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A arte de bem-dizer

Orientações para quem fala em público (inclusive na igreja)

Luiz Carlos Ramos

“Istudado nóis é, nóis fala errado porque nóis qué!”

(Cartaz afixado em estabelecimento comercial em Sta. Maria da Serra, interior de São Paulo)

“Eu sáudo os irmãos...”

Quem já não ouviu expressões do tipo “eu sáudo a amada igreja...”, em lugar do correto que seria “eu saúdo”? O deslocamento da tônica (sílaba ou vogal que deveria receber a ênfase, na prosódia) é um dos erros muito comuns entre nós. Como esses, há muitos outros “costumes” da comunicação oral que se repetem com tamanha freqüência entre os que falam em público que acabam virando “regra”. Os gramáticos chegam mesmo a se render a algumas dessas práticas e acabam por incorporá-las nos dicionários e nas gramáticas que escrevem.

Não obstante, a observância das normas é uma garantia de que nossas idéias estão sendo bem expressas, e uma certa garantia de que elas serão razoavelmente compreendidas. Se cada um seguisse suas próprias regras, reproduziríamos a tragédia de Babel, e já não seríamos capazes de nos entender.

Talvez você já tenha ouvido, ou (cruzes!) repetido a seguinte expressão: “recebam meus comprimentos...”. Ora, não obstante a semelhança com “cumprimentos” (ambos são subs-tantivos masculinos que se escrevem quase da mesma forma), essas palavras significam coisa bem diferente: “comprimento” refere-se à distância ou extensão correspondente à dimensão de um objeto, e “cumprimento” designa uma saudação ou congratulação. Uma única vogal – neste caso, um “o” ou um “u” – pode fazer a gente dizer coisa bem diferente daquela que pretendemos.

Vale dizer, aproveitando a ocasião, que em lugar de dizer “eu quero saudar...” ou “eu queria dizer aos irmãos...”, seria mais adequado saudar de vez, pois a impressão que se tem é a de que sempre o orador quer fazer algo, mas nunca o faz. Assim, na dúvida, na hora de fazer uma saudação, é melhor recorrer aos convencionais “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, sempre adequados e gramaticalmente corretos. Essas, sim, são saudações, e não meros anúncios de algo que nunca chega.


“...eu disse ao pastor que tinha um pobrema...”

Na verdade essa pessoa que proferiu a frase acima tinha pelo menos dois problemas, aquele que a fez procurar o pastor e o outro, de prosódia, pois a maneira correta de pronunciar e grafar essa palavra é “problema” e não “pobrema”. Outras variações do mesmo fenômeno (há quem prefira dizer “felômeno”, a despeito dos dicionários) são: “poblema” e “ploblema” — o curioso é que, na maioria das vezes, é mais difícil falar errado do que cer-to. Isso se resolve com atenção e exercícios (tente fazê-los em frente a um espelho).


“Que Deus possa estar nos abençoando...”

Aqui há dois deslizes: um de caráter lógico e outro gramatical. Dizer “que Deus possa...” equivale a admitir que talvez ele “não possa”. Quando meu velho professor de Teologia Sistemática ouvia alguém dizendo isso interpelava o orador dizendo: “É claro que Deus pode! Você está duvidando do poder de Deus?” Esse é mais um dos muitos vícios de linguagem que uma vez, em algum lugar, empregado por alguém, se dissemina, como diriam os antigos, “como rastilho de pólvora”. Mais uma razão para tomarmos cuidado com nos-sas expressões, porque certamente serão imitadas por muitos.

O outro problema é o do gerundismo, que consiste em usar vários verbos no lugar de um só: “Deus vai estar nos abençoando...” ou “Nós vamos estar entrando em contato com o irmão...”. Contra essa prática desagradável, muito já se tem escrito, mas, a despeito de tanto empenho, esse “mal” ainda persiste e superabunda também nas igrejas. Não seria mais fácil simplesmente dizer: “Que Deus nos abençoe”? Seríamos mais objetivos, tomarí-amos menos o tempo precioso das pessoas e, de quebra, acertaríamos na gramática.


“Vou ir”, “vai vir”, “se você ver”

É sempre conveniente o emprego da forma mais breve e que empregue o menor número de palavras possível. Assim, é melhor dizer “irei”, em lugar de “vou ir”; “virá”, em lugar de “vai vir”; “fará”, em lugar de “vai fazer”, etc.

A conjugação dos verbos “ver” e “vir” costumam gerar certa confusão. Assim, se costuma dizer “quando você vir” quando se quer dizer “quando você vier”; ou “se você o ver”, quando o certo seria “se você o vir”.

Por alguma razão inexplicável, há uma tendência a considerar pedantismo a observância da norma culta da língua. Por norma culta, não se entenda “esnobe”, mas o padrão adotado nos textos que requerem um mínimo de valor documental, tal como a literatura, os documentos oficiais, os avisos e outros textos que devem ser acessíveis a todos.

