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O filme Avatar como vivência religiosa e as implicações para a teologia prática

De Júlio César Adam*

Artigo publicado na revista Signos de Vida, número 56, julho de 2010 (publicação do Conselho Latinoamericano de Igrejas)

Nas férias de verão, assim como alguns milhões de pessoas no planeta, fui assistir o filme Avatar, do diretor James Cameron. Além da empolgante propaganda na TV, sabia muito pouco sobre o filme. Não imaginava, no entanto, a intensidade de “religião” que encontraria nas quase três horas de filme.

PARTE I:

Não só os avatares do filme deixavam seus corpos humanos para ingressarem no mundo dos na’vis. Todos nós, espectadores, éramos ligados a uma experiência, muito além do que um simples filme. Isto já seria um aspecto suficientemente religioso para se pensar. Ir ao cinema tem algo de ritual – a pipoca, as luzes que se apagam, o silêncio–, algo de simbólico – luz e movimento que nos conectam a histórias, mitos do lado de cá e da lá da tela –, algo de transcendente – vamos além de nós mesmos. Todos estes elementos são em si religiosos. Mas é no que se refere ao conteúdo, à história da Avatar, que aqui quero mais me deter. Começando pelo próprio título “Avatar”[1] termo proveniente do hinduismo, as diversas conexões estabelecidas entre seres imanentes e transcendentes, a Árvore das Almas, a divindade Eywa, localizada no lugar mais central e sagrado do mundo de Pandora.

Compreendo que é também tarefa da teologia e em especial da teologia prática buscar entender estes elementos “religiosos” presentes no filme e que, também ou justamente por isto, arrastaram milhões de pessoas de diferentes culturas e religiões. Estaria o cinema, através de filmes como Avatar, suprindo a sede religiosa do ser humano? Seria o cinema o grande culto dos habitantes da atualidade? O que tem a teologia cristã a ver com tudo isto? O que a teologia prática pode tirar desta “religião nas telas dos cinemas”?

Fenômeno da religião vivida

No limiar do século XXI vivemos um fenômeno religioso. Contra todas as pressuposições, vivemos um retorno e um incremento do religioso[2]. Ou seja, contrário às previsões de que o ser humano da era científica e tecnológica seria a-religioso, emancipado, vivemos um verdadeiro avivamento da religião, tanto da institucional, como da religiosidade que perpassa a cultura[3]. O retorno do religioso na contemporaneidade é um fenômeno complexo, multifacetado. Uma das suas características é a independência da religião de suas respectivas instituições. Vive-se uma transmigração de fronteiras confessionais. Outra característica é a manifestação do religioso na esfera dita “profana”, ou seja, fora da instituição religiosa, fora da igreja instituição, fora da própria esfera religiosa. Mais do que sincretismo, mais que transgressão de fronteiras, se diluem as próprias fronteiras entre sagrado e profano. É dentro desta característica, que esta análise do filme Avatar se enquadra.

Estamos vivenciando a religião que migrou para esfera da cultura popular e para o cotidiano da vida. Onde pois encontramos hoje pistas desta religião? Com certeza não apenas na Igreja. Podemos encontrá-la nas colunas de aconselhamento nas revistas e nas ilustrações dos personagens fictícios dos comic strips, nas páginas de horóscopo, e no vasto mercado dos livros esotéricos. Podemos encontrá-la nas artes plásticas com suas chocantes e questionáveis obras, apontando para nossa imperceptível transcendência cotidiana. Podemos encontrá-la na terapêutica com sua oferta de vivência individual e meditações sincréticas. Podemos encontrá-la em facções políticas, que exigem relações de inclusão social e asseguram identidades pessoais. Podemos encontrá-la no consumo, através das propagandas com promessas religiosas. Podemos encontrá-la na indústria do turismo, no culto em torno à alimentação e aos exercícios físicos, que faz do paraíso uma promessa[4].

