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Financeirização da economia e degradação ambiental quebrarão o planeta, diz consultor da ONU

12/05/2015 19h50 - última modificação 12/05/2015 19h54

O que há entre os juros cobrados no cartão de crédito ou no cheque especial de 205% e 295% ao ano em abril último, respectivamente, e os 8% a 10% em média creditados anualmente na caderneta de poupança no Brasil?

Há uma montanha Everest de rendimentos financeiros no meio, apropriados pelos bancos e que não voltam para a economia porque são desviados para compra de papéis de dívida pública ou simplesmente voam para paraísos fiscais. Com isso, faltam recursos baratos para incentivar o consumo e o investimento em produção.

“Essa financeirização da economia trava o PIB (Produto Interno Bruto) e quem ganha é só o intermediador”, adverte o economista e professor titular na pós-graduação em Economia e Administração da PUC-São Paulo, Ladislau Dowbor. Ele diz que nem mesmo os quase 150 programas sociais do atual governo, com Bolsa Família à frente, estão a salvo dessa ciranda financeira, porque o governo paga cada vez mais pelos títulos públicos para captar recursos dos bancos. A taxa básica de juros Selic está em 13,25% e sem nenhuma perspectiva de baixa.

“Os bancos exigem os juros que querem, não há qualquer intervenção. Esses desvios entre o que o sistema financeiro paga para um poupador e recebe de quem toma empréstimos vão para compra de papéis do governo e isso é universal. Vai quebrar vários países, como já ocorre na Europa. Não há qualquer regulação no mundo. Quando não financia dívidas públicas, esse dinheiro vai para bancos em paraísos fiscais, onde não paga imposto”, citou professor Dowbor, que falou dia 11 último aos alunos da Faculdade de Administração e Economia (FAE) sobre “Economia Mundial e Distribuição de Renda”.

Indo para o brejo     

Também consultor em diversas agências da ONU (Organização das Nações Unidas), governos e municípios, professor Dowbor coloca no mesmo nível de preocupação mundial a degradação do meio ambiente pelo homem. Citou exemplos de como grandes aquíferos no México, na Califórnia (EUA) e regiões do Mar Mediterrâneo estão esgotados por excesso de uso e contaminação química. Apontou ainda que 80% da pesca mundial é descartada porque peixes sem valor comercial caem na mesma rede dos mais cobiçados, como os tubarões por causa das barbatanas. Também alertou para o desaparecimento de espécies florestais como o mogno na Amazônia, ébano na África e palmeira de dendé na Indonésia por conta de desmatamentos promovidos por ruralistas e especuladores imobiliários.

“Este planeta está indo para o brejo com rapidez fascinante”, brincou.

Ao drama da financeirização da economia e do desafio ambiental o professor acrescentou uma terceira trava a qualquer sinal encorajador de desenvolvimento mundial: a concentração de renda. Citou que o mundo produz US$ 70 trilhões em bens e serviços para 7 bilhões de pessoas, o que resultaria em confortáveis US$ 7 mil mensais, em média, por família de quatro pessoas. A safra mundial de grãos também é generosa, pois rende mais de um quilo por dia por habitante.

Mas a conta do bem-estar social para todos não fecha porque 1% da população do planeta detém mais de 50% do patrimônio acumulado ou – em números mais surpreendentes – 85 famílias somam mais riqueza do que 3 bilhões de pessoas (quase metade da população da Terra), segundo números do último Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

4 bilhões na pobreza e miséria     

“Por que tanto dinheiro para tão poucos? É a financeirização iniciada nos anos 1980 por Ronald Regan e Margaret Thatcher, nos Estados Unidos e Inglaterra, que desarticularam o conjunto de leis que regulava o sistema financeiro”, apontou professor Ladislau Dowbor, acrescentando que isso colocou na máscara de oxigênio, respirando por aparelhos, 4 bilhões de pessoas nas linhas de pobreza e miséria – 2,5 bilhões sobrevivem com US$ 2,5 por dia, 1,3 bilhão com US$ 1,25 ao dia, além de 800 milhões que passam fome (180 milhões das quais, crianças).

“Ninguém consegue pensar o planeta. São 192 nações na ONU debatendo e não uma há governança mundial”, reclama o economista, que não demoniza o sistema capitalista em si, mas o que se faz com o movimento do dinheiro. Citou a Suécia, onde a carga tributária de 55% a 60% é bastante superior aos 35% médios do Brasil, mas cujo destino é o investimento no bem-estar coletivo.

“O sueco vai para uma reunião política não para aplaudir candidato, mas para saber onde será plantada mais uma árvore, onde vai encontrar rede wi-fi de internet. Na Suíça, que também é capitalista, o frentista de posto de gasolina aproveita a hora do almoço para se banhar em piscinas públicas no verão ao lado de gente com maior poder aquisitivo. A sociedade funciona onde as pessoas aprenderam a se apropriar das transformações sociais, econômicas e políticas. Os montantes financeiros que rodam os bancos do mundo devem servir para refinanciar a inclusão produtiva de milhões de pessoas e processos sustentáveis de produção” provoca o professor, cujo site (www.dowbor.org) disponibiliza gratuitamente artigos científicos e livros sobre economia mundial e sistemas de governança, entre outros.

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
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