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Carta-reflexão sobre o que-dizer teológico em face à Mulher: Perspectivas da teologia contemporânea

Querida Mulher,

Gostaria de me desculpar por não ter-lhe falado, por ocasião do dia Internacional da Mulher. Tentarei ir além dos módicos parabéns, refletindo teologicamente sobre o que essa data alude.

Entendo o que-dizer teológico como palavra-viva, animada pela Ruah (do hebraico brisa, sopro), gestadora de Graça (do latim Charis).

A fé cristã é mensagem-boa e só pode o ser, pois é metamorfosis (palavra grega, usada como expressão de ressurreição). É esperança escatológica que transforma nossa vida presente (J. Moltmann). A palavra de Deus, que nos remete à fé, está no seio do que nos move incondicionalmente. Com isso, sob a égide desta experiência e reflexão, tal Palavra é a fonte do que põe em movimento o humanum. Palavra-ação que nos remete à Realidade Última.

Minha mente, minha memória, minha linguagem, minha cosmovisão e minha respiração são ativadas criativamente pela Vida. No entanto, não é qualquer termo de vida que me impele à jornada de viver, conviver, sobreviver e re-viver. A Vida que me desperta à Vida-além-da-vida é a vida mergulhada na Carne, na Terra e na trilha das Estrelas. É esta Vida que sopra como brisa (Ruah) sobre o quer-dizer da teologia cristã. Nessa perspectiva, entendo theo-logia como a reflexão sobre “a Vida na Vida”, se é theo-logia cristã então é reflexão sobre a Vida de Deus mergulhada na Vida da Humanidade.

Os matizes do que-dizer teológico cristão são: a Encarnação; a Comunhão; e a Celebração.

A aposta pela encarnação (B. Pascal) constrange o que-dizer teológico a tornar-se reflexão e gesto de vida na fronteira do próprio viver (P. Tillich), portanto reflexão que desafia a palavra-morta (do grego thanato-logia). Valendo-me da flexibilidade das palavras e relembrando Barth, a reflexão e o gesto encarnados do que-dizer teológico naturalmente não se calam diante do “disangelho” (do grego dysangelion – má notícia), antes sim, celebram o euangelion, a palavra boa, nas fronteiras e limiares da existência.

A vida de comunhão gesta o que-dizer teológico em sensibilidade, criatividade e caridade, fazendo-o confessar alegremente a aliança com a Palavra-Viva e com a Palavra-Encarnada. A logia (prefiro evitar o termo lógica) da fé cristã está cabalmente abraçada com a comunidade cósmica e viva, da qual fazemos parte e para qual retornaremos. A comunhão não expressa tão somente a Vida Divina na Vida Humana (e muito menos a expressa na vida masculina), mas, sobretudo, anuncia a presença da Vida Divina no pulsar da Vida Planetária. A partir da conversão divina à humanidade, o que-dizer teológico humano só acontece como evento vivo, por meio do gesto de conversão e comunhão com a totalidade da Vida que habita as cercanias da Terra, planeta gestador de vida e vida em abundância. A Vida em comunhão se-nos apresenta como veia-mater da reflexão e prática éticas cuja tarefa é convocar o que-dizer teológico à preservação por todas as formas de vida. Nosso ethos conforma-se na Vida em Comunhão (e na Comunhão na Vida), nutrindo-se desse locus theologicus, a fim de manter a “Vida na Vida” como fundamento (do alemão Grund) do que erigiu nossa casa (do grego oikos) comum, chamada Terra. O sitz im Leben (lugar vivencial) da ética cristã é a Vida em Comunhão, expressão privilegiada da caridade cristã.

A casa habitada pela caridade é casa celebrante, pois a) emana o perfume de Cristo e seus aromas comensais, ou ainda, o aroma da Vida de Deus na pele humana; b) expressa a alegria da Vida que transcende a vida, ou melhor, a alegria pela Vida além da vida, pelo Deus além de Deus (P. Tillich); c) vivencia a Paz, anunciadora da vitalidade da Vida além da morte e da solidão. Em outras palavras, experiencia no viver-já a integralidade da Vida (sentido de shalom em hebraico). Essas ações (emanar, expressar e vivenciar) fazem irromper no humanum o sabor da e pela Vida, o qual, em alusão ao Evangelho, é a celebração pela presença viva de Deus (Javé Imanuel) na Terra - nossa querida e bela casa. Nessa trilha, a teologia é vocacionada à festa/celebração pela vida-humana (Carne), pela vida-planetária (Terra) e pela vida-cósmica (Estrelas). O que-dizer teológico celebra a Vida de Deus na Vida humana, na Vida da Terra e na Vida das Estrelas. A celebração converte nossos gestos de comunhão em palavras-vivas. A celebração anuncia nessas palavras a alegria da vida encarnada e comunitária, além da gratidão pela Casa, dádiva da Vida às vidas na Terra.

Pensado nessa tela e nas nuanças da fé cristã, a mulher não é só sujeito do pensamento de dada fé. Não só é palavra-resposta devido às demandas da polis – tão saturada da “andrologia”. A Mulher, tu Mulher, Ela Mulher é, sobretudo, Palavra-Vida. A mulher processa em si e projeta além de si as fagulhas coloridas da criação, as quais superam todo pensamento sectário e intolerante, regido por binômios de pureza x impureza; força x fraqueza. Pode-se entender (tender em direção a ela) a Mulher como Símbolo (do grego: aquilo que nos une), como Sinal da face fêmea de Deus. No entanto, pela intuição de um teologizar abraçado à Vida, percebo a mulher como Metáfora Viva (Paul Ricoeur) da Vida de Deus em nós. A Mulher carrega em si a logia de nosso Deus ou nossos Deuses. A Mulher expressa, na linguagem da fé e da esperança, o abraço apaixonado e amoroso da Vida-Viva (confessada por Deus e por tantos outros belos nomes) e da Humanidade. Magnificat!

Minha alegria por ser irmão de fé e companheiro na teia teológica da Mulher que habita e embeleza todas vocês mulheres.

S.B.C. 10/03/08

Hugo Fonseca

Pax et Bonum


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