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A parábola das virgens: em busca de consciência e essência

14/11/2017 19h50 - última modificação 17/11/2017 20h34

Mateus 25. 1- 13

(Sermão alusivo ao mês da consciência negra)

 

A celebração de hoje marca o início do mês da consciência negra, data que celebramos desde 2003, trazendo a memória a luta pela liberdade, a liderança de Zumbi e de Dandara em Palmares, e de tantas outras pessoas negras escravizadas que se uniram contra a injustiça e a opressão, frutos da nossa sociedade escravagista. Certamente, muitos de vocês já ouviram ou já fizeram a clássica pergunta: “Pra quê um dia ou mês da consciência negra, se somos todos iguais? ” – Sempre que ouço esse tipo de pergunta, tenho a certeza de que estou diante de alguém que ignora a história e as desigualdades presentes em nosso país. Gente que ainda acredita na “alma branca” ou “mais alva que a neve” como mérito para participar do reino dos céus, ignorando a criatividade divina que nos fez como somos – a sua imagem e semelhança.

 

 Essa data é fruto de luta do movimento negro, que há tempos busca justiça e reparação para um povo que foi escravizado e que, até hoje, precisa encarar o racismo e classismo de nossa sociedade.

 

A data, bem como o texto que lemos hoje, apresenta sinais escatológicos: um desejo de alcançar algo novo, uma utopia, ou projeto político, que olha pra vida e que busca justiça; que não se conforma com as situações em que hoje vivemos, mas que deseja celebrar a vida com dignidade e integridade; que deseja celebrar a vida com o seu canto, com a sua dança, com o seu jeito; sem sanções nem privações; a tal “vida abundante” que “Cristo veio nos trazer”.

 

É sobre isso que falamos quando pensamos em mês da consciência negra e é sobre isso que a parábola, com toda a sua escatologia, nos ensina. Vejamos  o contexto em que a mesma acontece:

 

Jesus, após ter expulsado os vendilhões do templo que havia se transformado em “covil de ladrões”, caminha com seus discípulos, certamente muito incomodado com o que viu até aqui e começa a explicar-lhes, por parábolas, o que é o Reino dos céus, uma oposição ao reino da terra. Então ele conta: a parábola da figueira (Mt 24.32-44); 2) a parábola do bom servo e do mau (Mt 24.45-51); 3) a parábola das dez virgens (Mt 25.1-13) e 4) a parábola dos talentos (Mt 25.14-30). Em todas essas ilustrações observa-se a necessidade de vigiar, ou estar vigilante e aguardar, com esperança, pelo início de algo novo, ou pela vivência plena no “Reino dos céus” - e é interessante dizer que o texto não indica o fim do mundo, ou a vida na eternidade como um “pós morte”, mas aponta para a chegada de algo (o reino), ou alguém (o Cristo) que trará renovo. Mudará todas as situações de opressão vividas pelo povo, inaugurando um novo tempo.

 

Mas, vamos olhar com um pouco mais de atenção a parábola das virgens...

 

“Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo” (Mt 25.1)

 

O texto nos indica algo importante: temos 10 virgens e todas saem ao encontro do noivo. Observem aí, um movimento, não é o noivo que sai para encontrar-se com as virgens, mas são elas que tomam suas lamparinas e que iniciam uma caminhada, vão para a rua, para encontrar alguém ou algo que transforme a sua realidade. Estamos diante de um ensinamento: se você tem um objetivo, movimente-se! Tome a iniciativa. Tal como as mulheres dessa parábola, somos convidadas a nos tornar protagonistas da nossa própria história.

 

Outro dado interessante: saíram em grupo de 10. Um número completo. Há uma ênfase coletiva. E o mais interessante: elas não eram iguais. O texto enfatiza propositalmente que umas eram sábias e outras eram tolas. Certamente havia outras características aí. Mas, estavam no mesmo grupo. Tinham o mesmo propósito e por isso: pegam suas lâmpadas ou tochas (há exegetas que defendem a ideia de que lâmpadas limitam-se aos espaços da casa e para as ruas, é necessário usar tochas) – o certo é que todas se preparam e seguem ao encontro do noivo.

 

Isso é provocativo: nos ensina que para no reino dos céus, é necessário que haja iniciativa, valorização da diversidade e coletividade. Me lembra um provérbio africano que diz: sozinhos vamos mais rápido, mas juntos: vamos mais longe. É assim que as virgens seguem em suas histórias e assim que os movimentos escatológicos, tal como o movimento negro, se organizam: numa esperança ativa e coletiva.

 

Mas, tal como na vida: vez por outra, o cansaço alcança a nossa marcha...

 

O texto diz que as mulheres seguiam em sua marcha, carregando suas lâmpadas e suas vasilhas, mas acontece que o noivo demorou e todas pegaram no sono. Fiquei imaginando a alegria com que essas mulheres caminhavam: se junta gente tem fala, se caminham pra festa, pode ser que havia canto, enfim... há expressões de vida, de desejo, de expectativa com o encontro. Mas, o noivo demora, provocando sonolência nessas mulheres que caminhavam.

