Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Caladas na Igreja? Mulheres e Igrejas nos dias de hoje: a cobertura completa da 61ª Semana Wesleyana

Caladas na Igreja? Mulheres e Igrejas nos dias de hoje: a cobertura completa da 61ª Semana Wesleyana

25/05/2012 14h50 - última modificação 30/05/2012 14h15

Caladas na Igreja? Mulheres e Igrejas nos dias de hoje.

Apontamentos sobre a Semana Wesleyana 2012

61ª edição

 

Para assistir os vídeos da Semana Wesleyana, acesse:

http://www.eventosfateo.com.br/

Para ver fotos do evento, clique aqui


Sexta-feira, 25 de maio de 2012

Momento de refletir e fazer uma síntese de uma intensa semana de atividades, com as professoras Blanches de Paula e Magali Cunha discorrendo sobre “Igrejas e Mulheres: entre a utopia e a realidade”. E foi sonhando com um mundo novo que a professora Blanches de Paula associou a caminhada ministerial da mulher metodista às estações do ano. Na “primavera da vocação”, o alicerce para o reconhecimento da vocação feminina, que deve partir das próprias mulheres.  No verão, os frutos dos 40 anos de ministério ordenado e a consciência de que os frutos vêm do trabalho realizado por mulheres e homens. Outono, o mês das folhas que caem, é o período dos lamentos: a memória das perdas e a oportunidade de superação das feridas. Na caminhada ministerial feminina, muitos outonos podem surgir, mas devem dar lugar a reflexões que apontem para a esperança, como esse evento promovido pela FaTeo. Finalmente, no “inverno do aconchego”, uma metáfora do cuidado integral. A professora Blanches destacou a necessidade de que a Igreja reconheça seus erros diante das mulheres e haja paz, reconciliação e cuidado. A criação da Rede de Pastoras Metodistas, ocorrida durante o Encontro Nacional de Pastoras Metodistas ocorrido na tarde da quinta-feira, é uma iniciativa de cuidado que deve ser incentivada, disse ela. “Não basta colocar as mulheres nos postos da Igreja. Elas devem cuidar e serem cuidadas”.

Magali do Nascimento Cunha afirmou que é preciso ver a realidade, julgá-la pela Palavra de Deus e pela História e agir, embaladas/os pela utopia.  Ela lembrou que o patriarcalismo é uma ideologia disseminada pela educação, religião e meios de comunicação e a ideologia tende a apresentar as desigualdades como fatos naturais. Muitas mulheres agem movidas por essa ideologia sem o saber quando, por exemplo, ensinam seus filhos pequenos que “homem não chora”...  Lembrando da palestra da professora Márcia Paixão, ela reafirmou a necessidade de se valorizar o ministério diaconal na Igreja e num exercício de poder que seja voltado ao serviço e não a interesses pessoais. “Muitos espaços são ocupados por mulheres que se beneficiam dos frutos dessa luta pela igualdade de direitos mas que reproduzem o modelo de poder patriarcal”, afirmou. “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, nos zia a Palavra, Mas, para que queremos o poder? Como vamos utilizá-lo?”, questionou.

 

Quinta-feira, 24 de maio de 2012, Dia do Coração Aquecido

As “Mulheres no Governo da Igreja" foi o importante tema escolhido para iniciar as atividades da quinta-feira.

