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Leitura Bíblica Latino Americana: diálogo com professores/as visitantes da Perkins School of Theology

Leitura Bíblica Latino Americana Perkins School of Theology (Dallas, Texas, EUA)

Prof. Dr. Paulo Roberto Garcia

Faculdade de Teologia - UMESP Outono de 2010

1. Caráter testemunhal

Abordar a tradição bíblica na América Latina deve acontecer a partir do testemunho da caminhada. Isso tem relação direta com a metodologia do trabalho bíblico na América Latina. A vida vem antes! Por isso, falar da Bíblia é falar da vida.

Carlos Mesters em seu livro “Por trás das palavras” compara a leitura bíblica latino-americana a uma casa antiga que é redescoberta pelo povo e nela esse povo festeja. Essa festa latino-americana nasce com a (re)descoberta da Bíblia pelas comunidades católicas. O interesse por ela produziu um fervilhar de publicações, cursos e capacitações em torno da Bíblia. O importante a destacar nesse processo é que o ponto de partida da leitura é a vida das comunidades. Suas lutas, sofrimentos e celebrações.

2. Uma experiência ecumênica

Na América Latina a leitura bíblica é ecumênica de berço. Essa é uma das mais ricas heranças que ela carrega. Conhecer essa herança é conhecer a beleza que nasce das reuniões de homens e mulheres em torno do texto bíblico.

3. Uma comunidade que lê a vida

3.1. Leitura Comunitária

A Bíblia na América Latina é lida comunitariamente. Com isso, o caminho para ingressar e compreender o texto bíblico foi o da comunidade que está por detrás dele. Assim, mudou-se um pouco o modo de interpretar o texto. Tradicionalmente, ao abordar-se um evangelho, enfatizava-se, entre outros aspectos, o autor do texto. Com isso, a pesquisa enfatizava a teologia e a intenção literária desse autor. A comunidade era uma receptora da mensagem. Quando ela se tornava objeto de estudo, isso acontecia com a finalidade de buscar pistas para entender porque o autor escreveu seu texto daquela forma. Há de se perceber que, nesta forma de enfocar o texto, cria-se um autor ideal, que escreve para uma comunidade e não em uma comunidade. Aliena-se o autor da vivência e dos dramas da comunidade. O jeito latino-americano de ler o texto passou a priorizar as abordagens que enfocavam a comunidade como determinante no processo de redação do texto. O que se procurou enfatizar foi que os textos bíblicos apresentavam em seu processo de redação os anseios e esperanças de grupos e comunidades que cultivavam a tradição oral - matriz do texto. Mesmo quando a redação final ocorria nas coortes e vinculados aos escribas reais, ainda assim o texto conservava em suas diversas camadas as aspirações e sonhos dos grupos gestadores e mantenedores da mensagem bíblica. Por isso, as comunidades latino-americanas passaram a olhar os evangelhos como um espelho, que refletia na vida, nas lutas e perspectivas das comunidades e grupos que estão por detrás do texto bíblico, a sua própria vida e luta. Isso foi luz para uma caminhada de fé.

3.2. Comunidade e Conflito

Os grupos que se reuniam em torno da Bíblia o faziam motivados pelos conflitos que tinham que enfrentar. A vida pungente da América Latina batia em meio às dores e opressões tentando desabrochar como uma flor em meio às pedras. A leitura era impulsionada por essa busca de viabilizar a vida em meio às dores e à morte. Conseqüentemente, ao olhar o texto, como em espelho, os olhos ansiavam por conhecer a comunidade que estava por detrás deles, sua vida, seus desejos e, principalmente, as lutas que permeavam sua existência. Assim, a leitura bíblica latino-americana valeu-se das pesquisas que buscavam reconstruir o cotidiano da vida das comunidades judaicas do Primeiro Evangelho (o Antigo Testamento) e as pequenas comunidades cristãs primitivas. Foram, então, surgindo informações valiosas para a compreensão dos desafios enfrentados por elas. Essa compreensão foi fermentando a realidade e a esperança do povo latino-americano.

Descobriu-se e ainda descobre-se, então, nos relatos bíblicos os pobres, as crianças, as mulheres. Descobriu-se as comunidades, suas lutas, desejos e esperanças.

3.3. Reconstrução, conflitos e desafios

Nesse processo de reconstrução, foram delineando-se os grandes conflitos que marcaram os desafios para o povo de Deus. Para exemplificar esse processo, vamos enfocar a seguir o cristianismo primitivo e seus conflitos, destacando alguns dos principais.

Império Romano

A grande potência que dominava o mundo se constituiu em um grande adversário do cristianismo e dos diversos grupos minoritários que existiam nesse período. A fome por riquezas, a ostentação, o luxo, a paz fundamentada na dominação absoluta e a divinização do império e do imperador se constituíram nos desafios a serem superados pelo cristianismo. Como exercer a fé frente a poderes imperiais déspotas?

Ao mesmo tempo em que a resposta a essa pergunta ia surgindo na leitura dos evangelhos, as comunidades latino-americanas iam encontrando sementes de esperança para frutificar na luta contra os poderes imperiais que se colocavam sobre elas.