Esta religião vivida no cotidiano está, pois, presente na literatura[5], nos heróis das histórias em quadrinhos[6], na moda e em tendências de comportamento[7], na música[8], na mídia[9] e no marketing[10] e, não por último, no cinema[11]. Tudo isto revela aspectos de uma sociedade na complexidade onde as idéias, expressões, necessidades, saberes, culturas se entrelaçam e precisam, para serem acessadas e entendidas, ser olhadas na inter-relação, na re-ligação.[12]

[1] Conforme o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, avatar é cada uma das encarnações de um deus, sobretudo de Vixnu; transformação, metamorfose.

[2] ALVES, Ruben. O enigma da religião. 4. ed. Campinas: Papirus, 1988. p. 59-82.

[3] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 205-230; RIBEIRO, Jorge Cláudio. Religiosidade jovem: pesquisa entre universitários. São Paulo: Loyola/Olho d’Água, 2009.p. 75-108.

[4] GRÄB, 1995, p. 47. (tradução do autor)

[5] MAGALHÃES, Antônio. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2000.

[6] . IRWIN, William (Coord.). Super-heróis e a filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático. São Paulo: Madras, 2005; REBLIN, Iuri Andréas. “Para o alto e avante!”: mito, religiosidade e necessidade de transcendência na construção dos super-heróis. Protestantismo em Revista, v. 04, n. 02, mai./ago. 2005. Disponível em: http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/07iuri.htm,Acesso em: 22 dez. 2008.

[7] LIPOVETSKY, Gilles, A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p. 131ss.; GALINDO, D., GUSSO, A. C. Quando o sagrado vira moda. In: MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007. p. 62-78.

[8] CALVANI, Carlos E. Momentos de beleza: teologia e MPB a partir de Tillich. In: Portal de Publicações Científicas, n. 8. Disponível em: http://www. metodista.br/ppc/correlatio/correlatio08/momentos-de-beleza-2013-teologiae- mpb-a-partir-de-tillich Acesso em 21 mar. 2010.

[9] MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007.

[10] BOLTZ, Norbert; BOSSHART, David. Kult marketing: die neuen Götter des Marktes, Düsseldorf: Econ, 1995. BECKS, Hartmut. Der Gottesdienst in der Erlebnisgesellschaft. Waltrop: Spenner, 1999.

[11] HERRMANN, Jörg. Sinnmaschine Kino: Sinndeutungen und Religion im populären Film. Gütersloh: Kaiser, 2000.; KIRSNER, Inge. Film, Fragment, Fraktal: eine kleine Kino-Apokalypse. In: STOLT, Peter; GRÜNBERG, Wolfgang; SUHR, Ulrike (Hrsg.). Kulte, Kulturen, Gottesdienste : öffentliche Inszenierung des Lebens. Göttingen : Vandenhoeck &Ruprecht, 1996. p,50-62.

[12] MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, 2006; MORIN, Edgar. A religação dos saberes: desafio do século XXI, 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2002.

PARTE II:

Religião na tela de cinema

O que teria o cinema de tão religioso assim? O cinema envolve a arte e o entretenimento, individualidades e convivência, realidade e fantasia, mito e vida particular, como talvez nenhuma outra manifestação da cultura popular o faz. Seu potencial de construção de sentido e vazão ao transcendente é tão imensa que vozes proféticas anunciam que a religião do futuro virá de Hollywood[1].

Como expressão da cultura, o cinema não teria como não ser religioso. Como diz Tillich: “A religião, considerada preocupação suprema, é a substância que dá sentido à cultura, e a cultura, por sua vez, é a totalidade das formas que expressam as preocupações básicas dareligião. Em resumo: religião é a substância da cultura e a cultura á a forma da religião.”[2]

Além do mais, o cinema como meio e como conteúdo, trabalha de forma eficiente, implícito ou explicitamente, com os dramas, os mitos, as perguntas existenciais e a incansável busca humana por pertencimento, reconhecimento e sentido. Numa cultura onde tantas mudanças são produzidas, do excesso de informação, do individualismo,da insegurança frente ao futuro, o cinema se apresenta, não só como uma válvula de escape, mas como um sistema orientador da vida, como síntese[3]. O cinema constrói sentido, forma identidade, cria ordem, oferece uma síntese aparentemente destituída de uma instituição, de uma ideologia ou de um líder, algo como o foi anteriormente a Igreja, a família, o Estado. É algo que parece vir de fora, “desprovido” de interesse e de controle. Isto o torna ainda mais poderoso como máquina de sentido[4].