Quando se emprega uma regra particular (isto é, que não corresponda à norma culta), esta deverá ser estabelecida com muita propriedade, como no caso do livro O Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ou então não terá lugar entre os textos com valor literário reconhecido. Ao contrário, servirá como evidência das limitações e incapacidades de quem pronuncia ou escreve.


“O pastor pediu pra mim avisar de que...”

Aqui, temos dois problemas, o “pra mim” + verbo, e o verbo + “de que”. O correto seria: “o pastor pediu pra eu avisar que...”. Note-se que, querendo enfeitar, acaba-se caindo em armadilhas que facilmente poderiam ser evitadas, caso nos ativéssemos ao natural da língua. “Mim” nunca faz nada (isso só os índios dos filmes de Hollywood conseguem).

Aqui também cabe a alusão a expressões do tipo: “há um problema entre eu e a irmã”. Duas observações sobre isso: primeiro, é deselegante fazer referência a si mesmo quando depois se menciona outras pessoas – assim, em lugar de dizer “eu, o pastor, e a irmã”, o melhor seria dizer, o pastor, a irmã e eu”; segundo, o correto seria dizer “há um problema entre a irmã e mim” (e não “eu”, pois “eu” e “tu” não podem ser regidos de preposição).

Também ninguém deve “ir no culto”, mas “ir ao culto”, nunca se deve “sentar na mesa”, mas “se sentar à mesa”. Um pouco de cuidado com as preposições poderia dar um pouco mais de prazer àqueles e àquelas que “vão à igreja”.


“Artá” (altar), “pessoar” (pessoal); “arma” (alma), “espirituar” (espiritu-al)...

A lei do menor esforço (ou lei da preguiça) promove o horror aos termos que exijam um pouco mais de articulação na sua pronúncia. Sem maiores justificativas, procede-se a uma economia vernacular empobrecedora, de modo que tendemos a encurtar, simplificar, abre-viar, as palavras “difícieis”.

Assim, diz-se “prô” ou “prof” em lugar de “professor”; “apê” em lugar de “apartamento”; “fono” em lugar de “fonoaudiólogo”. Na mesma linha estão as tendências regionalistas do tipo: “cantanu” (cantando), “mesm” (mesmo), “cas” (casa), “ce” (você), etc. Ou a supres-são de vogais ou consoantes: “Caxa” (caixa), “pexe” (peixe), “oro” (ouro)... Bem como: “Andá” (andar), “vê” (ver), “alugué” (aluguel)... Ou, ainda, os paroxítonos: “espiríto” (es-pírito), “exôdo” (êxodo), “córgo” (córrego), “abobra” (abóbora)...

Chega-se a ponto de já não mais se saber se é por economia ou por ignorância que as palavras não são completamente pronunciadas.


“Adevogado”, “obejeto”; “guverno”, “puder”...

O contrário do que foi dito no item anterior acontece quando a tentação de “enfeitar” o discurso nos toma de tal empolgação que acabamos acrescentando coisas onde não há, nem deveria haver. Assim, sobra um “e” em expressões como “obesservação” (observa-ção), “adevogado” (advogado), “abestrato” (abstrato), etc. Outra é a troca grosseira de vogais, particularmente “u” por “o”, como em “guvernadô” (governador) e “puderosos” (po-derosos). Na empolgação, até “mendigo” acaba virando “mendingo”, “bugiganga” vira “buginganga” etc. e tal.


“Deus, ele é amor...”, “o casamento, ele é sublime...”

O emprego do duplo sujeito chega a ser enauseante nas falas religiosas, políticas, jornalísticas, jurídicas ou simplesmente coloquiais: “a Bíblia, ela nos fala...”; “a missão, ela é de todos...”; “a igreja, ela deve ser...”, etc. Como figura de linguagem (anacoluto, que consiste na quebra intencional da estrutura sintática com o propósito de dar ênfase retórica), tem o seu lugar, mas como vício deve ser evitado. É muito melhor dizer simplesmente: “Deus é amor”, “o casamento é sublime”, “a Bíblia nos fala”...


“Duas mão”, “dois pé”...

Em casa, quando alguém, distraído, omite o “s” final dos plurais, minha cunhada recita, bem humorada, “mais que um é plural, bota esse no final!”. A variação de número das pa-lavras em língua portuguesa é relativamente simples. Na maioria das vezes um simples “s” no final serve para indicar o plural — compare com a palavra man (do inglês “homem”), e seu plural men (“homens”): além da arbitrariedade da troca de um “a” por um “e”, note-se que a variação da pronúncia é praticamente imperceptível. Conquanto haja algumas nuanças (lápis, tórax, Atlas, que são invariáveis e coronel-coronéis, mulher-mulheres, pão-pães, etc.), todas os plurais em língua portuguesa terminam com “s”. Assim, não se deve rejeitar o plural tomando como desculpa a complexidade da regra gramatical.

Só devemos tomar cuidado com o plural de: ancião—anciãos, caráter—caracteres, jú-nior—juniores, pagão—pagãos, cidadão—cidadãos.


