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A Quaresma e a tristeza divina: artigo do teólogo Rubem Alves e uma reflexão sobre a dor de Nova Friburgo

10/03/2011 14h30 - última modificação 11/03/2011 11h42

"Porque a tristeza de Deus produz mudança... mas a tristeza do mundo produz morte." II Co 7:10

 

As quaresmeiras aí estão. Flores de fevereiro e março, anunciando que nem só de cores brancas e verdes vive a alma humana, mas também de lilases e roxas. Nem só de alegrias, mas também de tristezas. A propósito, não é tarefa das mais fáceis empreender um "dedo de prosa", mínimo que seja, sobre o tema da tristeza. Houve tempos em que a tristeza era prima irmã da poesia, da música, da vida. Pode-se dizer, com o testemunho de um bom número de músicas que ainda hoje cantamos, que a tristeza sempre foi a matéria prima do fazer poético. Quem nunca cantou: "Tristeza, por favor vai embora, minha alma que chora, está vendo o seu fim....". Ou ainda: "Cantando eu mando a tristeza embora..." Mais: "Triste madrugada foi aquela em que perdi meu violão..."

 

Essas músicas testemunham um tempo em que a experiência da alegria e da beleza só eram possíveis a partir do reconhecimento de uma certa tristeza nas pautas musicais da existência. Os tempos hoje são outros. Num projeto de vida em que as pessoas são tidas como máquinas, qualquer sombra de melancolia, de tristeza, de dor, deve ser abolida. Por uma simples razão: máquina não sente dor! Aos saudosos e melancólicos do presente, resta-lhes apenas o afogar-se nos remédios. É assim que lidamos com nossas tristezas: afogando-nos nos compridos.

 

O trecho da tradição bíblica que está em epígrafe acima faz referência à tristeza segundo Deus. Dorothee Sölle assim o interpretou: A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. Mas, o que distingue a tristeza divina das tristezas do mundo? pergunta o apóstolo dos gentios. Tristeza do mundo é tristeza que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É tristeza que paralisa no remorso, na lástima, no mórbido ruminar as faltas passadas, na lamúria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda. É tristeza que não conhece a esperança, o futuro, por estar afogada no passado. É Tristeza que mata, que corrói, que faz adoecer. Como exemplo, atente-se às tristezas próprias do mundo da aparência: a anorexia, a bulimia, sofrimento de um corpo que morre para parecer belo. Ou a tristeza do consumo: esse mal-estar diabólico que leva do nada a lugar nenhum. A tristeza da guerra, da destruição que faz morrer a palavra e perpetua o ódio.

 

A tristeza segundo Deus, porém, produz mudança, movimento, superação, transformação, produz vida. É tristeza que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação. Sem a participação na tristeza divina, o domingo da ressurreição não passa de oba-oba. Que as quaresmeiras e os ipês roxos, também próprios do tempo quaresmal, nos convidem a participar da tristeza segundo Deus, aquela que verdadeiramente nos conduz à mudança, ao arrependimento, à transformação.

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 Extraído do site do CEBI, Centro de Estudos Bíblicos

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Quando a quaresma começa antes ...

 

Ricardo Lengruber Lobosco, professor da FaTeo

 

O Carnaval é uma festa conhecida de longa data. Desde a Antiguidade, há vasta documentação da realização de festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca incessante dos prazeres. O Carnaval prolongava-se por sete dias na ruas, praças e casas da Antiga Roma. Há notícias, entretanto, que o Carnaval, nos moldes que o conhecemos, nasceu no século XI, quando a Igreja organizou seu calendário litúrgico de modo a celebrar uma semana “santa” (em memória dos últimos dias da vida de Jesus). Tal semana seria preparada por um período simbólico de quarenta dias de jejum e oração (a Quaresma), que, naturalmente, incentivou uma série de festejos populares anteriores a essa jornada de privações que possibilitavam o deleite dos mais variados prazeres. Daí “canis valles” – prazeres da carne. O carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador dessa festa carnavalesca para o mundo.

A data do Carnaval é móvel porque todos os feriados eclesiásticos são calculados em função da data da Páscoa, com exceção do Natal. Como o domingo de Páscoa ocorre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que se verifica a partir do equinócio do outono (no hemisfério sul), e a sexta-feira da Paixão é a que antecede o Domingo de Páscoa, então a terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa.

Ainda que de modo velado, o Carnaval de hoje guarda a ideia germinal da festa de outrora. Dias de extravagância e alegria em meio a uma série de compromissos e exigências que parecem escravizar e inibir a felicidade das pessoas. Se para um indivíduo religioso, o Carnaval simbolizava o ingresso numa sequência de semanas de jejum preparatório para a Paixão ritual, para o homem moderno significa uma espécie de “parênteses” na rotina que oprime e insensibiliza.

Em Nova Friburgo, o Carnaval de 2011 foi bem diferente, aparentemente. Pelas ruas, não se via nenhum movimento próprio dos dias de folia. Além da chuva mansa e constante, as ruas testemunharam uma cidade parada e calada. Não houve desfiles, danças, brincadeiras e algazarras. A cidade parece ter feito seu jejum quaresmal antes do tempo.

A mim pareceu que a cidade encontrou um tempo para “respirar” depois de tanta dor e tanto desalento. As chuvas de 11 de janeiro, que fizeram desmoronar e alagar mundos inteiros, forçaram um processo de luta e trabalho que fez com que muitos se vissem sem forças e sem esperança, inclusive. Gente que perdeu tudo (inclusive e sobretudo gente amada).

Olhando por este ângulo, o Carnaval, mais uma vez, cumpriu seu desígnio originário. Foi um tempo de faz-de-conta em meio ao ordinário dia-a-dia de luta e sofrimento. Em geral, é tempo de folia e brincadeira; mas, para quem vive tão intensamente dor e trabalho, o Carnaval foi um tempo de descanso e reflexão. Um faz-de-conta antes de voltar a rotina cansativa de quem tem tanto por fazer e tão pouco por esperar.

O silêncio dos dias de folia foi uma espécie de sacramento da dor. Lembro-me do apóstolo São Paulo que, sabiamente, escreveu: “Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2 Coríntios 7,10).

Sacramentos são sinais visíveis de algo maior e mais abrangente, que opera de modo invisível. A dor é assim mesmo. Invisível, porém, real como poucas coisas são.

Valho-me do raciocínio do Rubem Alves (poeta de tantas dores) para ajudar a clarear o que significa o paradoxo de Paulo. A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. A tristeza do mundo é aquela que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É tristeza que paralisa no remorso, na lástima, no mórbido ruminar as faltas passadas, na lamuria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda. É tristeza que não conhece a esperança, o futuro, por estar afogada no passado. É Tristeza que mata, que corrói, que faz adoecer. A tristeza segundo Deus, todavia, produz mudança, movimento, superação, transformação; produz vida. É tristeza que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza da dor de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação. Sem a participação na tristeza divina, o domingo da ressurreição não passa de oba-oba.

Nova Friburgo “patina” entre a dor segundo o mundo e a dor segundo Deus.

- Cabe-nos, filhos da serra, escolher (se é que isso nos é possível) escolher o rumo da dor de cada dia que nos acompanhará por longos dias! Não vale alimentar ilusões como se fossem guerra de confete e serpentina. Há que se olhar, realmente, para a realidade! Do contrário, daqui a seis ou sete semanas, nossa Páscoa não passará de uma ilusória festa de coelhinhos e oba-oba.

 

 

 

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