A Revda Maria Inés Simeone testemunhou sua experiência como presidente da Igreja Metodista do Uruguai.  Ela iniciou sua palestra dando um panorama geral das características da Igreja Metodista no Uruguai, que nasceu a partir do trabalho missionário da Igreja Metodista Episcopal do Norte – ao contrário do Brasil, que nasceu a partir da conferência do Sul – o que lhe confere algumas particularidades. O metodismo uruguaio diferencia-se do brasileiro, por exemplo, a partir da própria estrutura de governo: o sistema não é episcopal. É a Assembleia Geral que se reúne a cada dois anos e elege presidente e vice.  Se o/a presidente for clérigo/a, o/a vice precisa ser leigo e vice-versa. O/a clérigo/a que exerce essa função de liderança em um mandato de dois anos não ganha salário por isso, pois, paralelamente ao trabalho na presidência,  continua a exercer o seu ministério pastoral na igreja local. Maria Inés Simeone foi a quarta mulher eleita para o cargo de Presidência da Igreja, em 2008, numa assembléia que teve composta por 80% de mulheres. “O Uruguai teve a primeira mulher leiga eleita presidente de Igreja no mundo, em 1979”, conta a pastora.  Atualmente há seis mulheres e três homens nas instâncias decisórias da Igreja.

Ela diz que sua eleição ocorreu como o resultado de um trabalho de seis anos na coordenação da Pastoral da Mulher, no qual a Igreja atua na promoção da cidadania feminina, em especial na prevenção da violência doméstica e no combate ao uso de drogas. Assim, embora a Igreja Metodista seja bem pequena no campo religioso uruguaio (0,8% da população do país) tem grande reconhecimento social, sendo convidada pelo governo a participar de projetos de âmbito social e na defesa dos direitos humanos.

É claro que nem tudo é um paraíso... a Revda María Inés conta que, sua metodologia participativa, que vinha aplicando na Pastoral da Mulher, não foi bem compreendida quando esteve na presidência da Igreja.  As freqüentes consultas que fazia aos irmãos e irmãs antes das tomadas de decisões foram interpretadas como insegurança. Contudo, ela diz que cresceu e aprendeu muito com sua experiência.

 

A Bispa Joaquina Nhanala e a Bispa Marisa de Freitas Ferreira relataram situações muito similares no exercício do ministério feminino em seus país. A Bispa Joaquina, de Moçambique, afirmou que o fato de “tiramos Jesus Cristo do governo do mundo” é o que tem causado as divisões e discriminações. “A presença feminina é a resposta do chamamento de Cristo para servir a Deus”, disse ela. No entanto, afirmou a bispa, há aqueles que “acham que Cristo não é suficientemente inteligente nas suas escolas as chamar mulheres para serem dirigentes da Igreja”.

Assim como a bispa Joaquina, a bispa Marisa destacou que o poder não é um fim em si mesmo, mas deve ser usado para servir.  O governo da Igreja só será bom se for exercido conjuntamente, por homens e mulheres, para o Reino de Deus. Assim, é preciso ter consciência para saber que a liderança não pode ser usada como meio de autoafirmação. O governo é apenas uma função; não é no cargo que está o valor da pessoa, disse a bispa, que reafirmou: “pastora eu sou, bispa eu estou”.

Ela também exortou a Igreja a usar seus dons a serviço do Reino: descer do “monte da transfiguração” para o enfrentamento da cruz. Segunda a bispa Marisa, é fácil a Igreja ser seduzida a ficar na espiritualidade e recusar a cruz, tal como fez Pedro que, por mais bem intencionado que estivesse, ao tentar tirar de Jesus o caminho da cruz não estava agindo conforme os propósitos de Deus. “A Igreja tem se guardado no monte, enquanto o mundo está perdido nas trevas”, disse ela. Assim, por exemplo, é muito fácil estimular as federações de mulheres a participarem de momentos cúlticos e de louvores, mas é muito difícil obter delas o apoio para o enfrentamento da violência doméstica, do tráfico de mulheres ou da luta contra as drogas. Contudo, a dimensão devocional não pode estar desconectada da dimensão do serviço.

A fala da bispa Marisa, que demonstrou empatia com as dores e as dificuldades do ministério pastoral feminino no Brasil e emocionou o auditório, foi tão marcante que, ao final do manhã, uma das participantes pediu que a gravação de sua palestra pudesse ser compartilhada com o Colégio Episcopal da Igreja. Durante a tarde, no Encontro de Pastoras Metodistas, essa proposta voltou a ser considerada. As pastoras reunidas no encontro também criaram a “Rede de Pastoras Metodistas para troca de experiências, articulação de projetos e estímulo à caminhada ministerial.