O cinema opera, pois, na cultura de uma forma que não destoa da própria cultura, ou seja, através da vivência, da experiência[5], da catarsis, do espetáculo, do individual, do comercial... todos elementos muito caros para a contemporaneidade. O cinema reúne todos estes elementos de uma só vez, orienta de forma descontraída, conta uma história interessante de forma simples, mas, ao mesmo tempo, impactante[6]. Não teria como ser diferente em relação à religião, à fé e à espiritualidade. Na tela de cinema temos vivência e orientação religiosa de forma significativa, impactante e prazerosa, envoltas em uma história.[7]

O filme e o cinema desempenham hoje o mesmo papel que desempenhou a Igreja Medieval: decodificar o mundo e a vida[8].20 O que fazer com esta correlação é, pois tarefa da teologia. Olhemos, pois, para o filme Avatar como um exemplo de religião em 3D.

[1] Ouvi esta expressão em uma palestra, em Hamburg, Alemanha. Um interessante artigo aponta neste sentido: FINKELDE, Dominik. Religiöse Botschaften aus Hollywood. In: MEIER, Martin (Org.). Stimmen der Zeit. Ereiburg: Helder, , 1999, v. 217, p. 351-353.

[2] TILLICH, 2009, p. 83.

[3] HERRMANN, 2001, p. 16ss.

[4] HERRMANN, 2001, p. 28ss.

[5] 17. O filme Avatar revoluciona o cinema justamente pelo uso da técnica da virtualidade em 3D, o que proporciona maior vivência e experiência dos espectadores. Pessoas que assistiram Avatar em 3D relatavam sobre a experiência de “como que estar” em Pandora.

[6] HERRMANN, 2001, p. 88.

[7] H. Anderson e E. Foley trazem no livro “Mighty Stories, dangerous rituals”, justamente a ideia de que o que faz um rito ser um rito, ser eficiente, é justamente sua potencialidade de tecer as histórias individuais com a história divina. O cinema proporciona esta mesma costura.

[8] HERRMANN, 2001, p. 100.

PARTE III:

O filme Avatar

Bastidores

Avatar é um filme de ficção científica escrito e dirigido por James Cameron estrelando Sam Worthington, Zoë Saldaña, Sigourney Weaver e Stephen Lang. O filme foi produzido por Lightstorm Entertainment e distribuído pela 20th Century Fox. No mês de dezembro de 2009 o filme estreiou nos cinemas do mundo.

A crítica diz que Avatar é uma revolução da tecnologia cinematográfica devido ao seu desenvolvimento com visualização 3D e gravação com câmeras especiais, desenvolvidas especialmente para o filme. Os atores, p.ex., são transformados em versões digitais por captura de movimento. 60% de todo o conteúdo do filme foi gerado por computador e apenas 40% são de fato filmagens reais.

O orçamento oficial do filme foi de US$ 237 milhões e mais US$ 150 milhões de divulgação. O faturamento mundial no seu fim-de-semana de estréia foi de US$ 232.180.000, o sétimo maior da história do cinema e a maior bilheteria para um filme original, que não é adaptação ou sequência.

B) A história

A trama de Avatar acontece num país chamado Pandora, a 4.4 anos-luz da terra, no ano 2154 d.C. O conflito se dá entre os colonizadores humanos e os nativos humanóides, chamados na’vis. Os humanos querem explorar um preciosíssimo mineral do planeta, o unobtanium. Para isto, ex-soldados são recrutados como mercenários para a exploração e também para o combater aos resistentes nativos. Os na’vis, por sua vez, medindo quase 3 metros de altura, com caudas e pele azulada, querem preservar seu planeta e a espécie, já que vivem em harmonia com a natureza.

Paralelo à exploração de unobtanium, um outro programa, menos agressivo, é desenvolvido: o programa avatar. Este procura contato e uma relação pacífica com os na’vis. Como é impossível para os humanos respirarem na atmosfera de Pandora, rica em dióxido de carbono, metano e amônia, cientistas, num cruzamento genético in vitrio, criam os avatares, corpos híbridos humano-na’vi. Mais semelhantes aos na’vis que aos humanos, os avatares são controlados à distância pelos corpos humanos. Ou seja, um humano que compartilhe material genético com um corpo-avatar pode se conectar a este corpo através de conexões neurais que permitem o controle do corpo à distância.

