem Jesus também tem que saber conviver com a tristeza. Isso também é ato de fé.“A tristeza é própria do ser humano. Ao negar essa verdade provocamos naquele que sente tristeza um imenso sentimento de culpa; o que é desumano”, afirma. Segundo o pastor, essa negação da tristeza está diretamente relacionada com uma tendência do mundo moderno: a divinização do ser humano. “Fomos criados para sermos humanos, não deuses”, diz ele.

Assim, muitas vezes é necessário reconhecer a necessidade de apoio de profissional especializado; psicólogo ou psiquiatra conforme o caso. Há quadros emocionais que se apresentam como sintomas de distúrbios orgânicos e pedem tratamento químico. Esse diagnóstico só um profissional da área de saúde pode fazer. Mas o pastor ou pastora pode perceber a necessidade de encaminhamento ao consultório do psicólogo ou psiquiatra.
Não é muito é fácil. Em primeiro lugar, porque os pastores resistem a compreender o ser humano como um todo integrado de mente e corpo. “Eu costumo dizer aos pastores e pastoras: Você se limita a fazer oração quando é necessário obturar um dente?” , diz Josias.


Contudo, a busca de um atendimento especializado na área de saúde não significa o abandono do trabalho de aconselhamento pastoral. Este é outro equívoco no qual incorrem alguns(as) pastores(as).O irmão ou irmã encaminhados a tratamento médico ou psicológico também contam com o apoio pastoral. “São dimensões diferentes e complementares”, explica Josias.

Quem cuida do cuidador?
E quando é o pastor que está precisando de ajuda? Aí, a situação torna-se ainda mais complicada. Na dissertação de mestrado em teologia intitulada Cuidando de quem cuida: um olhar de cuidados aos que ministram a Palavra de Deus, a psicóloga Roseli Kühnrich de Oliveira destaca que, muitas vezes, o pastor ou pastora tem uma imagem idealizada diante da comunidade.De cima do púlpito ou atrás de uma mesa do gabinete pastoral, ele se torna modelo de fé, equilíbrio e bem-estar.

Se a maioria dos pastores não está preparada para receber ajuda de outros profissionais no atendimento aos membros de sua igreja, pode-se imaginar a resistência a buscar ajuda para si mesmo. A tendência geral é negar ou ocultar os problemas de ordem emocional. Não por acaso, os pastores e pastoras são alvos fáceis de desgaste físico e psicológico. Uma pesquisa realizada há dez anos pelo psiquiatra Francisco Lotufo Neto, professor da Universidade de São Paulo e membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, já indicava uma considerável porcentagem de pastores(as) sofrendo de transtornos mentais – principalmente ansiedade, depressão e distúrbios do sono. Lotufo aplicou um questionário a 750 ministros religiosos cristãos não católicos, moradores da cidade de São Paulo, e constatou que a prevalência de transtornos mentais no mês que precedeu a entrevista foi de 12.5% -- 47% receberam esse diagnóstico quando a vida toda foi considerada. Os principais diagnósticos foram Transtornos Depressivos (16.4%), Transtornos do Sono (12.9%) e Transtornos Ansiosos (9.4%). Problemas financeiros, problemas com outros pastores, conflitos com os líderes leigos da igreja, dificuldades conjugais, problemas doutrinários na igreja e sobrecarga de trabalho foram os principais fatores de stress identificados.

O Rev Josias Pereira lembra que no ano de 1996 uma pesquisa semelhante foi realizada na Igreja Metodista, em âmbito nacional, por meio de questionários entregues a todos o corpo pastoral da Igreja. Na ocasião, surpreendeu o fato de que os maiores níveis de stress foram encontrados em cidades pequenas e afastadas dos grandes centros urbanos, mas não houve uma avaliação qualitativa dos dados levantados.