Tarde de quinta-feira, 24/05

No Encontro das Pastoras Metodistas, no dia 24 de maio, ocorreu um Painel com a Bispa Marisa de Freitas (Brasil) e com a Bispa Joaquinha Nhanala (Moçambique e África do Sul), e também foi ouvida a palavra de uma pastora representante de cada Região Eclesiástica e Missionária a respeito de como está o ministério pastoral feminino nas Regiões após 40 anos de ordenação (foto abaixo).

Além da palavra das Bispas e das Pastoras, as presentes no Encontro criaram a Rede de Pastoras Metodistas, em u ma data significativa para o metodismo que é o dia 24/05, Dia do Coração Aquecido. A Rede tem como objetivo:

Ø Articular ações ente as pastoras metodistas;
Ø Estreitar a comunicação entre as pastoras metodistas;
Ø Promover encontros de pastoras metodistas;
Ø Incentivar, fortalecer e visibilizar o trabalho desenvolvido pelas pastoras em nível Regional e por meio da Rede em nível Nacional.

Assim, a Rede é composta por uma ou duas pastoras de cada Região Eclesiástica e Missionária. Dentre as que estavam no Encontro, as indicadas foram:

1ª Região
Renilda Martins Garcia
Marli de Almeida Tomaz

2ª Região
Vera Lúcia Machado Prates da Silva
Mara Aparecida de Freitas

3ª Região
Gladys Barbosa Gama
Fabiana de Oliveira Ferreira

4ª Região
Elizabete Altino
Terezinha de Lisieux Batista Souza

5ª Região
Ivarda Pereira dos Santos, Márcia Célia Pereira

REMNE
Mara Ferreira de Araújo

A REDE está aguardando as confirmações dos nomes das representantes da 6ª RE e da REMA. E assim prosseguem as pastoras metodistas, nos caminhos da missão!"

Informou: Prof. Margarida Ribeiro

Para mais informações sobre a 61ª Semana Wesleyana acesse o site: http://www.eventosfateo.com.br

 

Na noite de quinta-feira, Márcia Quintino, especialista em gestão de políticas públicas e Márcia Paixão, professor da Faculdades EST, falaram sobre ministérios leigos.

Márcia Paixão, diácona da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, IECLB (ela explicou que “diáconos” e “diáconas” são os termos usados para definir os/as ministros/as ordenados/as para o ministério diaconal, enquanto o termo “diaconisas” refere-se a uma irmandade feminina da IECLB), começou sua palestra rejeitando a palavra “leiga” para se referir à mulher não ordenada que atua na Igreja. Afinal, a palavra costuma ser usada como uma antítese do especialista ou daquele que tem conhecimento... “As mulheres da Igreja não são leigas, elas trazem sua experiência de vida e trabalho. Prefiro chamar de liderança comunitária”.

Márcia Paixão lembrou ao auditório que todos/as somos frutos de construções culturais que reservam apenas o espaço doméstico à mulher, enquanto ao homem é dado o espaço público. Essas construções se refletem na vida da Igreja. O trabalho das mulheres é invariavelmente visto como uma extensão do trabalho doméstico. Assim, cabe às mulheres trabalhos como a cozinha nos acampamentos, a decoração do púlpito, o cuidado das crianças... Trabalhos importantes, mas que não recebem reconhecimento. “É necessário superar o estigma negativo do conceito de serviar. Diaconar é tarefa da Igreja. É a ação de toda pessoa que crê diante de situações de injustiça. Nesse aspecto, o cotidiano é prato cheio para a ação da Igreja no mundo”, disse ela.

