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Em palestra na Metodista, professor português revela confidências silenciosas de Fernando Pessoa

Grande apreciador e estudioso do poeta lusitano, Fernando Carmino Marques falou aos alunos do curso de Letras (Tradutor e Intérprete) sobre entrelinhas presentes nos versos do artista

14/06/2016 13h15 - última modificação 15/06/2016 12h25

Entre o final de maio e o começo de junho, o professor português Fernando Carmino Marques esteve em visita na Universidade Metodista de São Paulo para ministrar a série de palestras “O Ser, a Consciência e o Agir em Fernando Pessoa”.

A programação do professor na Universidade contou com o apoio da Assessoria de Relações Internacionais da Metodista. Marques palestrou para os cursos de Administração, Letras, Pós-Graduação e ainda ofereceu um curso sobre o poeta para os programas de Mestrado e Doutorado em Educação, Comunicação e Ciências da Religião.

Docente no Instituto Politécnico da Guarda e nas universidades de Lisboa e do Algarve, de Portugal, Marques é considerado especialista na obra do conterrâneo e poeta Fernando Pessoa. Como parte de sua agenda no Brasil, o professor falou aos alunos do curso de Letras (Tradutor e Intérprete) no evento Fórum Cultural, em 25 de maio.

A palestra abordou o percurso de uma repetida e silenciosa confidência deixada pelo poeta em seus versos durante longos anos, sempre de forma permanente. “Fernando Pessoa se esconde para se revelar, essa é uma constante em sua obra”, afirma o professor.

Entre os principais elementos da obra do artista lusitano, Fernando Carmino Marques destaca a tensão existencial presente nos poemas e explica que o sentimento persevera em todo o percurso literário do poeta. “Fernando Pessoa era um homem que vivia em paz com os homens e em guerra com ele mesmo”, definiu.

Versos escritos em diversos anos revelam a constância do sentimento de desalento existencial. Para demonstrar o caráter permanente da desesperança, o especialista trouxe aos alunos uma série de estrofes que evidenciam o fato. Entre elas: “E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz” (1916); “Não sei quem sou ou qual o fim a dar. A tanta dor, a tanta ânsia par” (1919); “Dói viver, nada sou que valha ser” (1923); e “Se a gente cansa do mesmo lugar. Do mesmo ser, porque não se cansar?" (1931).

A complexidade do poeta ganha mais elementos quando levados em conta os inúmeros heterônimos por ele criados, cada um deles com personalidade e características próprias. “Pessoa é um caso interessante inclusive para a psiquiatria. Muitas vezes foi acusado de louco. Não era, nunca foi. Simplesmente vivia intensamente a dor de seus heterônimos”, explica Marques.

E para desvendar o que revelam as palavras de Pessoa, Marques aconselha aos leitores a dúvida constante a respeito do que mostram as estrofes escritas, já que o artista “diz uma coisa querendo dizer outra”. Além disso, afirma que o foco do entendimento da obra e do sentimento do poeta reside exclusivamente em sua poesia. “Pessoa vivia abundantemente sua arte, seu poder habita nas palavras”, resume.

Para finalizar sua fala, o palestrante compara o universo de Fernando Pessoa a um labirinto. “Não há certezas, trata-se de um artista que nunca se pode compreender por completo. Essa inquietação gera uma satisfação única em lidar com a sua obra”, concluiu.


Lançamento de livro e entrevista

Fernando Carmino Marques aproveitou sua passagem pela Metodista para divulgar seu mais novo lançamento a respeito da obra pessoana. No livro, o pesquisador português organiza e edita os manuscritos do teórico francês Pierre Hourcade sobre o poeta.

O Portal da Metodista conversou com o especialista sobre sua nova obra e a paixão pela poesia de Fernando Pessoa. Confira os principais trechos:

- O lançamento
“O livro se chama ‘A Mais Incerta das Certezas - Itinerário Poético de Fernando Pessoa’ (edições Tinta da China, Lisboa). É um estudo que consegui recuperar do primeiro tradutor e grande amigo de Pessoa, Pierre Hourcade. Eram inéditos que andavam dispersos por vários países, sobretudo pela França e pelo México. Descobri cartas e outros materiais, reuni tudo e montei o texto. Portanto, é um estudo bastante interessante sobre a obra de Pessoa a partir de alguém que o conheceu muito bem”.

- Revelações do livro
“A obra acrescenta informações sobre Fernando Pessoa e nos permite entender um pouco mais sobre o poeta. O estudo traz a dimensão humana do artista, principalmente a questão da dor. Em uma leitura mais atenta, podemos verificar o percurso do sofrimento. É como se o homem Fernando Pessoa começasse a se desenhar perante nós”.

- A entrada no universo pessoano
“O meu ingresso no mundo de Pessoa se deu de maneira semelhante ao da maioria das pessoas. Primeiro, a descoberta no início e o fascínio. Ao mesmo tempo, o repúdio pela inquietação gerada pela obra. Ler Álvaro de Campos não é fácil, é um revolucionário. E quando o sentimos, nos identificamos muito e temos tendência a fixar-nos para com a vida. Com Fernando Pessoa é preciso ter esse cuidado. Saber estar dentro, com ele, e ao mesmo tempo ter um pézinho fora para não ficar como eu”.

- Especialista em Fernando Pessoa
“Não gosto de ser classificado como especialista em Fernando Pessoa. Prefiro ser anunciado simplesmente como alguém que gosta muito de Fernando Pessoa”.

- Outros interesses
“Gosto muito de poesia em geral. Gosto muito de um grande poeta brasileiro, o Manuel Bandeira. Aprecio bastante Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade e vários poetas. Gosto sobretudo do poder da palavra, de estudar o poder da palavra”.

- A palavra
“É no poder da palavra que reside a grande qualidade de Fernando Pessoa. Sua poesia tem a capacidade de aproximar pessoas por meio da língua, ainda que elas sejam diferentes”.

- Pessoa: poeta popular?
“Se adotarmos como popular aquele lírico sem reflexão, Fernando Pessoa não se enquadra ao termo. Porém, o considero muito popular atualmente. Com muita frequência, encontramos pessoas que gostam do poeta e se identificam com seus versos ainda que não possuam grande formação. Isso é marcante, é isso que é importante. Pessoa realmente diz qualquer coisa às pessoas”.

- Portugal x Brasil
“O fascínio da obra é o mesmo nos dois países. O Brasil tem um grande apreço por Fernando Pessoa. E, nesse caso, penso que é a língua que nos une e nos permite sentir o mesmo sabor das palavras”.

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