Diante de uma dor emocional, o pastor ou pastora sente a necessidade de se abrir com alguém, como qualquer outra pessoa. Mas, com quem? O Rev. Josias Pereira percebeu, a partir de relatos ds pacientes que atende em sua clínica de psicologia, que os pastores não são bons confidentes para seus colegas. O sigilo nem sempre é respeitado e o clima de competição que, dominando toda a sociedade, atinge também a Igreja, inibe os ministros religiosos a revelarem aos seus colegas o que consideram ser fracassos pessoais. Afinal, hoje as pessoas só querem contar casos de sucesso.

Uma solução, sugere Josias, é que os pastores façam terapia em locais distantes de sua casa e igreja. A terapia não é apenas para o caso da existência de problemas, ressalta ele. É uma prática de autoconhecimento. “Não pode fazer aconselhamento pastoral quem não se conhece a fundo”, defende.

A necessidade de espaços para compartilhar sentimentos e receber orientações também foi identificada pela psicóloga Roseli em sua pesquisa de campo, na qual ela entrevistou 38 pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. 72,2% dos pesquisados gostariam de ter um orientador espiritual, mas apenas 11,1% já têm alguém que os acompanha como supervisor ou mentor espiritual.

A psicóloga sugere, portanto, um trabalho de mentoria – que poderia ser exercido por pastores aposentados, por exemplo. Segundo a psicóloga, as instituições também poderiam dar este suporte, promovendo encontros de pastores com enfoque médico-pedagógico, nos quais profissionais de saúde fossem convidados a dar palestras e esclarecer dúvidas. Cultivar relações de amizade, participar de grupos de apoio e oração e manter um ritmo de vida balanceado, com momentos de lazer, são outras medidas de promoção de saúde mental.

Práticas de cuidado
Roseli destaca, ainda, que o cuidado de si mesmo nem sempre é valorizado em interpretações teológicas que priorizam o “gastar-se por amor a Cristo”. Contudo, segundo a psicóloga, os evangelhos indicam que Jesus não se adiantou ao sacrifício na cruz. “Pelo contrário, muitas vezes retirou-se das situações de tensão, sabendo que ainda não era a hora”. Assim, ela acredita que o exemplo de Jesus indica caminhos para o necessário autocuidado daqueles que exercem a missão de cuidadores. Ela cita várias passagens bíblicas. Em Marcos 6.46, por exemplo, lê-se que Jesus se afasta para orar, subindo a um monte. Em Marcos 6.30, ele recomenda aos apóstolos que repousem um pouco, “à parte, num lugar deserto; porque eles não tinham tempo nem para comer”.“O ativismo dos pastores não lhes oportuniza o necessário silêncio para a meditação, oração e leitura bíblica”, afirma a psicóloga.


Terapeuta ferido
Roseli também defende a ideia, citando vários autores, que somente aquele que sofre tem condições de exercer o poder curativo, a exemplo de Cristo, que transformou o próprio corpo ferido em caminho para a cura. “O exemplo da cruz de Cristo remete ao caminho dos cuidadores e dos que são cuidados: não há negação do sofrimento, ao contrário, ele é escancarado a fim de que possa haver restauração”, diz ela.

Não é fácil falar de fragilidade num tempo que enaltece o poder. Da mesma forma, os pastores são tentados a se apresentar diante da Igreja como seres infalíveis. Mas o exemplo de Cristo aponta para caminho oposto: “Em Jesus, a concepção do poder ilimitado, a serviço dos desejos e vaidade pessoais, é esvaziada, pois ele se revela na cruz como aquele que, detendo todo o poder, faz da misericórdia a sua ética. O esvaziamento de poder é certamente o caminho dos cuidados e dos cuidadores, tornando-se uma fé ligada ao cuidado e, portanto, ligada à vida”. Essa consciência deve estar presente entre clérigos(as) e leigos(as) pois, como nos ensina o apóstolo Paulo, a Igreja é o corpo de Cristo – todos os membros igualmente importantes, apoiando-se mutuamente para a saúde do corpo.

Suzel Tunes

Fonte: Expositor Cristão de outubro de 2007

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