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Artigo: Para uma música brasileira protestante

14/01/2011 16h13

Por que cantamos e ouvimos tão pouco o Brasil dentro de nossas igrejas? Para não nutrir falsas expectativas, preciso logo dizer que não encontro uma resposta fácil para tal questão. Aliás, alguém teria?

Há toda uma complexidade histórica que nos indicam várias pistas. Observem-se as diferenças no processo da catequese e na implantação do protestantismo aqui no Brasil, que aconteceu cerca de três séculos depois. Há também particularidades de nossa cultura. Seria “chover no molhado” dizer que o Brasil é um país de proporções continentais, mas é um país riquíssimo em termos de diversidade cultural. Exemplificando, ouvi certo dia de um ator português que esteve em três Estados diferentes do Brasil que o que nos une é mesmo a língua. E isto só agrava a questão: com tamanha riqueza e diversidade cultural, por que não ouvimos música brasileira nas igrejas?

Antes de tudo, gostaria de apontar uma diferença. “Música brasileira” seria aquela composta por elementos de uma cultura brasileira. Assim, a chula, o samba, a bossa-nova (deixando de lado as controvérsias acerca de suas origens e influências), o maracatu, etc. seriam ritmos brasileiros e “música em português brasileiro” é o que se canta em português brasileiro (como, por exemplo, todas as versões de músicas estrangeiras que temos).

Longe de apelar para a xenofobia, pergunto-me o que distancia o Brasil de ouvir o Brasil. Como observaram, é uma pergunta ampla, pois não se trata de algo que acontece somente nas igrejas. Como ouvi de um pastor reformado certa vez, a cultura de um lugar influencia nos costumes e na liturgia que se pratica nas igrejas. Assim foi com as igrejas da Ásia no período das viagens missionárias de Paulo, com Bach no século dezoito e assim é nos dias de hoje. Estamos, como menciona uma canção, aprisionados no espaço/tempo da terceira dimensão. Temos endereço: um lugar, um tempo, um contexto.

Neste contexto, é comum ao povo tupiniquim dar valor ao que vem “de fora” e preferir o “produto importado” ao nacional. Contudo, somem-se a isto outras observações. Dois pontos a identificar: primeiro, a associação do popular ao que é de má qualidade, de baixo valor, ao que vem das classes menos favorecidas (e toda aquela história de “luta simbólica” bourdieusiana); e outro, mais delicado, diz respeito a toda uma rede de significados culturais e religiosos que se associam com a audição/ execução de certos ritmos brasileiros.

No primeiro caso, pode mesmo haver uma série de associações que sejam despertadas com uma música proveniente das camadas mais populares com algo de baixa qualidade, insuficiente, portanto, para se utilizar nas igrejas, dado o esmero e dedicação que (supostamente) se deve respeitar para a execução de uma música utilizada no culto. Tais associações acabam por gerar certo preconceito em relação aos diversos estilos de origem popular, como aconteceu com o samba, o maxixe, o choro. Na história da música (ousaria dizer que não só no Brasil), o que costuma acontecer é a redenção de tais estilos promovida por nomes de grande reconhecimento, geralmente com formação clássica (assim, Villa-Lobos “absolveu” o choro, Guerra Peixe “absolveu” o baião e o coco, e por aí vai).

Já no segundo caso, como foi dito, é um pouco mais delicado, pois revela uma série de associações de determinados estilos com crenças religiosas e valores que podem ser convergentes ou não com os valores cristãos. Um exemplo: o que vem à sua mente quando você se depara com a figura de um presépio ou uma árvore de Natal (com neve ou não)? Se você responder “Páscoa”, “campo” ou qualquer outra coisa que não seja exatamente “Natal”, você nunca teve contato com a cultura ocidental ou então vem de outro planeta. Por outro lado, se a figura for de uma xícara com uma leve fumaça saindo dela, para um brasileiro pode ser café, para um inglês, pode ser chá.

A questão é que também com a música ocorrem tais associações. E, nesta dinâmica, muitos estilos musicais brasileiros foram condenados à inutilidade pela Igreja. Alguns deles passaram por julgamentos, mas outros nem tiveram essa chance. Você pode se perguntar: “mas por que, então, o roque foi absolvido?”. O roque veio de outra realidade e, por isso, seu grau de distanciamento com sua rede de significados na cultura em que surgiu é, para nós, brasileiros muito distante. Enfraquecidos, nesse jogo de forças, os significados que condenavam o roque foram re-elaborados, ou mesmo substituídos. Em alguns casos, isso é possível; em outros, concordo que não, dada a força cultural e espiritual que rege determinados estilos musicais.

De qualquer modo, o caso é que pouco se reflete sobre essa brasilidade quando o assunto é música brasileira na Igreja Protestante, relegando à inutilidade um rico acervo cultural de nosso país.

Por: Nivea Lazaro Nivea Lazaro, mestre em Ciência da Arte pela UFF com pesquisa nas áreas de Etnomusicologia, Música e Antropologia.

 

Fonte: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=373

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