Jake Sully (Sam Worthington) é um destes ex-fuzileiro. Mesmo sendo paraplégico, Jake vai para Pandora querendo dinheiro para uma operação que o curaria da paralisia. Jake está substituindo seu irmão gêmeo, Thomas, cientista do programa avatar, que morreu. A similaridade genética permite compatibilidade com o avatar do irmão. No corpo do avatar, Jake serve tanto ao projeto científico, como, secretamente, abastece com informações o projeto agressivo de exploração mineral.

Numa incursão na floresta, Jake, então em forma de avatar, desgarra-se do grupo e é atacado por uma fera local, sendo salvo por uma na’vi fêmea, Neytiri (Zoë Saldaña).

Ela só o salva, porque repentinamente ele é coberto por sementes de uma grande árvore de Pandora, a Árvore das Almas, na língua local, Eywa. Depois de uma relação inicial conflitiva, o avatar Jake conquista a confiança do povo na’vi, assim como coração de Neytiri.

Interessante que, de todos os lugares fascinantes de Pandora, um é essencial para a vida do povo: a Árvore das Almas, Eywa. Eywa é praticamente uma divindade à qual tudo e todos estão conectados. Este é um dentre outros aspectos religiosos do filme, que chamam a atenção, e serão analisados a seguir.

Os humanos atacam os lugares mais importantes dos na’vis, como uma árvore imensa onde o clã vive, a Árvore dos Antepassados – que seria como um memorial dos mortos– e pretendem atacar e destruir a Árvore das Almas, pois, justamente, sob estas árvores encontram-se as maiores concentrações de unobtanium. Os seres de Pandora se unem em defesa de Eywa e do seu planeta. Combatem com determinação e com suas armas rudimentares o poderio tecnlógico, vencendo e expulsando os humanos. Jake ao final, aos pés de Eywa torna-se definitivamente um na’vi. Depois da saga de quase três horas temos finalmente um final feliz, aberto a novos desfechos.

Análise e interpretação

Os elementos religiosos no filme Avatar são elementos implícitos. Proponho aqui um exercício de livre associação e interpretação destes elementos. Nas pesquisas feitas sobre a produção do filme, não há nenhum indício que James Cameron tenha escolhido elementos religiosos a partir de um referencial religioso amplo ou específico.

O horizonte judaico cristão, animista, no entanto, está presente no filme. Günter Thomas, tomando a teoria Derrick de Kerckhove, entende que faz parte da cultura e do imaginário ocidental uma ampla estrutura religiosa.

Esta estrutura está para a cultura como o alfabeto está para a linguagem[1].

A) Pandora como o Éden Perdido

Pandora, a lua-planeta de Avatar, é para os humanos uma caixa de surpresas. Tem a unobtanium, mas também todas as outras desagradáveis surpresas. Uma verdadeira Caixa de Pandora, motivo pelo qual, provavelmente, recebe este nome. Para o “Povo do Céu”, os humanos, Pandora é tão terrível, que local de pouso das naves humanas é chamado de “portal do inferno”.

Pandora vista pela ótica dos na’vi é totalmente o contrário. Pandora é o Éden do livro de Gênesis, o Éden do qual fomos expulsos, a Terra prometida do Êxodo, o Reino dos Evangelhos, o Novo Céu e a Nova Terra do Apocalipse. Eis que tudo era bom, Gênesis 1.31, diria Deus. Em Pandora, além da beleza paradisíaca, há uma indescritível harmonia de tudo com todos, pessoas, plantas, animais. Também em relação à grande árvore há uma profunda ligação. Localizada num lugar central de Pandora, ele lembra a árvore do conhecimento do bem e do mal, no centro do Éden (Gênesis 2.17, Apocalipse e 22.2). Esta árvore, os humanos querem destruir. Por causa disto, todos os seres de Pandora se unem e – não sem grande sacrifício – expulsam os humanos maus do planeta. De novo, em torno à relação com uma árvore, o ser humano é expulso do paraíso (Gênesis 3.23ss).

