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Artigo do Bispo Paulo Ayres, professor da FaTeo, discute a "Lei da Palmada" e a ação do Estado

23/01/2012 11h55 - última modificação 23/01/2012 11h55

E por falar em "Lei da Palmada"...
Paulo Ayres Mattos*

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. [João 1.14]

Aproveitando a ocasião da aprovação da chamada "Lei da Palmada" por uma Comissão do Congresso Nacional, que certamente despertará ainda grandes discussões até sua aprovação definitiva, peço licença para fazer alguns comentários que considero pertinentes provocações no contexto em que tal lei está sendo discutida no Congresso e fora dele.

Na reação de certos comentaristas evangélicos a tal projeto de Lei, o seu principal argumento, o bíblico, fica profundamente comprometido porque o povo evangélico no Brasil ao longo de quase cento e quarenta anos de presença em nosso país não foi capaz de promover sob o poder do Espírito Santo uma profunda e verdadeira transformação cultural no Brasil, inspirada nos ensinos de Jesus Cristo.

Antes, ao optar em suas primeiras décadas no Brasil por um projeto que, no dizer de Richard Niebuhr, colocou Cristo contra a cultura, não teve condições de criar um projeto pelo qual o Evangelho pudesse transformar a cultura brasileira, particularmente no que diz respeito ao patriarcalismo escravagista violento reinante na Casa Grande e na Senzala, para usar os termos de grande Gilberto Freire, que acabou por predominar em todos os outros segmentos da vida social e privada dos brasileiros e brasileiras de qualquer classe social.

Pelo contrário, a sub-cultura evangélica trazida pelos missionários e missionárias que nos evangelizaram não foi capaz de contribuir para a humanização do violento processo de industrialização e urbanização do povo brasileiro, e não pode impedir que nas últimas três décadas os evangélicos viessem a capitular diante do avanço da posmodernidade desvairada e do capitalismo selvagem que domina e determina até mesmo os usos e costumes de nossa aldeia "Global". Basta ver a barafunda destas últimas semanas, incompreensível para muitos evangélicos, criada pela decisão "Global" de abocanhar de vez o lucrativo mercado da música gospel evangélica, inclusive levando de embrulhada alguns líderes evangélicos. Como povo evangélico brasileiro, à semelhança da Igreja Católica no final do século quinze, vivemos dias de um terrível e cruel cativeiro babilônico, de aberrantes e extravagantes crendices. Por isso, penso eu, as pedras estão clamando.

Jesus ao discutir com os fariseus sobre a questão de repudiar ou não a esposa dando carta de divórcio, afirmou: "Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher [isto é, permitiu dar-se carta de divórcio]; entretanto, não foi assim desde o princípio." (Mateus 19.8//Marcos 10.5). Nos meus quase cinquenta anos de pastorado metodista [recebi das mãos do Bispo Isaías Sucasas minha primeira nomeação em 1963 para a Igreja Metodista de Mogi das Cruzes, SP], tive de enfrentar não poucas vezes situações de violência familiar dentro de nossas igrejas, até mesmo de outras denominações, contra mulheres e crianças, causadas por homens, inclusive pastores líderes em suas (e, lamentavelmente, nossas) igrejas, que na Igreja eram considerados exemplos de santidade, mas em casa verdadeiros demônios. Na maioria das vezes tal violência é abafada e, pior, negada.

Como não conseguimos coibir a violência doméstica nem mesmo dentro de nossos próprios arraiais, ficamos sem autoridade espiritual e moral para enfrentar a "indevida" intervenção do Estado, tão repudiada por tantos irmãos, pois nosso estardalhaço não tem maiores repercursões, a não ser no toma lá dá cá entre os políticos evangélicos e certas alas dos governantes de plantão ["uma rádio aqui pro bispo Fulano; uma televisão ali pro Apóstolo Beltrano"]. E não adianta brandir a Bíblia porque, mais alto do que o texto bíblico, fala, no dizer do apóstolo Paulo, a carta aberta que somos cada um de nós que confessamos Jesus Cristo como Senhor e Salvador [ 2 Coríntios 3. 2-6]. Estamos na mesma situação do povo de Israel diante da lei de Moisés que permitiu o divórcio - pela dureza de nossos corações - pois ao não deixarmos que o Evangelho nos transforme radicalmente, a lei da palmada passa ser régua e compasso para quem é violento ou violenta em suas relações familiares.

