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A publicidade está contra as mulheres na Zâmbia

03/03/2011 17h50

Análise de Valentine Chanda

Lusaka, março de 2011(IPS/SNS) Cinco anos depois que Ellen Johnson-Sirleaf foi eleita presidente da Liberia (foto à direita), parece que há uma campanha sistemática para convencer as mulheres africanas de que seu lugar é a cozinha. E os anunciantes de detergentes e outros produtos de limpeza são os principais culpados.


Um aviso que se difunde na televisão pública e privada de Zâmbia mostra um homem arrastando sua esposa até o chefe da aldeia e queixando-se de que ela não sabe lavar a roupa. “Esta mulher não sabe como se lava. E você entende o que significa isso para um homem como eu nesta aldeia”, diz o homem. “O quê?” – pergunta o chefe. “Quero o divórcio”, responde o homem.

“Em nossa tradição, não há como uma mulher não saber lavar. Jovenzinha, você está destruindo o seu próprio lar”, diz o chefe, repreendendo a moça. Então, a esposa do chefe intercede em nome da jovem e lhe apresenta um novo detergente que solucionará todos os seus problemas. Assim, o casal vive feliz até o fim de seus dias.

Outro anúncio começa em um tom diferente, mostrando um homem que lava a roupa. A primeira vez que o vi pensei: “Finalmente, isso marca um equilíbrio”. Falando em língua bemba, o protagonista diz: “O que me surpreende é que nós, homens, saibamos tanto sobre detergentes. Agora não há por que se casar”. Além de degradar o lugar que ocupam as mulheres na sociedade zambiana, esta publicidade está notoriamente afastada da vida real.

“O mundo avançou. Meus irmãos lavam a roupa em cada”, disse Jesinta Kunda. “Os dois anúncios dão a impressão de que só as mulheres é que fazem isso”. Ela crê que a primeira propaganda é de mal gosto. “O anúncio deveria ser retirado. Reforça a opressão e o abuso das mulheres. Não apenas é ofensivo às mulheres, mas também aos homens. As pessoas não se casam porque querem que alguém lhes lave a roupa”, opinou.

Porém, como consumidoras do que oferecem os meios de comunicação, as mulheres têm que obrigá-los a se modernizarem.“As mulheres não deveriam esperar que os meios mudem sem que elas assumam um papel ativo nessa mudança. Já se disse que a liberdade não é algo que o opressor dá, mas algo que o oprimido lhe arranca. Eu lavo a roupa em minha casa, mas anúncios como esses fazem com que pessoas progressistas como eu pensem duas vezes”, disse Noel Mwale, agregando que ele quer que suas duas filhas cresçam em um país onde não estejam limitadas por seu sexo.

Um estudo realizado em 2010 pela organização não governamental africana Gender Links sobre gênero e meios de comunicação concluiu que, apesar de ter conquistado grandes avanços rompendo limites políticos na África Austral, as mulheres ainda são retratadas com estereótipos pelos meios de comunicação. Os homens dominam todas as categorias informativas, e as vozes femininas se ouvem mais em artigos relacionados com a igualdade de gênero, as crianças e os meios de comunicação e o entretenimento, assinalou o estudo. Pior: a pesquisa, que analisou mais de 30.000 peças noticiosas na região, encontrou centenas de estereótipos flagrantes e histórias degradantes similares às dos anúncios da Zâmbia.

Os dirigentes políticos, dos meios de comunicação e da sociedade civil necessitam mostrar sua capacidade de liderança. E a gente comum, como Kunda e Mwale, também têm que atuar, apresentando queixas aos canais de televisão que põem ao ar estas mensagens e aos periódicos e outros meios que produzem artigos sexistas ou cegos ante a desigualdade de gênero.

Enquanto políticos e consumidores dos meios não virem o dano que causam estes anúncios, Zâmbia corre o risco de manter tradições que constituem um obstáculo ao desenvolvimento. Este país não pode se desenvolver se as mulheres, que representam pouco mais da metade da população, forem tratadas como cidadãs de segunda classe e servas dos homens.

Após ser eleita, Johnson-Sileaf disse a um jornalista da cadeia britânica BBC que sua vitória era o testemunho de todo o esforço investido em criar igualdade de gênero na África e no mundo. Porém esse esforço ainda é incipiente, e os grandes passos podem se reverter facilmente se o público não se mantiver vigilante e garantir que quem ocupar postos de poder, desde corporações aos meios de comunicação e governo, cumpra suas promessas e continue lutando pela igualdade de gênero.

Fonte: IPS Notícias http://www.ipsnoticias.net/nota.asp?idnews=97650

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