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As palestras da Semana Wesleyana: acompanhe aqui

22/05/2012 16h35 - última modificação 24/05/2012 19h48

Caladas na Igreja? Mulheres e Igrejas nos dias de hoje.

Apontamentos sobre a Semana Wesleyana 2012

61ª edição

 

Para assistir os vídeos da Semana Wesleyana, acesse:

http://www.eventosfateo.com.br/

Quarta-feira, 23 de maio de 2012

As leigas metodistas dominaram a manhã da quarta-feira, 23 de maio. Na 61ª Semana Wesleyana, esse foi o dia de lembrar o importante ministério leigo na Igreja Metodista, por intermédio de duas mulheres fundamentais para a história do movimento metodista mundial e brasileiro: Susanna Wesley e Otília Chaves. Sobre Susanna falou o professor José Carlos Ramos.  A inglesa Susanna Wesley (1669-1742) costuma ser lembrada apenas com “a mãe de John Wesley”. Um olhar mais atento sobre a sua história e, especialmente sobre os seus escritos (sim, Susanna escrevia muito, e numa época em que a maioria das mulheres nem sabia ler!) revela uma mulher com pensamentos teológicos próprios e coragem para defendê-los.  É bom lembrar que Susanna viveu numa época em que a mulher estava confinada ao espaço doméstico, sob a dominação masculina, plenamente justificada pelos principais teólogos puritanos. Apenas para exemplificar em que situação viviam as mulheres da época, o professor José Carlos destacou que um juiz chamado Buller escreveu no ano de 1782 que era “perfeitamente legal” o homem bater em sua mulher, “desde que usasse um pedaço de pau da espessura de um polegar”...

Nesse mundo de homens, Susanna Wesley – mãe de 19 filhos, dos quais 10 sobreviveram, sendo 7 mulheres e 3 homens – fazia questão de alfabetizar suas filhas. Não ensinava nenhuma tarefa ocupacional às filhas até que soubessem ler e escrever “suficientemente bem”. Escreveu diários devocionais e realizou cultos domésticos que chegaram a atrair 200 pessoas em sua casa, em um período em que seu marido, pastor Samuel Wesley, fazia uma viagem. Naturalmente, seus cultos domésticos suscitaram reações contrárias, pois não se permitia ao leigo pregar, que dirá uma mulher! Questionada por carta pelo próprio marido, Susanna respondeu que ela deixaria de fazer os cultos se o seu marido assim o determinasse. Mas, então, seria ele que teria que responder ao Senhor, no dia do Juízo Final, pela decisão de deixar de levar a Palavra de Deus ao povo.  Eis o que escreveu Susanna: "Se achas adequado dissolver esta assembléia, não me digas que desejas que eu o faça, pois isto não satisfará a minha consciência; mas envia-me a tua ordem explícita, tem termos tão claros e expressos que me absolvam de toda culpa e punição por negligenciar esta oportunidade de fazer o bem, quando tu e eu aparecermos diante do grande e respeitável tribunal do Nosso Senhor Jesus Cristo".

A história não registra uma resposta do pastor Samuel...  Mas, certamente, o exemplo de liderança espiritual desta mulher leiga teve grande influência na origem e consolidação do movimento metodista iniciado por John Wesley.

As anônimas e a que deu o seu nome a um centro de estudos da Universidade...

A professora Margarida Ribeiro falou da história de Otília Chaves.  Mulher leiga que, como muitas outras mulheres leigas ao longo da história do metodismo, foram responsáveis pela vitalidade do metodismo, Otília Chaves só não ficou anônima, como tantas outras: seu nome hoje batiza o Centro de Estudos da FaTeo que se dedica a refletir sobre a presença das mulheres na Igreja e na sociedade.  Em sua palestra a professora Margarida ressaltou o papel das “visitadoras”, mulheres que, no século 19, iam de casa em casa para ler e comentar a Bíblia aos muitos irmãos e irmãs que não eram alfabetizados (mais de 60% da população brasileira).  Elas tiveram um papel fundamental na propagação do Evangelho.  Como nos primórdios do metodismo na Inglaterra, a pregação leiga brasileira fez história na eclesiologia metodista. Nesse cenário, Otília Chaves destacou-se por ter conquistado o ensino superior (estudou Farmácia), sendo a única mulher da turma de formandos de 1915.  Teve um papel preponderante no processo de autonomia da Igreja Metodista, que se concretizou em setembro de 1930 e foi extremamente atuante na Federação das então chamadas “Sociedades de Senhoras”. Em 1952 foi eleita presidente da Federação Mundial de Senhoras Metodistas e, até hoje, é a única mulher brasileira na história da instituição.

