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Declínio triunfante dos protestantes brancos nos EUA

Cederam poder e aderiram aos valores do mérito e inclusão

Noah Feldman*

THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010

Há cinco anos, a Suprema Corte, como os Estados Unidos, era composta por uma pluralidade de protestantes brancos. Se Elena Kagan - cuja audiência de confirmação no cargo começou esta semana - for aprovada, o número de protestantes brancos será reduzido a zero, e a Corte será formada por seis juízes católicos e três judeus.

É motivo de comemoração o fato de que ninguém mais se importa com a religião dos nomeados. Tivemos a felicidade de deixar para trás os dias em que havia uma "cadeira Católica" na Corte, ou quando judeus proeminentes (incluindo o editor deste jornal) insistiram para o presidente Franklin D. Roosevelt, em 1939, não nomear Felix Frankfurter, preocupados com um "excesso" de judeus no Tribunal que poderia alimentar o antissemitismo.

Mas essa satisfação com nosso progresso nacional não deve deixar que nos esqueçamos de seus autores: a elite protestante que fundou, e por longo tempo dominou, as instituições educacionais e dirigentes dos EUA, incluindo a Suprema Corte. Ao contrário de qualquer outro grupo religioso, racial ou étnico, dominante na história mundial, os protestantes brancos cederam seu poder socioeconômico e aderiram voluntariamente aos valores do mérito e da inclusão, que hoje são compartilhados por americanos de diferentes culturas. O declínio da elite protestante na verdade foi seu maior triunfo.

Como qualquer grupo religioso ou étnico, a população de protestantes brancos internamente é diversificada. Seria absurdo confundir os descendentes dos pequenos agricultores da Nova Inglaterra com os dos escandinavos no Meio Oeste, da mesma maneira que seria um erro confundir milaneses com sicilianos. Assim, quando nos referimos à elite branca que exerceu um poder enorme na história americana, estamos falando de um subgrupo, formado na maior parte por ingleses ou originários da Escócia e da Irlanda, cujos ancestrais chegaram a este país nos séculos 17 e 18. Seus antepassados combateram na Revolução Americana e redigiram a Constituição dos EUA, inserindo nela uma série de credos protestantes, incluindo os direitos inalienáveis e a separação entre Igreja e Estado.

Católicos - Não quer dizer que os protestantes brancos renunciaram ao poder rapidamente ou sem reservas. Os imigrantes católicos enfrentaram um século de discriminação organizada e foram regularmente denunciados como devotos fiéis do papa inaptos para participar de uma democracia.

Embora o antissemitismo nos EUA jamais tenha tido a força que teve na Europa, foi um obstáculo persistente. Protestantes como Abbot Lawrence Lowell, um grande diretor de Harvard no início do século 20, tentaram impor quotas para limitar a entrada de judeus na universidade. A elite protestante dirigente também teve sua parte de culpa pela discriminação racial e a escravidão no país.

Mas, depois que os ideais da inclusão com base no mérito estabeleceram-se, os avanços foram constantes e tranquilos. Tomemos como exemplo a Universidade Princeton, antigo bastião da elite sulista protestante em particular. A Princeton de F. Scott Fitzgerald era segregada e exclusiva. Quando Hemingway descreveu Robert Cohn no início do seu livro O Sol Também se Levanta como um judeu que tinha sido "campeão de boxe peso médio de Princeton", ele usou essa imagem para descrever um personagem ao mesmo tempo isolado, inseguro e combativo. No final de 1958, ano da "luta suja", em que os judeus foram excluídos dos clubes da universidade, Princeton poderia muito bem ser vista como um reduto do privilégio protestante masculino, com seus estudantes constantemente embriagados e provavelmente nenhum deles muito brilhante quando sóbrios.

Mas, na década de 60, Princeton decidiu mudar e abriu finalmente a universidade para as mulheres e minorias étnicas urbanas. Uma decisão que hoje está dando frutos. Espantosamente, os últimos três indicados para a Suprema Corte - Samuel Alito, Sonia Sotomayor e Elena Kagan - são formados em Princeton. As nomeações desses três desembargadores para substituir antecessores protestantes mudou o equilíbrio demográfico do Tribunal. Seus sobrenomes italiano, latino e judeu, não têm nada a ver com aqueles encontrados nas paredes de muitos prédios de Princeton. Em compensação, apenas um juiz anterior foi formado em Princeton no século 20.

Mérito - Por que a elite protestante abriu suas instituições a todos? A resposta pode ser encontrada em grande parte nos ideais antiaristocráticos da Constituição, que proibiu títulos de nobreza e estimulou o sucesso com base no mérito. Por muitos anos, a elite protestante abriu-se aos protestantes brancos que não vinham das antigas famílias. O dinheiro certamente garantiu a sua entrada nos círculos dirigentes, mas provavelmente a educação foi o mais importante para essa elite definir-se, e é por isso que a abertura de grandes universidades americanas teve efeito marcante na mudança da demografia das elites americanas.

As crenças sociais na igualdade sobrepuseram-se à obtenção de privilégios exclusivos que um grupo bem sucedido quase sempre deseja. Um conjunto de exceções para um indivíduo conseguir ser admitido numa sociedade, em clubes e faculdades ajudou a derrubar as barreira de modo mais amplo. Não se tratou apenas de uma elite olhando para fora dela em busca de rejuvenescimento: a integração observada nos últimos 50 anos foi produto de ideais sinceros transformados em ação.

O interessante é que esta era de integração foi acompanhada de uma correspondente difusão de um modo de vestir característico da elite protestante. Esse estilo de roupa, hoje chamado genericamente de "Prep" e conhecida originalmente como da "Ivy League", por muito tempo foi confeccionada por imigrantes judeus. ( O "J" na loja J. Press de New Haven significa Jacobi) e depois se tornou global com Ralph Lauren, cujo sobrenome é Lipschitz. Mas até a Ivy League começar a se abrir, os que adotavam esse estilo de roupa se restringiam a essa elite protestante.

Hoje, o uso de roupas de Tweed não é nem um anacronismo e nem assimilação, mas uma marca de respeito por um grupo étnico distintivo que abriu suas portas para todos - uma realização que tem de ser lembrada, reconhecida e copiada.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É PROFESSOR DE DIREITO EM HARVARD E ESCRITOR

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