“Subzídio pastoral”

A pronúncia correta é “subsídio”, mantendo-se a sibilidade do “s” depois do “b”. Aprendi com o Prof. e Rev. Sérgio Marcus que a razão para isso é a mesma pela qual não dizemos “abzoluto”, nem “abzurdo”, mas “absoluto” e “absurdo”. Assim também deverá ser com “subsídio”. Pastor que fala “subzídio” não deveria receber “subsídio pastoral”.


“Te agradeço...”, “me diga uma coisa...”

O pronome é a palavra que representa os nomes dos seres ou os determina, tomando-os como pessoas do discurso. Há dois tipos de pronomes: os de caso reto, que funcionam como sujeito da oração (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas); e os de caso oblíquo, que funcio-nam como complemento do verbo (me, te, se, o, a, os, as, lhe, nos, vos e lhes – mim/comigo, ti/contigo, ele, ela, si/consigo, nós/conosco, vós/convosco, eles, elas, si).

Embora o uso indevido esteja vencendo pelo cansaço, a ponto de virar regra, ainda é mui-to mais elegante começar um período com “Agradeço-te...” do que com “Te agradeço...”; “Conte-me” é melhor do que “Me conte”. Evite, portanto, iniciar uma frase com pronome de caso oblíquo.


“Você deve abrir teu coração...”

Os verbos são palavras que exprimem estado, ação ou fenômeno e variam em número, pessoa, modo, tempo e voz. A contradição no uso assimétrico de “tu” e “você/ele/ela”, “teu/tua” e “seu/sua” aparece com mais freqüência em algumas regiões do Brasil do que em outras, mas é sempre conveniente chamar a atenção para esse descuido. A consistência de um discurso depende do uso coerente que faz das categorias gramaticais. Um discurso que empregue a segunda pessoa deve seguir respeitando essa opção até o final: “Tu és... tua fé... ele te chamou...”; caso opte pela terceira pessoa: “Você é... sua fé... ele o cha-mou...” e assim por diante.


“No concílio, onde tratou de vários assuntos”

O emprego inadequado de conectivos é freqüente, e um dos mais recorrentes é o uso do advérbio “onde”, que deveria ser empregado especificamente para formulações interroga-tivas (“onde ele estuda?”) aludindo sempre a lugar ou espaço geográfico. Portanto, seria melhor dizer “No concílio, no qual vários assuntos foram tratados...” – entendendo-se aqui “concíclio” não como lugar, mas como evento.

Outro problema comum é o emprego trocado de “onde” e “aonde”. “Aonde” é a contra-ção de a (preposição) + onde, e só deve ser usado quando o verbo indicar movimento. Assim, diz-se “aonde você vai?” e “onde você mora?”.

Nessa mesma linha podemos citar o emprego inadequado de “a nível de...”. A rigor, essa é uma expressão que pode ser omitida sem prejuízo. Assim, em lugar de dizer “a nível local, regional ou nacional” pode-se dizer simplesmente “local, regional e nacionalmente”. Se não houver alternativa, e o emprego do termo “nível” for inevitável, deve-se preferir dizer “em nível local...”


“Primeira Crônicas”, “Primeiro Coríntios”, “Primeira Pedro”

Muito cuidado com a colocação das palavras na frase. Dizer que “o cachorro mordeu o menino” é bem diferente de dizer que “o menino mordeu o cachorro”. Embora as palavras sejam as mesmas, a sua ordem na frase altera completamente o significado. Portanto, que ninguém anuncie no culto que “a igreja oferece um quarto para os seminaristas de fundos amplos e ventilados”, a menos que queira provocar uma boa gargalhada na congregação.

O mesmo se diga da maneira de enunciar uma referência bíblica. Na dúvida, empregue a forma completa: em lugar de dizer “Primeira Juízes”, diga-se “primeiro livro dos Juízes” ou “segundo livro das Crônicas”, ou ainda “primeira epístola aos Coríntios”, “segunda carta de Pedro”, “terceira epístola de João”... O emprego de “primeiro” ou “primeira” depende, portanto, de se tratar de “livro” ou de “carta/espistola”.


Redundância

Meu velho professor de Antigo Testamento dizia: “Quem muito fala muito erra!” Isso serve não somente para responder às questões das provas, mas para qualquer situação na qual tenhamos que fazer uso da palavra. Quanto mais nos delongarmos, mais chances teremos de cometer erros. E quanto mais tentarmos consertar, pior a situação ficará. Dizem os alemães que se retirarmos as redundâncias (repetições desnecessárias) dos nossos discur-sos, eles poderão ser reduzidos em até 90%. Isso significa que uma fala de 10 minutos po-de ser reduzida a um único minuto, e um sermão de trinta, a apenas três minutos. Não seria maravilhoso se todos começássemos a tentar fazer isso, a começar do pastores e pastoras?

Para dar exemplo, vou começar eu mesmo parando por aqui. Voltaremos em outra ocasião, queira Deus, para tratar dessas divertidas aventuras pelas quais passam as pessoas que têm de falar em público (e as que têm de sofrê-las). Inté!

Setembro de 2006

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