Para mais informações sobre a vida e obra de Susanna Wesley e Otília Chaves, acesse http://www.eventosfateo.com.br

Terça-feira, 22 de maio de 2012:

 

A pastora Suely Xavier, doutora em Ciências da Religião e especialista em Antigo Testamento, falou na manhã de terça sobre A Mulher e a Bíblia. Ela disse que poderia ficar horas apenas citando nomes de mulheres relevantes na Bíblia – Eva, Tamar, Rute, Débora, Raab, Eunice, Áfia... – sem contar aquelas que não tiveram seu nome citado; mulheres anônimas que també deram sua vida pela missão. Lembrou, ainda, que o texto de 1 Coríntios 14.34 que inspira o tema da Semana Wesleyana (“conservem-se as mulheres caladas nas igrejas...”) parece se contradizer com o texto de 1 Coríntios 11.5, que dá orientações às mulheres que oram e profetizam na Igreja.  O que significa essa contradição? Segundo a pastora Suely,  há mais perguntas do que respostas a algumas indagações. Se, por um lado, houve leituras fora de contexto (fazendo com a necessidade particular de organização da Igreja em Corinto fosse tomada como regra geral) há também quem afirme que houve uma adição posterior de textos machistas aos escritos originais do apóstolo Paulo.  Seja como for, a maioria dos especialistas concorda que nos tempos do cristianismo nascente, a mulher era tratada em igualdade de condições. “A igualdade paulina foi negada pela desigualdade pós-paulina”, afirmou a pastora. “O silenciamento das mulheres ocorre a partir das instituições: primeiramente, a monarquia israelita e, depois, a instituição da Igreja”.

 

A educadora Débora Junker, também doutora em Ciências da Religião e professora  do Christian Theological Seminary em Indianápolis, Estados Unidos,  iniciou sua palestra ressaltando o marco histórico que representa a 61ª Semana Wesleyana:  “Que eu me lembre é a primeira vez que se trata da mulher na Semana Wesleyana”, disse a professora.  Ela destacou que um patriarcalismo exacerbado ainda predomina em muitas instituições seculares e eclesiásticas e a educação tem sido usada para perpetuar as visões estereotipadas dos papéis que se atribuem aos homens e às mulheres.  Assim, persiste a subordinação feminina e até a violência doméstica, inclusive nas famílias da Igreja. Da mesma maneira, não se pode negar a existência de preconceito contra o ministério feminino  na Igreja Metodista, afirmou Débora.  “E não apenas contra o ministério ordenado mas, também, em relação ao papel das leigas”.

 

A PALAVRA DAS BISPAS NO ENCONTRO DE PASTORAS METODISTAS

O período da tarde foi um momento de especial confraternização para as pastoras metodistas participantes da 61ª Semana Wesleyana.  Com a exceção da Sexta Região Eclesiástica, que enviou uma delegação masculina,  houve pastoras metodistas de todas as regiões do país, além das convidadas do Uruguai e de Moçambique. Foi um momento de troca de experiências e vivências.

Muito aplaudida, a bispa Joaquina Nhanala, de Moçambique, falou sobre o ministério pastoral feminino em seu país, o qual ela considera como uma resposta da mulher africana ao “Ide” de Jesus. Lembrou das dificuldades socioeconômicas de seu país, destacando a situação de pobreza e exclusão que afeta a população moçambicana de modo geral, mas é particularmente cruel em relação às mulheres: “69% dos infectados pelo vírus HIV vivem no continente africano e, desses, 59% são mulheres. E uma em cada 13 mulheres morre durante a gravidez ou  o parto”, exemplificou.

 

A bispa Joaquina afirmou que as mulheres são responsáveis  pela maior parte dos recursos pessoais e materiais que sustentam a Igreja; ainda assim,  ainda são excluídas de funções tidas como “masculinas”.  E, no dia a dia, ainda há hostilidade contra pastoras, afirmou. “Poucas clérigas têm nível de Doutorado. Poucas são nomeadas para igrejas grandes. E até a autoridade da bispa é questionada, às vezes pelas próprias mulheres”, disse.  Segundo a bispa Joaquina, o caminho para a igualdade passa pela organização das mulheres. “Temos que nos organizar melhor, não podemos ficar isoladas. E a organização das clérigas deve estar de mãos dadas com os ministérios das leigas”.