Contudo, nem sempre a Igreja acolhe aqueles que desejam servir. Que o diga Márcia Quintino, que deu um emocionado depoimento sobre sua atuação de 55 anos de ministério na Igreja Metodista. Ela lembrou que, na década de 1970, ao estudar uma revista de Escola Dominical sobre os profetas, viveu uma “nova conversão”, despertada para as questões sociais e de justiça. Começou, então, a atuar em diversos trabalhos sociais, como a Creche Bem-Te-Vi e a então nascente Comunidade Metodista do Povo de Rua. Sua intensa atuação no campo social a levou a atuar na Sede Regional e, depois, na Sede Nacional da Igreja Metodista. E foi na Sede Nacional em que, pela primeira vez, se sentiu tolhida. O Colégio Episcopal a dispensou de suas funções, com a justificativa de que a Sede Nacional não poderia contratar parentes (o marido de Márcia também era funcionário da Sede Nacional da Igreja Metodista, embora em diferente setor e função). Uma simples avaliação da atuação social da Igreja nos últimos anos revela que não foi apenas a voz de Márcia que foi calada, mas a toda área social carece de atenção. “Entendi que o meu ministério não poderia se restringir a esse universo”, disse Márcia que, desde então, tem exercido o trabalho social em instituições seculares.

 

Quarta-feira, 23 de maio de 2012

As leigas metodistas dominaram a manhã da quarta-feira, 23 de maio. Na 61ª Semana Wesleyana, esse foi o dia de lembrar o importante ministério leigo na Igreja Metodista, por intermédio de duas mulheres fundamentais para a história do movimento metodista mundial e brasileiro: Susanna Wesley e Otília Chaves. Sobre Susanna falou o professor José Carlos Ramos.  A inglesa Susanna Wesley (1669-1742) costuma ser lembrada apenas com “a mãe de John Wesley”. Um olhar mais atento sobre a sua história e, especialmente sobre os seus escritos (sim, Susanna escrevia muito, e numa época em que a maioria das mulheres nem sabia ler!) revela uma mulher com pensamentos teológicos próprios e coragem para defendê-los.  É bom lembrar que Susanna viveu numa época em que a mulher estava confinada ao espaço doméstico, sob a dominação masculina, plenamente justificada pelos principais teólogos puritanos. Apenas para exemplificar em que situação viviam as mulheres da época, o professor José Carlos destacou que um juiz chamado Buller escreveu no ano de 1782 que era “perfeitamente legal” o homem bater em sua mulher, “desde que usasse um pedaço de pau da espessura de um polegar”...

Nesse mundo de homens, Susanna Wesley – mãe de 19 filhos, dos quais 10 sobreviveram, sendo 7 mulheres e 3 homens – fazia questão de alfabetizar suas filhas. Não ensinava nenhuma tarefa ocupacional às filhas até que soubessem ler e escrever “suficientemente bem”. Escreveu diários devocionais e realizou cultos domésticos que chegaram a atrair 200 pessoas em sua casa, em um período em que seu marido, pastor Samuel Wesley, fazia uma viagem. Naturalmente, seus cultos domésticos suscitaram reações contrárias, pois não se permitia ao leigo pregar, que dirá uma mulher! Questionada por carta pelo próprio marido, Susanna respondeu que ela deixaria de fazer os cultos se o seu marido assim o determinasse. Mas, então, seria ele que teria que responder ao Senhor, no dia do Juízo Final, pela decisão de deixar de levar a Palavra de Deus ao povo.  Eis o que escreveu Susanna: "Se achas adequado dissolver esta assembléia, não me digas que desejas que eu o faça, pois isto não satisfará a minha consciência; mas envia-me a tua ordem explícita, tem termos tão claros e expressos que me absolvam de toda culpa e punição por negligenciar esta oportunidade de fazer o bem, quando tu e eu aparecermos diante do grande e respeitável tribunal do Nosso Senhor Jesus Cristo".

A história não registra uma resposta do pastor Samuel...  Mas, certamente, o exemplo de liderança espiritual desta mulher leiga teve grande influência na origem e consolidação do movimento metodista iniciado por John Wesley.

 

As anônimas e a que deu o seu nome a um centro de estudos da Universidade...