B) Ligação e religação de tudo com todos

Em Pandora há uma ligação de tudo com todos. Através de terminações nervosas na ponta dos cabelos, os na’vis se conectam aos animais do planeta, se conectam às plantas e à divindade Eywa. A certa altura do filme, a chefe do programa avatar diz que todos em Pandora estão interligados através das raízes, em uma grande rede viva, como Gaia e como Pachamama. Sem dúvida a ideia religiosa que está por detrás desta concepção é o panteísmo. O sagrado é e está em todas e cada uma das partes onde há vida, sendo a Árvore das Almas a representação máxima desta conexão viva. Na grande árvore, passado e futuro, vida e morte, se interligam.

C) Ewya: A Árvore da Almas

O espaço mais sagrado e vital de Pandora é a Árvore das Almas, chamada de Eywa[2] na língua nativa. Ao redor dela, e conectados pelos cabelos à suas raízes, osna’vis se reúnem, em ritos próprios, como a cura de doenças.

Eywa mantém o equilíbrio da vida, assim entendem os na’vis. Acaso ou não, justamente em baixo de Eywa está a maior concentração de unobtanium. Por isso os humanos querem explorar o solo, sobre o qual Eywa se encontra. A destruição deste espaço, no entanto, do espaço de culto, de cura, espaço do rito religioso (lembrando que religião provém do termo latim religare), acabaria com o elo vital do povo, seu passado e seu futuro e, consequentemente, acabaria com a identidade na’vi. Seria o fim do povo. O fim do espaço de culto significaria o fim da sua razão de existir. O general dos humanos sabe disto: -Vamos destruir este lugar e abriremos um buraco tão grande que este povo não saberá para onde ir, diz ele, mais ou menos com estas palavras.

Luckmann define religião da seguinte forma: Religião é o que permite ao ser humano transcender sua existência biológica para tornar-se ser humano, gente[3]. Ou seja é a religião, que garante a identidade do ser humano enquanto humano. “Eu sou a videira, vocês são ramos e quem não fica unido à videira não pode dar fruto”, diz Jesus Cristo (João 15.1, 4). Temos aqui mais um paralelo interessantíssimo entre Eywa e a Videira, do Evangelho.

D) Messianismo

O personagem Jake, paraplégico, envolvido tanto na exploração mineral quanto no programa avatar, tem algo de especial, algo de escolhido, algo de salvador. Sua vinda para Pandora não é por acaso nem em vão. Não por acaso ele é o avatar principal do filme. O improvável tetraplégico, que na roupagem de avatar pode novamente andar, tem um potencial messiânico. Quando se desgarra dos demais integrantes do programa, em meio à selva, Jake está prestes a ser morto pela jovem nativa Neytiri, quando sementes da árvore sagrada, Eywa, o cobrem, dissuadindo a jovem de acertá-lo com uma flecha. A jovem só preserva sua vida, porque Eywa o escolhe, aponta como especial. Mais tarde, Neytiri o manda ir embora e novamente algo misterioso aconte: Jake é coberto pelas sementes de Eywa, espíritos bons. Com esta revelação Neytiri o leva até o clã.

Muito rapidamente Jake passa para o lado dos na’vis. Ao mesmo tempo tenta dissuadir os humanos a atacar oslugares vitais dos na’vis e passa a lutar ao lado dos nativos, contra os humanos. Jake já não pertence mais do seu mundo. Na guerra “santa” em defesa de Pandora, Jake consegue o que pouquíssimos conseguiram: montar a ave alada mais feroz e hostil de Pandora, Toruk. Este feito o torna reconhecido pelos na’vis, como especial. Jake, assim, consegue convocar todos os seres do planeta, para a grande batalha, onde finalmente os humanos, com todas suas armas de guerra, sua tecnologia altamente desenvolvida, são vencidos pela aparente fraqueza na’vi e suas armas naturais e rudimentares.