A bispa Marisa de Freitas Ferreira, da Região Missionária do Nordeste, REMNE, identificou na experiência brasileira algumas situações muito parecidas às descritas pela colega moçambicana.  No Brasil, como em Moçambique, apesar da expressiva maioria de membresia feminina, ainda existe apenas uma mulher ocupando a função episcopal.  Ela destacou que os mesmos conselhos dados pelo apóstolo Paulo ao jovem Timóteo, que sofria o preconceito por ser jovem demais, aplicam-se às mulheres que sofrem preconceito no exercício do ministério pastoral: “alimentar-se com a palavra da fé e da boa doutrina, rejeitar as fábulas e as caduquices e se exercitar na piedade”.  A bispa lembrou que o ministério pastoral feminino foi conquistado com muita luta e as mulheres correm o risco de perder o que já foi conquistado se não se fortalecerem na Palavra, exercendo sua voz profética.  “A libertação da mulher é condição sine qua non para  libertação do homem, assim como a libertação do homem é condição sine qua non para a libertação da mulher”. A luta, disse ela, é pelo fim de todo tipo de discriminação, seja ela de gênero, etnia ou classe social. “Deus nos chama a trazer a libertação de tudo o que nos oprime”.

Dica da bispa Marisa para se aprofundar na questão. Os livros “Caminhos da Sabedoria”, de Elisabeth  Schusler Fiorenza;  “Ministérios Femininos em Perspectiva Histórica”, de Duncan Reily; “A mobilidade da senzala feminina”, de Ivone Gebara.

 

Pastoras pentecostais: o desafio de alçar a voz

A noite de terça foi dedicada a discutir “As Igrejas Pentecostais e o Ministério Pastoral Feminino” .  A professora Claudirene Aparecida de Paula Bandini, doutora em sociologia  pela Universidade Federal de São Carlos falou sobre a sua pesquisa intitulada “Costurando certo por linhas tortas: um estudo de práticas femininas no interior de igrejas pentecostais”. Pesquisando pastoras e mulheres de pastores nas Igrejas Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular e Igreja Universal do Reino de Deus ela observou que ainda existe normas eclesiais e posturas pessoais que impedem o empoderamento feminino e a realização de projetos pessoais. “Enquanto algumas lideranças lutam contra a ideologia da incapacidade feminina de se autogovernarem, outras reproduzem a estrutura patriarcal”, disse a pesquisadora. Vale ressaltar que na Igreja do Evangelho Quadrangular, que se apresenta como única denominação pentecostal fundada por uma mulher (Aimee McPherson)  há avanços significativos: hoje, a Quadrangular tem 42% do pastorado feminino.

Já o pastor Marcos José Martins, ex-aluno de Teologia da FaTeo e mestre em Ciências da Religião, também pela Metodista, falou de sua pesquisa com mulheres pertencentes à Igreja Assembleia de Deus em um bairro da periferia de Diadema. Ele observou que, apesar das igrejas contarem com cerca de 80% da membresia feminina, a estrutura de poder remonta à monarquia e ao nepotismo, com as funções de pastor da Igreja sendo transmitidas de pai para filho (nunca para filha).  As entrevistas revelaram, no entanto, estratégias de atuação que “driblam” a estrutura patriarcal de poder. É nos espaços informais da cantina ou nas reuniões de oração (freqüentadas majoritariamente por mulheres) que elas falam de suas angústias e sonhos. A voz da mulher é emitida, mas ainda está oculta.

 

Segunda-feira, 21 de maio de 2012:


A Semana Wesleyana de 2012 começou com uma acolhida aos/às palestrantes e participantes.  Prof.  José Carlos de Souza, do Centro de Estudos Wesleyanos, fez um agradecimento especial aos bispos que representaram a Igreja Metodista na abertura do evento: bispo Luiz Vergílio, da Segunda Região Eclesiástica e bispo Stanley Moraes, secretário do Colégio Episcopal. Representando a Universidade Metodista de São Paulo, ele registrou a presença do Prof. Marcio de Moraes. Presentes também o bispo Silvio Cevallos Parra, da Igreja Evangélica Metodista Unida no Equador; a Revda Maria Inés Simeone, da Igreja Metodista do Uruguai, Prof. Dra. Débora Junker, dos EUA;  Lia Hack, vice-presidente do Conselho Diretor da FaTeo; pastora Amélia Tavares, redatora da Voz Missionária, além de pastores/as e visitantes leigos/as de várias partes do país.