A professora Margarida Ribeiro falou da história de Otília Chaves.  Mulher leiga que, como muitas outras mulheres leigas ao longo da história do metodismo, foram responsáveis pela vitalidade do metodismo, Otília Chaves só não ficou anônima, como tantas outras: seu nome hoje batiza o Centro de Estudos da FaTeo que se dedica a refletir sobre a presença das mulheres na Igreja e na sociedade.  Em sua palestra a professora Margarida ressaltou o papel das “visitadoras”, mulheres que, no século 19, iam de casa em casa para ler e comentar a Bíblia aos muitos irmãos e irmãs que não eram alfabetizados (mais de 60% da população brasileira).  Elas tiveram um papel fundamental na propagação do Evangelho.  Como nos primórdios do metodismo na Inglaterra, a pregação leiga brasileira fez história na eclesiologia metodista. Nesse cenário, Otília Chaves destacou-se por ter conquistado o ensino superior (estudou Farmácia), sendo a única mulher da turma de formandos de 1915.  Teve um papel preponderante no processo de autonomia da Igreja Metodista, que se concretizou em setembro de 1930 e foi extremamente atuante na Federação das então chamadas “Sociedades de Senhoras”. Em 1952 foi eleita presidente da Federação Mundial de Senhoras Metodistas e, até hoje, é a única mulher brasileira na história da instituição.

Para mais informações sobre a vida e obra de Susanna Wesley e Otília Chaves, acesse http://www.eventosfateo.com.br

 

Se a noite de terça-feira foi dedicada a uma análise do espaço da mulher na Igreja Pentecostal, a noite de quarta teve uma importante análise da atuação feminina nas igrejas históricas, contando com a presença das pastoras Shirley Maria dos Santos Proença, da Igreja Presbiteriana Independente e pastora Neusa Tetzner, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

As pastoras Suely e Neusa, ambas mestras em Ciências da Religião pela Universidade Metodista, fizeram um panorama histórico do ministério feminino em suas respectivas igrejas. A pastora Shirley falou da árdua caminhada das mulheres nos espaços de liderança da Igreja, de 1903 (data da formação da IPI) até 1999, quando houve a instituição do ministério ordenado na Igreja com apenas um voto além dos dois terços obrigatórios para a aprovação da proposta. Hoje, a Igreja Presbiteriana Independente tem 450 presbíteras. Neusa Tetzner lembrou que a Igreja Luterana está, neste momento, celebrando os 30 anos de ministério feminino ordenado;  o ministério pastoral feminino foi aceito em 1982.  Hoje a IECLB tem cerca de 150 pastoras entre 530 pastores. “Mas a ordenação não significa que tenhamos acesso a todos os espaços”, alertou a pastora. Assim como a pastora Suely, a pastora Neusa destacou que as mulheres precisam valorizar o espaço de atuação feminino na Igreja. “As mulheres precisam se sentir desafiadas a participar mais das instâncias de decisão da Igreja”, avaliou.

 

Terça-feira, 22 de maio de 2012:

A pastora Suely Xavier, doutora em Ciências da Religião e especialista em Antigo Testamento, falou na manhã de terça sobre A Mulher e a Bíblia. Ela disse que poderia ficar horas apenas citando nomes de mulheres relevantes na Bíblia – Eva, Tamar, Rute, Débora, Raab, Eunice, Áfia... – sem contar aquelas que não tiveram seu nome citado; mulheres anônimas que també deram sua vida pela missão. Lembrou, ainda, que o texto de 1 Coríntios 14.34 que inspira o tema da Semana Wesleyana (“conservem-se as mulheres caladas nas igrejas...”) parece se contradizer com o texto de 1 Coríntios 11.5, que dá orientações às mulheres que oram e profetizam na Igreja.  O que significa essa contradição? Segundo a pastora Suely,  há mais perguntas do que respostas a algumas indagações. Se, por um lado, houve leituras fora de contexto (fazendo com a necessidade particular de organização da Igreja em Corinto fosse tomada como regra geral) há também quem afirme que houve uma adição posterior de textos machistas aos escritos originais do apóstolo Paulo.  Seja como for, a maioria dos especialistas concorda que nos tempos do cristianismo nascente, a mulher era tratada em igualdade de condições. “A igualdade paulina foi negada pela desigualdade pós-paulina”, afirmou a pastora. “O silenciamento das mulheres ocorre a partir das instituições: primeiramente, a monarquia israelita e, depois, a instituição da Igreja”.