E) Jake, Avatar e a ressurreição

Completando o destino messiânico, Jake assume definitivamente seu corpo de avatar. Eywa faz o que a altamente desenvolvida tecnologia humana conseguia a custo promover parcialmente, através do programa avatar. Fazer viver, de fato e permanentemente, o avatar. Aos pés de Eywa, Jake renasce em um novo corpo “incorruptível”, sem as seqüelas da deficiência física, e passa a viver pra sempre “ao lado esquerdo” de Deus, no paraíso de Pandora. Temos o reino de Pandora, em sua plenitude. Conclusão: conseqüências para a teologia prática e o culto James Cameron faz uso da mais alta tecnologia do cinema, justamente para relativizar a própria tecnologia.

Há um potencial na aparente fraqueza, na harmonia, no respeito entre os seres, no amor, na conexão de tudo com todos, que garante a vida em abundância. No final do filme, o espectador sente-se ele mesmo um avatar, que por quase três horas deixou seu mundo, seu corpo, e incorporou num novo mundo, fascinante. Ao voltar para realidade, o espectador tem vontade de ser na’vi e viver em Pandora.

Ao longo da caminhada da Igreja, o culto com sua liturgia e sua prédica supriu os cristãos de sentido. O culto como teologia prima era o espaço onde a teologia da Igreja era gerada e ao mesmo tempo vivenciada e, consequentemente, renovada, como tão bem define o reformado Jean Jacques von Allmen: o culto é ao mesmo tempo a recapitulação da história da salvação, é resumo e confirmação da teologia, e epifania da Igreja, local onde a Igreja

se apresenta, se revela ao mundo.[4] O culto fazia e faz isto através de sua dimensão simbólica, mítica, memorial e ritual. Simbolicamente durante uma hora ou pouco mais o culto organizava o mundo e lhe re-oxigenava de sentido e significa. Este monopólio a Igreja perdeu[5] ou porque descuidou do culto como gerador e mantenedor da teologia ou porque a cultura popular se apropriou da potencialidade de gerar e sustentar o sentido, criar relações, organizar e explicar o mundo.

O culto é tão vital para a teologia e para Igreja, como Eywa para a identidade e a existência de Pandora. A teologia prática precisa encontrar as estratégias certas para proteger esta “grande árvore”, em torno da qual sempre nos reunimos para nos ligar a Deus e para entender quem somos.

A tarefa principal da teologia prática é pensar a ação e a vida da Igreja. Como fazer isto quando a Igreja já não detém o monopólio de geradora e zeladora de sentido?

A alternativa mais apropriada seria uma nova hermenêutica indutiva que olhe com interesse para a cultura, procurando as pistas de uma religião vivida, zelando pela orientação teológica e não abrindo mão dos critérios teológicos. O culto cristão não pode capitular diante do “culto do cinema.” Tampouco o culto deve torna-se um cinema. Mas o culto pode criar o diálogo entre ambas as partes. Teologia e cultura podem irrigar-se mutuamente[6].

O cinema, assim como outros elementos da cultura popular, pode ajudar a teologia e a igreja a se repensar e se redizer dentro da cultura. Faremos parecido com Paulo no Areópago, para falar aos atenienses se vale do que eles já têm, o altar ao Deus desconhecido (Atos 17.22ss). O cinema pode ser, sim, o “Deus desconhecido” a partir do qual podemos celebrar, pregar e fazer teologia.

Júlio Cézar Adam é doutor em teologia, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor na Faculdades EST, São Leopoldo/RS/Brasil.

[1] THOMAS, Günter. Medien, Ritual, Religion: zur religiösen Funktion des Fernsehens. Frankfurt am Maim: Suhrkamp, 1998. p. 158-161.

[2] O nome Eywa como tal ou lido de traz pra frente awye não deixa de ter algo de semelhante com o tetragrama hebraico Iahweh, Javé, em português, que no Antigo Testamento expressa Deus.

[3] LUCKMANN, Thomas. Die unsichtbare Religion. 2. ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1993. p. 12

[4] ALLMEN, J.J von. O culto cristão: teologia e prática. 2. ed. São Paulo: Aste, 2005. p. 21-54.

[5] GRÄB, 2000, p. 86

[6] GRÄB, 1995, p. 49s.

*Júlio Cézar Adam é doutor em teologia, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor na Faculdades EST, São Leopoldo/RS/Brasil.

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