 

Sensibilidade masculina? Força feminina? Adjetivos sem distinção de sexo.

Significativamente,  neste evento que celebra os 40 anos de ministério ordenado feminino na Igreja Metodista, o culto de abertura ficou a cargo da Reverenda Eunice Roberto de Araújo Oliveira, primeira presbítera ordenada na Quinta Região Eclesiástica. A Revda Eunice  baseou sua prédica no texto de  Lucas 10.38-42. Marta e Maria, disse ela, não devem ser vistas como personagens antagônicas, mas complementares. “Se faz necessário juntar Marta e Maria para que a obra seja completa. Fé e ação”, disse a pastora.   Esse mesmo sentido de unidade deve estar presente quando se pensa nas questões de gênero. Segundo a Revda Eunice, o fato de que as primeiras testemunhas oculares da ressurreição de Jesus tenham sido mulheres é o prenúncio de que Deus não faz distinção de sexo na divulgação de Palavra. E atributos como coragem, ousadia ou sensibilidade não são masculinos ou femininos, disse a pastora, mas humanos.

 

Paulo machista? Cuidado com a tradução!

Após o culto de abertura, a primeira palestra da noite foi proferida pelo Prof. Dr. Paulo Garcia, reitor da FaTeo e presidente da ASTE, Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos. Especialista em Novo Testamento, o prof. Paulo foi direto aos textos do apóstolo homônimo para afirmar que  “a tradição paulina tem uma perspectiva positiva sobre a participação das mulheres”. Segundo o professor, de uma experiência includente nos tempos do apóstolo, o cristianismo chegou a uma leitura mais “androgênica” e machista em momentos posteriores, quando a Igreja se organizou como instituição.

Essa transformação pode ser vista sob duas óticas distintas. Sob o ponto de vista histórico-literário é possível concluir que a mulher vai desaparecendo dos papéis  de liderança que assumia no Cristianismo Primitivo. E, a partir de uma leitura da ideologia presente na leitura do texto, também se pode observar o “desaparecimento” da mulher no trabalho de tradução.  “Em alguns casos o androcentrismo não está presente no texto, ma é imposto pela tradução e interpretação”, afirmou o professor. Assim, por exemplo, no texto de Romanos 16.1-2, que recomenda Febe à Igreja de Cencreia (Febe é uma das várias mulheres que assumiam posições de liderança nas comunidades descritas por Paulo, a exemplo de Evódia e Síntique, Lídia, Priscila, Junia etc) a palavra diakonon ganhou o sentido do servir, como verbo:  “Febe, que está servindo à igreja...”  Ocorre que diakonon é um substantivo, geralmente usado com o significado de ministro.  “Paulo está recomendando uma diaconisa e pedindo que a Igreja a receba e a sustente. Era comum que as igrejas provessem o sustento necessário para o trabalho de pregadores itinerantes”, explica o professor.

 

Mulheres continuam falando, mas ainda precisam ser ouvidas

A Revda María Inés Simeone, pastora da Igreja Metodista Central de Montevidéu, Uruguai e doutora em Ciências da Religião pela FaTeo, lembrou que a resistência feminina ao silenciamento nunca deixou de existir.  Citando mulheres  importantes para a História da Igreja, a pastora María Inés afirmou que a  constante proibição da participação feminina ao longo da história revela que as mulheres não têm deixado de se pronunciar.  “Nós, mulheres, não estivemos caladas nesses anos todos de história da Igreja, mas não fomos escutadas. Falamos, resistimos e sofremos as conseqüências”.  Que o digam as mulheres queimadas como bruxas, por ousarem pensar de forma autônoma...  A pastora afirmou que a discriminação contra a mulher ainda é presente, mesmo no metodismo, embora as mulheres – clérigas e leigas – tenham sido fundamentais para a implantação do movimento metodista, na Inglaterra e depois na América, por intermédio das missionárias. Mas cultiva a esperança de um mundo em que as diferenças sejam superadas, compartilhando do pensamento do escritor inglês Daniel Defoe que, em pleno século XVIII, ousou afirmar que “um dia os homens serão suficientemente inteligentes para reparar a situação de desigualdade”.

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