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Assédio sexual e moral está presente em quase 100% do ambiente de comunicação

Denúncia é do Grupo de Planejamento, formado por ex-funcionários de agências

14/09/2018 20h05 - última modificação 17/09/2018 20h39

Ken Fujioca: de assediador a denunciante (Fotos Malu Marcoccia)

Assédio sexual passou a ser previsto no artigo 216-A do Código Penal em 2001, enquanto a lei trabalhista 13.288 de 2002, no artigo 1º, parágrafo único, discorre sobre inúmeras situações de assédio moral. Quase duas décadas depois, perseguições e humilhações no ambiente corporativo permanecem uma triste e intocável rotina. No mercado da comunicação, é praticamente um circo de horrores:

90% das mulheres e 76% dos homens que trabalham em agências de publicidade, relações públicas e jornalismo afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio, sexual ou moral. Pelo menos 89% das mulheres e 85% dos homens dizem que constrangimentos morais ocorrem com frequência, ou seja, não é algo episódico, e sim um ambiente permanentemente hostil. No caso de assédio sexual, 97% de ambos os sexos dizem que tais situações ocorrem (cinco em cada 10 homens e quase sete em cada 10 mulheres apontam que ocorrem frequentemente).

Por que empilhar tantos números?

“Precisamos alertar e aumentar o nível de denúncias. Precisamos que novas gerações venham para ambientes de comunicação mudar essa realidade, porque os antigos não admitem que são assediadores”, responde Ken Fujioca, fundador da ADA Strategy e mentor para startups via Endeavor Brasil, além de presidente do conselho do Grupo de Planejamento, responsável por pesquisa feita em 2017 com 1.400 profissionais do setor na Grande São Paulo sob o título “Hostilidade, Silêncio e Omissão: O Retrato do Assédio no Mercado de Comunicação em São Paulo”. O material foi apresentado no “Em Prosa” na noite de 11 de setembro último, evento promovido pela Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo.

Por enquanto, Ken Fujioca se diz pregando no deserto. Em 10 meses de lançamento, a pesquisa já foi levada para 47 agências e apenas uma aceitou o desafio de produzir cartilha com orientação sobre o tema aos funcionários. O próprio Ken assumiu-se assediador e decidiu passar de vitrine para estilingue: “Trabalhei por anos após o expediente e não fiz mal somente a mim, mas aos outros da equipe. Fui desumano e exerci uma forma silenciosa de poder”, testemunhou.

Como ele, Lara Thomazini decidiu sair do ambiente corporativo onde atendeu a grandes clientes e tornar-se consultora independente para startups e pequenos negócios. Ela é voluntária no Grupo de Planejamento e também apresentou a pesquisa na Metodista. “Num dos últimos episódios, metade da agência ficou no mezanino para ver minha calcinha, assobiar e falar piadas sexistas. Desenvolvi pré-diabetes e síndrome do pânico e nunca mais voltei ao mercado corporativo”, relatou.

Piadas e doenças

A existência de piadas sexistas e comentários constrangedores relacionados a atributos físicos é confirmada por 89% das mulheres e 83% dos homens que participaram da pesquisa.

Mais situações corriqueiras que envolvem sexismo: 42% das mulheres e 23% dos homens disseram ter ouvido que seu stress e cansaço no trabalho estavam associados à falta de sexo. 59% das mulheres e 13% dos homens relataram que suas opiniões são desconsideradas devido ao seu sexo ou orientação sexual.

Dentre relatos de assédio sexual, 78% se referiram a situações de assédio verbal, o que significa ter ouvido insinuações constrangedoras ou intimidatórias. Já 39% das mulheres que relataram suas histórias afirmam ter sofrido assédio sexual físico, ou seja, toques nas coxas, apertões nas cinturas, tapas nas bundas e toques nas vaginas.

A legislação trabalhista considera assédio moral marcar tarefas com prazos impossíveis, criticar colaboradores com persistência, subestimar esforços, tomar crédito de ideias dos outros, passar alguém de uma área de responsabilidade para funções triviais, ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros, sonegar informações de forma insistente e espalhar rumores maliciosos. Já assédio sexual é definido como ato de constranger alguém para obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o assediador da condição de superior hierárquico.

Lara Thomazini mostrou como a situação é endêmica: 63% dos assediados moralmente o foram por pessoas em posição de diretoria, dos quais 30% por presidentes ou sócios. Este número chega a 71% no caso de coordenadores, supervisores e gerentes.

A pesquisa expõe também como diferentes formas de assédio impactam na saúde mental e física dos trabalhadores: 62% das mulheres e 51% dos homens afirmam que tiveram algum problema de saúde relacionado ao constrangimento moral. Síndrome de ansiedade, sentimento de inutilidade, insônia ou sonolência excessiva, depressão, dores de cabeça, consumo excessivo de álcool e drogas, falta de libido, sede de vingança, distúrbios digestivos, crises de choro e falta de ar foram os problemas mais apontados. “É um ambiente tóxico que reflete na saúde”, mostrou Lara.

Medo de represálias

Temor por represálias e até por demissão explica a prosperidade dos atos de assédio, além da falta de alguém a quem reclamar. A pesquisa detecta que 33% das mulheres afirmaram que nunca tiveram apoio de líderes mulheres quando foram assediadas e 58% dos homens responderam que nunca encontraram apoio em mulheres em posição de liderança para falar do assunto.

57% das mulheres e 50% dos homens afirmam que se calam e ignoram qualquer tipo de assédio por medo de serem julgados, 58% das mulheres e 45% têm medo de serem demitidos, 61% das mulheres e 63% dos homens temem represálias.

A ideia da pesquisa teve origem em 2016, durante painel da Conferência do Grupo de Planejamento que apresentava as conclusões da 3% Conference ocorrida em Nova York. O assunto era assédio e quase todas as mulheres da plateia se levantaram quando perguntadas se haviam passado por alguma situação do gênero. “O Retrato do Assédio no Mercado de Comunicação” foi feito online com privacidade das fontes em outubro de 2017. Dos respondentes, 68% são mulheres e 32% homens com média de idade de 33 anos.

Além de palestras, Ken Fujioca disponibiliza a pesquisa publicamente com a missão de provocar pelo menos três ações “a custo zero” das corporações: 1- Posicionar-se oficialmente sobre o assunto à equipe de colaboradores e implantar tolerância zero no ambiente interno e externo de trabaljo; 2- Criar canais de orientação e denúncia; 3- Produzir e distribuir material de divulgação, como cartilhas.

Acesse aqui a íntegra.

Veja imagens do evento:

Palestra sobre "O retrato do assédio no mercado de Comunicação", com Ken Fujioca e Lara Thomazini

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
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