 

A educadora Débora Junker, também doutora em Ciências da Religião e professora  do Christian Theological Seminary em Indianápolis, Estados Unidos,  iniciou sua palestra ressaltando o marco histórico que representa a 61ª Semana Wesleyana:  “Que eu me lembre é a primeira vez que se trata da mulher na Semana Wesleyana”, disse a professora.  Ela destacou que um patriarcalismo exacerbado ainda predomina em muitas instituições seculares e eclesiásticas e a educação tem sido usada para perpetuar as visões estereotipadas dos papéis que se atribuem aos homens e às mulheres.  Assim, persiste a subordinação feminina e até a violência doméstica, inclusive nas famílias da Igreja. Da mesma maneira, não se pode negar a existência de preconceito contra o ministério feminino  na Igreja Metodista, afirmou Débora.  “E não apenas contra o ministério ordenado mas, também, em relação ao papel das leigas”.

 

A PALAVRA DAS BISPAS NO ENCONTRO DE PASTORAS METODISTAS

O período da tarde foi um momento de especial confraternização para as pastoras metodistas participantes da 61ª Semana Wesleyana.  Com a exceção da Sexta Região Eclesiástica, que enviou uma delegação masculina,  houve pastoras metodistas de todas as regiões do país, além das convidadas do Uruguai e de Moçambique. Foi um momento de troca de experiências e vivências.

Muito aplaudida, a bispa Joaquina Nhanala, de Moçambique, falou sobre o ministério pastoral feminino em seu país, o qual ela considera como uma resposta da mulher africana ao “Ide” de Jesus. Lembrou das dificuldades socioeconômicas de seu país, destacando a situação de pobreza e exclusão que afeta a população moçambicana de modo geral, mas é particularmente cruel em relação às mulheres: “69% dos infectados pelo vírus HIV vivem no continente africano e, desses, 59% são mulheres. E uma em cada 13 mulheres morre durante a gravidez ou  o parto”, exemplificou.

 

A bispa Joaquina afirmou que as mulheres são responsáveis  pela maior parte dos recursos pessoais e materiais que sustentam a Igreja; ainda assim,  ainda são excluídas de funções tidas como “masculinas”.  E, no dia a dia, ainda há hostilidade contra pastoras, afirmou. “Poucas clérigas têm nível de Doutorado. Poucas são nomeadas para igrejas grandes. E até a autoridade da bispa é questionada, às vezes pelas próprias mulheres”, disse.  Segundo a bispa Joaquina, o caminho para a igualdade passa pela organização das mulheres. “Temos que nos organizar melhor, não podemos ficar isoladas. E a organização das clérigas deve estar de mãos dadas com os ministérios das leigas”.

A bispa Marisa de Freitas Ferreira, da Região Missionária do Nordeste, REMNE, identificou na experiência brasileira algumas situações muito parecidas às descritas pela colega moçambicana.  No Brasil, como em Moçambique, apesar da expressiva maioria de membresia feminina, ainda existe apenas uma mulher ocupando a função episcopal.  Ela destacou que os mesmos conselhos dados pelo apóstolo Paulo ao jovem Timóteo, que sofria o preconceito por ser jovem demais, aplicam-se às mulheres que sofrem preconceito no exercício do ministério pastoral: “alimentar-se com a palavra da fé e da boa doutrina, rejeitar as fábulas e as caduquices e se exercitar na piedade”.  A bispa lembrou que o ministério pastoral feminino foi conquistado com muita luta e as mulheres correm o risco de perder o que já foi conquistado se não se fortalecerem na Palavra, exercendo sua voz profética.  “A libertação da mulher é condição sine qua non para  libertação do homem, assim como a libertação do homem é condição sine qua non para a libertação da mulher”. A luta, disse ela, é pelo fim de todo tipo de discriminação, seja ela de gênero, etnia ou classe social. “Deus nos chama a trazer a libertação de tudo o que nos oprime”.