Na linha de Gênesis 9. 1-7, o Estado está se vendo na obrigação de cumprir o mandato divino de coibir a violência pelo uso da violência, usando da única violência permitida num Estado democrático laico, a do próprio Estado de Direito. Assim, como não estamos vivendo mais na Cristandade, que historicamente se foi embora com a Revolução Americana de 1776, com o estabelecimento da separação entre a Igreja e o Estado, posteriormente adotada por outros Estados, inclusive o brasileiro, nosso choro é livre, mas sem maiores consequências. Apesar de todo o crescimento numérico das igrejas evangélicas brasileiras, devido a falta de nosso testemunho radical do Evangelho em nosso país, também somos responsáveis pela sobrevivência e dominação de uma cultura de morte e violência que permeia toda nossa sociedade, pois, infelizmente, tal cultura de violência também caracteriza hoje grande parte das relações eclesiais e eclesiásticas das igrejas evangélicas,
com seus coronéis, jagunços e cangaceiros de Bíblia na mão.

Ao invés de sermos parte da solução do problema, nos tornamos parte do próprio problema. No dizer do falecido Prof. David Seamands, do Asbury Theological Seminary, nossa evangelização não consegue passar de nossa epiderme espiritual, e, lá no fundo, como brasileiros, continuamos violentos tais como os Borba Gato, os Getúlio Vargas, os DOI-CODI, os matadores da irmã Dorothy, os políticos e empresários corruptos e corruptores, e os esquadrões da morte da policia e do narcotráfico que dominam e infernizam nossas cidades, pois por debaixo do  cordial homem brasileiro está o violento homem brasileiro. E, desde que, como povo evangélico, não temos feito plenamente o nosso dever de casa, assim, como a lei Maria da Penha, a chamada "Lei da Palmada" veio existir por causa da dureza de nossos corações, dos brasileiros em geral, e dos brasileiros evangélicos em particular. As pedras estão clamando.

A não ser que, como carta aberta, conhecida e lida por todos os homens, sejamos ministros da justiça de Deus, o nosso esbravejar bíblico contra a ação do Estado Laico, parafraseando o apóstolo Paulo, não será nada mais do que "o bronze que soa ou como o címbalo que retine", pois "a letra mata, mas o Espírito vivifica". Diante dos enormes e prementes desafios que como cristãos brasileiros enfrentamos em nossos dias, invocar e brandir a letra da Bíblia não nos vai adiantar coisa alguma se não estivermos profundamente vivificados (transformados) pelo Espírito Santo de tal maneira que nosso testemunho como discípulos e discípulas de Jesus nos caminhos da missão nos façam relevantes para o Brasil e para cada um dos brasileiros e brasileiras, trazendo uma real e verdadeira transformação (isto é, salvação e santidade) pessoal e comunitária nas vidas das pessoas e de nossas comunidades.

Os exemplos de John e Charles Wesley, Phoebe Palmer e Charles Finney deixaram claro que a verdadeira renovação da Igreja trazida pelos avivamentos tem de produzir mais do que mudanças na vida das pessoas, indo mais longe ao promover transformações  profundas na sociedade - num verdadeiro e autêntico ato profético! Se não for assim, os avivamentos logo deixam de ser significantes e passam a ser somente modismo inconsequente cujo fogo a si mesmo se consome. Somente quando testemunhamos em palavra e ação a santidade da vida e a vida de santidade pode haver transformação real tanto na vida das pessoas e como na das comunidades (e isto inclui necessáriamente o banimento da violência doméstica, particularmente contra as crianças, no meio das famílias e igrejas evangélicas, mas, também, das famílias brasileiras em geral). Assim, o metodismo  brasileiro em nossos dias poderá cumprir o propósito para o qual, segundo John Wesley, Deus levantou o povo chamado metodistas: "Para reformar a nação, de maneira particular a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra."
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*Paulo Ayres Mattos: Bispo Emérito da Igreja Metodista; Professor da Área de Teologia e História da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista/Universidade Metodista de São Paulo; Coordenador do Centro de Memória Metodista da Fateo/UMESP; Professor da Classe de Escola Dominical “Fraternidade” da Igreja Metodista em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, SP.


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