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Negócio solidário tem que ser dirigido com habilidade gerencial, conclui pesquisa de professor da FAE

Apenas uma de seis cooperativas estudadas se destaca pela habilidade gerencial da presidente e pela confiança mútua entre cooperados

19/06/2015 19h48

fotospublicas.com Paulo Zottino

Falar em visão gerencial com nuances de organização empresarial em economia solidária, a princípio, pode assustar. Afinal, isso remete à busca por resultados financeiros, controle de números e centralização de gestão, o que conflita com os pilares básicos do empreendedorismo de autogestão, que são solidariedade, cooperação, confiança mútua e principalmente gestão democrática.

Mas segundo pesquisa recém-concluída pelo coordenador do curso de Administração da Universidade Metodista de São Paulo, Douglas Murilo Siqueira, apenas o princípio de solidariedade não faz um empreendimento autogestionário sobreviver. É preciso ter um pé na cozinha de ferramentas tradicionalmente aplicadas na gestão empresarial.

“A prática da economia solidária nos empreendimentos investigados ainda está distante de seus principais princípios. O movimento da economia solidária é importante e viável, mas tem que haver capacitação maior de lideranças, principalmente de habilidades gerenciais e de fomento da confiança mútua”, cita professor Douglas, que concluiu tese de Doutorado sobre seis cooperativas de reciclagem de resíduos sólidos na Grande São Paulo (uma em Cotia, duas em São Bernardo, uma em Mauá, Diadema e Ribeirão Pires).

Os resultados surpreendem: somente duas (ou um terço) mostraram maior aderência aos pilares da economia solidária e, destas, apenas uma demonstrou maior sustentabilidade econômica por meio do princípio da confiança mútua. “Este empreendimento mostrou possuir uma gestora com habilidade gerencial como elemento central na formação da confiança dos cooperados, diferente dos demais negócios estudados”, descreve o professor da Metodista.

Poder e confiança          

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fotospublicas.com Elizabeth Nader

Seu estudo tomou como base duas variáveis principais: poder e confiança em empreendimentos de autogestão, ou seja, como se dá essa relação de mando e cooperação. A única cooperativa que mostra ter acertado a mão é a que demonstrou ter em sua presidente habilidades gerenciais e visão processual.

“Ter visão gerencial não significa que não é economia solidária. Uma visão híbrida, ou seja, o uso de ferramentas empresariais de gestão ajuda na sustentabilidade do negócio. A cooperativa que está dando certo paga 15 dias de descanso ao ano aos cooperados, além de reservar um valor financeiro para retirada dos que se desligarem do negócio e de um valor adicional para o final do ano. Prepara um sucessor administrativo e não perde sua essência de solidariedade. O grande desafio das demais cooperativas é vencer o quesito confiança. Poder horizontalizado (compartilhado) significa ter confiança mútua”, sublinha o autor da tese, intitulada “Confiança e poder dos stakeholders internos no contexto da economia solidária: uma contribuição para o estudo das associações e cooperativas de recicláveis do Grande ABC paulista e Cotia”.

Embora seja um corte regional e limitado a seis empreendimentos, o universo pesquisado é considerável: mais de 60 horas de entrevistas em profundidade com gestores e diversos cooperados, além de 120 horas com outros 121 cooperados.

Não é novidade que uma organização solidária se comunica e se entrelaça com públicos de baixa renda, alguns bastante claros, como os negócios familiares, outros desconhecidos, como catadores de resíduos sólidos. Mas para todos eles a confiança deve ter a mesma identidade, tem que estar presente a serviço da estratégia organizacional para que as associações e cooperativas possam existir.

Democracia x autocracia          

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fotospublicas.com Marcelo Casal Jr
          

Se é o principal diferencial da economia solidária, a autogestão, por sua vez, pressupõe que o poder seja horizontal, pois cada cooperado/associado é ao mesmo tempo proprietário, consumidor e trabalhador. Foi diante destas duas variáveis (confiança e poder) e suas tipologias que professor Douglas chegou a algumas conclusões inusitadas, já que, segundo ele, há pouca pesquisa de economia solidária sob o prisma da administração (voltada a números e resultados) e mais sob bases das ciências sociais, ou seja, de inclusão social e visões mais ideológicas, “que são importantes para o movimento, mas que precisa de investigações mais empíricas que possam ajudar no fortalecimento dos empreendimentos”, diz.