As lideranças religiosas ligadas ao Templo

O Templo, como centro da religião, assume um papel fundamental na vida do povo no mundo bíblico. Ele acaba se tornando o centro da manipulação religiosa e lugar de poder. “Covil de salteadores e ladrões” nas palavras de Jesus. Os evangelhos vão delinear a luta de Jesus contra os poderes que estão firmados na estrutura do Templo. Eles vão contar sobre o drama da cruz e a vitória da vida sobre a morte - a ressurreição.

Fariseus, escribas, sacerdotes, herodianos. São muitos grupos que querem manter o Templo e sua Lei a qualquer custo. O pequeno grupo de galileus - o movimento de Jesus - ousa questionar o poder do Templo. Nesse ponto os evangelhos vão mostrar uma estranha união - os poderes do Templo e os poderes do império romano contra um galileu e seu movimento.

A memória da comunidade registra que, embora essas duas forças aparentassem ter um poder absoluto, a frágil vida foi mais forte que os poderes da morte. Mais uma vez os olhos latino-americanos que iam descobrindo essas histórias iam se enchendo de esperança e fé. O espelho da Bíblia ia se mostrando um espelho diferente, pois refletia além do que se poderia ver; refletia a esperança futura. Assim, essa leitura foi abrindo e tornando brilhantes os olhos latino-americanos, brilhantes, pois viam um futuro que ainda não chegou. No espelho da Bíblia, o passado nos revela o futuro.

As lideranças religiosas pós-destruição do Templo

Esse processo de olhar o passado para iluminar o futuro não foi uma exclusividade dos pequenos grupos e círculos bíblicos da América Latina. As próprias comunidades dos evangelhos fizeram isso. Frente aos desafios que se postavam às portas das comunidades primitivas, elas passaram a recontar o ministério de Jesus para iluminar sua vida presente. Assim, essas comunidades descobriram na história do movimento de Jesus a semente de esperança para fecundar o seu futuro.

O grande conflito que essas comunidades enfrentaram se deu na relação com os grupos que se pretendiam serem novas autoridades religiosas que substituiriam o Templo destruído em 70 E.C. (“era comum” - essa é uma forma ecumênica de se datar eventos). No confronto entre esses grupos, os que detinham mais poder buscavam estabelecer a exclusão dos pequenos grupos considerados dissonantes. Entre esses grupos se encontrava o grupo dos cristãos.

Esse conflito se mostra mais forte em dois evangelhos, Mateus e João. Assim, essas comunidades tiveram que dimensionar sua vida de fé a partir do confronto com esse movimento religioso. Um agravante é que esse conflito não se esgotava no campo religioso, antes, extrapolava para o econômico. Com isso, a existência e a sobrevivência da comunidade de fé estavam ligadas diretamente ao enfrentamento a esse conflito.

Os evangelhos de João e Mateus vão dar especial ênfase na fidelidade do povo à fé judaico-cristã que não aceita a exclusão como princípio religioso. Não é necessário destacar que esse tipo de relação entre fé, sobrevivência econômica e sistemas religiosos excludentes calou fundo na vida dos pequenos grupos de leitura bíblica da América Latina. Mais uma vez o espelho ia refletindo uma imagem de esperança que nascia da busca dessas comunidades pela vida marcada pelos atributos evangélicos (justiça, dignidade, liberdade, solidariedade, fé, etc.).

4. Novas leituras, novos desafios

Assim, ao dimensionar os conflitos que marcaram a vida das comunidades do cristianismo nascente (vale lembrar que os que vimos acima são apenas alguns desses, poderíamos dizer, os mais contundentes), as comunidades de fé necessitaram e necessitam estar atentas para não perder a dimensão ecumênica dessa leitura.

A leitura nasce ecumênica na medida em que ela nasce de uma dor e uma aflição que se manifesta de uma forma “ecumênica” sobre o continente latino-americano. Contudo, para permanecer nessa condição ela deve preservar um conteúdo que seja marcado por esse princípio. Por isso, a leitura redescobriu, nessa caminhada, novos rostos, novos sujeitos: as mulheres, os povos originários, os negros, os imigrantes, etc.

A leitura bíblica latino-americana, comunitária e ecumênica, é feita a partir da dor que marca o nosso continente. Para ser flor que desabroche em meio às pedras, deve ser leitura feita junto com os que sofrem. A experiência da dor pela violência, por sistemas econômicos espoliadores, é colocada ao lado da dor provocado pelo preconceito e pela discriminação. Diante disso, constata-se que essa experiência nos une. A leitura bíblica que brota dela deve ser uma leitura que encha os nossos olhos de esperança e fé e a experiência acumulada deve servir para nos aproximar em um diálogo profundo e profícuo.

5. Uma conclusão?

A leitura bíblica latino-americana é uma experiência riquíssima dentro do movimento ecumênico. Muito se aprendeu nessa caminhada, contudo, muito ainda há a ser descoberto. Essa leitura só não pode perder suas características fundamentais: comunitária e ecumênica. Para isso ela deve enfrentar a cada passo a reflexão profunda sobre seus caminhos e descaminhos, avanços e retrocessos, evitando absolutizar a leitura e tornar-se excludente.

Por isso o texto é inconcluso, na medida em que pequenos grupos, comunidades, movimentos continuam sentando-se ao redor do texto e olhando para ele como para um espelho, buscando ver a vida refletida nele.

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