Dica da bispa Marisa para se aprofundar na questão. Os livros “Caminhos da Sabedoria”, de Elisabeth  Schusler Fiorenza;  “Ministérios Femininos em Perspectiva Histórica”, de Duncan Reily; “A mobilidade da senzala feminina”, de Ivone Gebara.

 

Pastoras pentecostais: o desafio de alçar a voz

A noite de terça foi dedicada a discutir “As Igrejas Pentecostais e o Ministério Pastoral Feminino” .  A professora Claudirene Aparecida de Paula Bandini, doutora em sociologia  pela Universidade Federal de São Carlos falou sobre a sua pesquisa intitulada “Costurando certo por linhas tortas: um estudo de práticas femininas no interior de igrejas pentecostais”. Pesquisando pastoras e mulheres de pastores nas Igrejas Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular e Igreja Universal do Reino de Deus ela observou que ainda existe normas eclesiais e posturas pessoais que impedem o empoderamento feminino e a realização de projetos pessoais. “Enquanto algumas lideranças lutam contra a ideologia da incapacidade feminina de se autogovernarem, outras reproduzem a estrutura patriarcal”, disse a pesquisadora. Vale ressaltar que na Igreja do Evangelho Quadrangular, que se apresenta como única denominação pentecostal fundada por uma mulher (Aimee McPherson)  há avanços significativos: hoje, a Quadrangular tem 42% do pastorado feminino.

Já o pastor Marcos José Martins, ex-aluno de Teologia da FaTeo e mestre em Ciências da Religião, também pela Metodista, falou de sua pesquisa com mulheres pertencentes à Igreja Assembleia de Deus em um bairro da periferia de Diadema. Ele observou que, apesar das igrejas contarem com cerca de 80% da membresia feminina, a estrutura de poder remonta à monarquia e ao nepotismo, com as funções de pastor da Igreja sendo transmitidas de pai para filho (nunca para filha).  As entrevistas revelaram, no entanto, estratégias de atuação que “driblam” a estrutura patriarcal de poder. É nos espaços informais da cantina ou nas reuniões de oração (freqüentadas majoritariamente por mulheres) que elas falam de suas angústias e sonhos. A voz da mulher é emitida, mas ainda está oculta.

 

Segunda-feira, 21 de maio de 2012:

A Semana Wesleyana de 2012 começou com uma acolhida aos/às palestrantes e participantes.  Prof.  José Carlos de Souza, do Centro de Estudos Wesleyanos, fez um agradecimento especial aos bispos que representaram a Igreja Metodista na abertura do evento: bispo Luiz Vergílio, da Segunda Região Eclesiástica e bispo Stanley Moraes, secretário do Colégio Episcopal. Representando a Universidade Metodista de São Paulo, ele registrou a presença do Prof. Marcio de Moraes. Presentes também o bispo Silvio Cevallos Parra, da Igreja Evangélica Metodista Unida no Equador; a Revda Maria Inés Simeone, da Igreja Metodista do Uruguai, Prof. Dra. Débora Junker, dos EUA;  Lia Hack, vice-presidente do Conselho Diretor da FaTeo; pastora Amélia Tavares, redatora da Voz Missionária, além de pastores/as e visitantes leigos/as de várias partes do país.

 

Sensibilidade masculina? Força feminina? Adjetivos sem distinção de sexo.