Alguns resultados de sua tese:

• Os seis empreendimentos, em sua maioria, possuem relação de confiança pautada no utilitarismo (confio porque alguém vai me dar algo em troca. É uma transação: acabou a troca, acabou a confiança).
• Somente duas cooperativas foram identificadas com confiança do tipo relacional (que gera relações mais duradouras, porque pautadas na confiança mútua).
• Quanto à tipologia de poder, duas foram caracterizadas como autocráticas (verticalizadas, centradas na decisão do gestor principal, “talvez porque os associados não estivessem preparados para assumir atividades gerenciais”, comenta o professor).
• Uma cooperativa foi classificada como instrumento (quando há grupos de interesse em ação, como prefeituras que subsidiam a operação, empresas que investem em responsabilidade social ou que compram o produto final). Significa que a coalizão externa é mais forte que a coalizão interna. Pode, neste caso, interagir nas decisões da cooperativa, que deveriam ser de cunho coletivo e interno.
• Só duas cooperativas têm a tipologia de poder missionário (baseado na missão da solidariedade, da agenda coletiva)
• Um empreendimento está em transição de poder autocrático para missionário.

Ao considerar que a confiança do tipo relacional (confiança mútua) e o poder do tipo missionário seriam as tipologias prevalentes nos empreendimentos solidários, conclui-se que apenas duas cooperativas mostraram maior aderência aos princípios da economia solidária. Por outro lado, a pesquisa mostra que a autocracia é a que sobressai: em todas o gestor principal nasceu com o empreendimento (alguns com 10 a 15 anos) e esse gestor acaba tomando posse do negócio. “Mesmo porque, os demais cooperados, muitas vezes, não querem e não foram preparados para assumir a gestão. Daí a dificuldade de difundir a relação entre confiança e poder”, comenta o autor da pesquisa.

Oportunidade x necessidade      

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fotospublicas.com Fábio Arantes

O empreendimento estudado que se mostrou mais viável economicamente -- e que tem como componente de confiança mais importante justamente a habilidade gerencial -- surgiu “pela oportunidade”. Há 10 anos, a presidente passou a se incomodar com a poluição do rio que cortava os fundos de casa. Por iniciativa própria, começou a mobilizar a vizinhança para ajudar na limpeza. Da preocupação com o meio ambiente surgiu a cooperativa de reciclados. A presidente tornou-se líder e coach, repassando pessoalmente os valores do associativismo.

“Fui três ou quatro vezes para fazer entrevistas, porque não queriam parar a produção e impactar no resultado. A presidente está sempre presente, orientando a cada chegada de caminhão e despejo de material na esteira. Há realmente um processo colaborativo, sincronia na separação, velocidade na escolha, muita produtividade. Eles têm refeitório, compram alimentos e fazem a própria comida sem cobrar nada. Não dispõem de rede de distribuição ou subsídios governamentais como as outras cinco cooperativas. São de fato os princípios da solidariedade colocados em prática”, relata professor Douglas.

O comprometimento nessa cooperativa pode ser medido pela maior aspiração no momento: 100% querem ter um galpão maior, ou seja, ampliar o negócio e auxiliar mais pessoas.

Nas demais cinco empresas estudadas, ao contrário, pelo menos 40% desejam ser registrados em carteira pela CLT, o que foge aos preceitos da autogestão e partilha do associativismo e do cooperativismo. Professor Douglas Siqueira acredita que tal postura pode ocorrer pelo fato de essas cooperativas terem surgido “por necessidade”, algumas em decorrência da desativação do lixão do qual os atuais cooperados tiravam o sustento, outras forjadas por catadores e pessoas em situação de desemprego.

“Essas pessoas foram inseridas em uma atividade econômica pelos poderes públicos, que cederam galpão, fazem coleta porta-a-porta na cidade por elas, oferecem local para expor e vender produtos, capacitaram tecnicamente os catadores e há cidades que implantaram lei específica para economia solidária. Mas falta instigar e capacitar essas pessoas a ter confiança e partilhar ideias, a não enxergar ninguém como dono”, opina o professor da Metodista, que cita outro exemplo revelador: as seis cooperativas tiveram capacitação para trabalhar com lixo eletrônico, mas a que dá mais certo é a única que teve visão gerencial para trabalhar e ganhar dinheiro com as montanhas de entulhos eletrônicos descartadas nas cidades.

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
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