 

Todas dormiram! Todas cansaram! Foi preciso que houvesse um grito de fora: “Eis o noivo! Saí para o encontro dele!” (Mt 25.6) – Foi preciso ouvir um grito. Um alerta. Quantas vezes, nós como igreja permanecemos dormindo? Quantos gritos a sociedade nos emite, numa tentativa de nos fazer acordar, mas nós, no nosso cansaço, ou as vezes, até mesmo no nosso comodismo permanecemos sonolentos? É certo que a gente, vez por outra esmorece, mas não dá para permanecer adormecido.  Eis que aí vem o noivo... eis que aí vem o reino de Deus! É preciso despertar para as mudanças.

 

Lutas coletivas, ou vivência coletivas, sãoexatamente assim: vez por outra, os caminhantes vão se cansando e o passo vai se tornando mais vagaroso. E há quem durma no caminho. Há quem perca a consciência e não consegue interagir ou responder pelo que está ao seu redor. É por isso evocamos a consciência negra: há necessidade de despertar, valorizar, reparar os erros e prosseguir com a nossa história. Isso é reino dos céus. Isso é justiça e isso é mudança.

 

E o texto, bem como a vida, segue nos lembrando que estar preparado para viver o reino dos céus, ou alcançar a parusia, significa:

 

Carregar a lâmpada, mas não se esquecer do azeite...

 

As mulheres da nossa parábola carregavam lâmpadas, ou tochas como já disse anteriormente. Provavelmente esse era parte do rito do casamento do qual elas participariam. Elas não se esqueceram desse elemento, que aliás é bem presente em outras narrativas bíblicas. A lâmpada, ou tocha, era fundamental nesse período da história: era o que ajudava a pessoa a encontrar e manter-se no caminho, bem como a encontrar alguém como é o caso desse texto. As virgens se preparam para seguir o caminho e encontrar o noivo.

 

Elas tinham o que era importante, mas lhes faltava o que era essencial: o azeite. Era ele que daria vida a chama de suas lamparinas, era o combustível que faria com que a lâmpada se mantivesse acessa. Mas, as tolas, segundo a indicação bíblica, se esqueceram de carregar esse elemento com elas. E isso é extremamente pertinente: indica que na nossa caminhada de fé, ainda que andemos de maneira coletiva é possível que algo se perca. Que a gente se esqueça da nossa essência ou que a gente nem saiba o que é que mantem nossas lamparinas acessas.

 

Sim: tem gente que passa a vida sem saber qual é a sua essência, o que alimenta a sua luta, o que nutre a sua esperança e o que te mantém consciente. E as virgens sábias, até poderiam partilhar o que tinham com as tolas, mas não seria a mesma coisa, e não seria o suficiente, porque cada um sabe o que é importante pra si. Cada um sabe o que mantém a sua lamparina acessa – aquilo que ilumina a sua vida. Por isso, essa parábola nos chama a atenção para esse fato: pessoas sábias não esquecem a sua essência.

 

Concluindo:

A parábola termina com as tolas a porta frustradas por não conhecerem o noivo e não adentrarem na festa. Uma radicalidade típica do livro de Mateus. Mas, o mais importante aqui nem é quem fica de fora, ou quem entra, mas é atentar-se para a necessidade de “vigiar” de “estar preparado” – e para que isso aconteça é necessário retomar tudo o que aprendemos aqui:

 

- Valorize a história e não despreze os/as protagonistas: a história, bem como o reino dos céus conta com uma participação ativa de todas as pessoas que se organizam e que caminham em busca de transformação. Pessoas de iniciativa. Pessoas que carregam suas lâmpadas para não se perder, para iluminar outras vidas e para encontrar e somar com outras pessoas, porque sabem que a vida é melhor quando estamos no coletivo.

 

- Lembre-se: você pode até cochilar, mas não perca a consciência – lá fora há uma sociedade gritando. Indicando urgências e atenções e a gente, bem sabe que essas urgências refletem as desigualdades e as mazelas de nossa sociedade. Identifiquem os gritos e tomem consciência de que é preciso despertar e fazer algo.

 

- e por fim: lembre-se que andar coletivamente não anula a necessidade de zelar pela sua essência e de identificar o que alimenta a sua fé a sua luta.

 

E eu termino voltando a nossa pergunta inicial: porque precisamos de um dia ou de um mês de consciência negra? Pra que a gente não se esqueça da negritude, protagonistas na história do povo brasileiro, pra que a gente saiba a importância de Zumbi, de Dandara e de  tantas outras pessoas negras, tanto quanto sabemos de Luther King e Mandela; pra que a gente desperte do nosso sono e da nossa inconsciência diante dos nossos pecados estruturais: que inclui o racismo e as desigualdades sociais e pra gente recupere a nossa essência: povo sábio, que sabe bem o que nos mantém em pé e o que alimenta a nossa fé a nossa esperança.

 

Qual é a sua consciência? Qual é a sua essência? Seja sábio: ouça os gritos... enxergue os valores do reino dos céus...

Que Deus nos abençoe!

 

 

 

Texto: Lídia Maria de Lima

 

 

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