Significativamente,  neste evento que celebra os 40 anos de ministério ordenado feminino na Igreja Metodista, o culto de abertura ficou a cargo da Reverenda Eunice Roberto de Araújo Oliveira, primeira presbítera ordenada na Quinta Região Eclesiástica. A Revda Eunice  baseou sua prédica no texto de  Lucas 10.38-42. Marta e Maria, disse ela, não devem ser vistas como personagens antagônicas, mas complementares. “Se faz necessário juntar Marta e Maria para que a obra seja completa. Fé e ação”, disse a pastora.   Esse mesmo sentido de unidade deve estar presente quando se pensa nas questões de gênero. Segundo a Revda Eunice, o fato de que as primeiras testemunhas oculares da ressurreição de Jesus tenham sido mulheres é o prenúncio de que Deus não faz distinção de sexo na divulgação de Palavra. E atributos como coragem, ousadia ou sensibilidade não são masculinos ou femininos, disse a pastora, mas humanos.

 

Paulo machista? Cuidado com a tradução!

Após o culto de abertura, a primeira palestra da noite foi proferida pelo Prof. Dr. Paulo Garcia, reitor da FaTeo e presidente da ASTE, Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos. Especialista em Novo Testamento, o prof. Paulo foi direto aos textos do apóstolo homônimo para afirmar que  “a tradição paulina tem uma perspectiva positiva sobre a participação das mulheres”. Segundo o professor, de uma experiência includente nos tempos do apóstolo, o cristianismo chegou a uma leitura mais “androgênica” e machista em momentos posteriores, quando a Igreja se organizou como instituição.

Essa transformação pode ser vista sob duas óticas distintas. Sob o ponto de vista histórico-literário é possível concluir que a mulher vai desaparecendo dos papéis  de liderança que assumia no Cristianismo Primitivo. E, a partir de uma leitura da ideologia presente na leitura do texto, também se pode observar o “desaparecimento” da mulher no trabalho de tradução.  “Em alguns casos o androcentrismo não está presente no texto, ma é imposto pela tradução e interpretação”, afirmou o professor. Assim, por exemplo, no texto de Romanos 16.1-2, que recomenda Febe à Igreja de Cencreia (Febe é uma das várias mulheres que assumiam posições de liderança nas comunidades descritas por Paulo, a exemplo de Evódia e Síntique, Lídia, Priscila, Junia etc) a palavra diakonon ganhou o sentido do servir, como verbo:  “Febe, que está servindo à igreja...”  Ocorre que diakonon é um substantivo, geralmente usado com o significado de ministro.  “Paulo está recomendando uma diaconisa e pedindo que a Igreja a receba e a sustente. Era comum que as igrejas provessem o sustento necessário para o trabalho de pregadores itinerantes”, explica o professor.

 

Mulheres continuam falando, mas ainda precisam ser ouvidas

A Revda María Inés Simeone, pastora da Igreja Metodista Central de Montevidéu, Uruguai e doutora em Ciências da Religião pela FaTeo, lembrou que a resistência feminina ao silenciamento nunca deixou de existir.  Citando mulheres  importantes para a História da Igreja, a pastora María Inés afirmou que a  constante proibição da participação feminina ao longo da história revela que as mulheres não têm deixado de se pronunciar.  “Nós, mulheres, não estivemos caladas nesses anos todos de história da Igreja, mas não fomos escutadas. Falamos, resistimos e sofremos as conseqüências”.  Que o digam as mulheres queimadas como bruxas, por ousarem pensar de forma autônoma...  A pastora afirmou que a discriminação contra a mulher ainda é presente, mesmo no metodismo, embora as mulheres – clérigas e leigas – tenham sido fundamentais para a implantação do movimento metodista, na Inglaterra e depois na América, por intermédio das missionárias. Mas cultiva a esperança de um mundo em que as diferenças sejam superadas, compartilhando do pensamento do escritor inglês Daniel Defoe que, em pleno século XVIII, ousou afirmar que “um dia os homens serão suficientemente inteligentes para reparar a situação de desigualdade”.

Texto: Suzel Tunes

Fotos: Luciana de Santana

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: