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Agência de Notícias Latino Americana e Caribenha destaca tese de doutorado da professora Margarida Ribeiro

20/03/2009 19h12

A presença da “turma do tricô” nas igrejas protestantes

Embora sempre estivessem presentes em atividades missionárias e de evangelização na Igreja Metodista brasileira, as mulheres foram silenciadas e ocultadas, assim como em outras igrejas protestantes do país, afirmou a pastora e professora Margarida Ribeiro, que abriu o ano letivo da Faculdade de Teologia (FaTeo) metodista, de Rudge Ramos, São Paulo.

ALC sexta-feira, 6 de março de 2009

Ottília Chaves, leiga que exerceu um importante papel na construção da Igreja Metodista no Brasil, reportava-se à “turma do tricô”, referindo-se às mulheres que ficavam sentadas nas últimas cadeiras nos espaços conciliares, fora dos limites do plenário, assistindo a decisões tomadas pelos homens, leigos e pastores.

“Hoje, sabemos que essas mulheres eram ativas na igreja e na sociedade”, frisou Margarida, que defendeu tese de doutorado focada em “Rastros e rostos de mulheres no Protestantismo brasileiro”, tema da aula magna. Professora da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Margarida coordena o programa de extensão da FaTeo.

A pesquisadora rastreou o protestantismo brasileiro em busca de fragmentos e vestígios da atuação das mulheres nas tarefas educacionais, evangelizadoras e sociais das igrejas. Ottília Chaves não ficou no anonimato, pois escreveu “O itinerário de uma vida”, livro que reúne fatos e estórias do trabalho que ela ajudou a desenvolver.

No recorte que a pesquisadora fixou para a sua análise das mulheres no metodismo no Brasil, de 1930 a 1970/71, ela descobriu que essas mulheres foram atuantes na alfabetização, na luta contra o alcoolismo, no combate de doenças, nas escolas dominicais, em orfanatos e na venda e distribuição de Bíblias e literatura evangelística (colportoras).

Bem informada e relacionada com fontes internacionais, Ottília ficou sabendo que dos cinco representantes metodistas dos Estados Unidos enviados ao Concílio que decidiu pela autonomia da Igreja Metodista do Brasil, em 1930, uma era mulher. Ela tratou de argumentar que das três regiões brasileira – Norte, Centro e Sul – que estariam representadas no Concílio, pelo menos estivesse presente uma mulher por região.

Assim, dos 15 delegados brasileiros, três eram mulheres no Concílio de 1930. No X Concílio Geral da Igreja Metodista brasileira, em 1970/71, que aprovou o ingresso de mulheres no ministério pastoral, dos 84 conciliares apenas seis eram mulheres. Se no Concílio de 30 a proporção era de uma mulher para três delegados homens, 40 anos depois essa proporção passou de uma para 14.

No período estudado, as mulheres apareciam nos documento conciliares apenas nos anexos, nos relatórios de programas sociais, educacionais, diaconias, mas jamais nas atas, constatou a professora Margarida na sua pesquisa. Mesmo sendo Ottília Chaves a única brasileira eleita para a presidência da Federação Mundial de Mulheres Metodistas, nos anos 1951-1956.

Ao “desvelar” rostos novos de mulheres metodistas anônimas entre 1930 e 1970, Margarida deparou-se com costureiras, lavadeiras, mascateiras que tiveram importante papel nas congregações. Uma dessas mulheres, em especial, chamou a atenção: a catadora de papel conhecida apenas por tia Mariana, negra de Juiz de Fora, nos anos 40 a 50 do século passado.

Mariana destinava uma parte do que angariava na coleta de papel à igreja. Mas impunha uma condição: que esse dinheiro não ficasse para a igreja local, mas fosse encaminhado ao orfanato Ana Gonzaga, do Rio de Janeiro. “Cruzando os dados, descobri na contabilidade do orfanato remessas de dinheiro vindas de Juiz de Fora, da parte da tia Mariana”, contou Margarida em entrevista à ALC.

Mesmo não exercendo o poder eclesiástico, mulheres metodistas tiveram uma importante inserção na sociedade local, na vivência do cotidiano e no exercício da cidadania, buscando melhores condições de vida e dignidade. Ao responderem as demandas da comunidade de fé, “elas transcenderam fronteiras e conquistaram novos espaços e formas de vivenciar o poder”, concluiu a pesquisadora.

As estórias dessas mulheres, muitas delas anônimas, levam a professora Margarida a vislumbrar a possibilidade de “tricotar um novo tempo”.

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